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Sugestões dos chefs: <i>Revolver</i>

Sugestões dos chefs: <i>Revolver</i>

Durval Mazzei Nogueira Filho
31.12.2003
01h00
Atualizada em
09.12.2016
21h03
Atualizada em 09.12.2016 às 21h03

Revolver - The Beatles

Lançamento: 08/1966
Produtor: George Martin

John Lennon: voz, guitarra e violão
Paul McCartney: voz, baixo, violão e piano
George Harrison: voz, guitarra, violão e cítara
Ringo Starr: bateria, voz e percussão




Tracklist:
Taxman
Eleanor Rigby
I´m only sleeping
Love you too
Here, there and everywhere
Yellow Submarine
She said she said
Good day sunshine
And your bird can sing
For no one
Doctor Robert
I want to tell you
God to get you into my life
Tomorrow never knows













Em abril de 1966, os Beatles entraram em estúdio para a gravação do seu sétimo álbum: Revolver. O título escolhido pela banda antecipa o que se ouvirá. Revolver certamente não é uma referência a uma arma de fogo. Vem do verbo "to revolve" e significa aquele que revolve, que faz surgir da mesma fonte o novo. Disco com 14 faixas e cada uma delas traz uma surpresa. Comecemos por elas.

O álbum abre com Taxman, de George Harrison. O guitarrista principal da banda ainda não se transformara no profícuo compositor que viria a ser. O interessante nesta faixa é a execução clean centrada na bateria de Ringo Starr e deixando espaço para os solos de guitarra tocados por Paul. Solos que, pela primeira vez em uma canção dos Beatles, vêm de uma guitarra distorcida. Outro detalhe: a letra da canção não se restringe ao amor. É uma bem humorada crítica aos impostos britânicos. Paul McCartney comenta que desde Rubber soul (o álbum anterior), a banda compunha pensando menos em seus fãs que na música.

Segue Eleanor Rigby, de Paul McCartney (observação: apesar dos créditos, no disco, referirem-se a Lennon & McCartney as composições geralmente eram de um ou de outro). Nesta canção, a participação decisiva é de George Martin, O Supremo Produtor no Céu - forma carinhosa como os "fab four" dirigiam-se ao maestro). Este ficou encarregado de transformar as idéias da banda em realidade sonora. Eleanor Rigby, composta originalmente em um violão constituída por no máximo três acordes, é executada por uma orquestra e soa sofisticada. E aqui vai uma lembrança bem antiga. Lembro-me de quando presenciei uma apresentação teatral de um grupo católico, nos sixties. Em certa altura da peça, numa crítica à distância que os jovens tomavam da igreja nesta época, a cruz era derrubada com estrondo sobre o palco. A música de fundo: Eleanor Rigby. Na letra da canção: "Padre McKenzie escreve as palavras de um sermão que ninguém ouvirá/ ninguém se aproxima". Neste mesmo ano, Lennon havia dito "somos mais populares que Jesus Cristo", frase que escandalizou os cristãos mais conservadores.

Próxima faixa: Im only sleeping, de John Lennon. Não houve um adolescente em todo o mundo que não se identificasse com: "por favor, não me acorde, não, não me chacoalhe/ deixe-me quando eu estou - estou apenas dormindo/todos me vêm como preguiçoso/eu não me preocupo, eu penso que são loucos/correndo para qualquer lugar velozmente/até encontrar o que não precisam". A execução da melodia obedece ao tema da letra. Cantada como faria alguém acordado contra a vontade e a guitarra encontra sons lânguidos e lentos para conferir veracidade ao canto.

Volta George Harrison com Love you to, canção composta na cítara, instrumento que Harrison aprendera a tocar no ano anterior, após fascinar-se pela filosofia e pela música indiana. George influenciou decisivamente os outros membros da banda com as perspectivas sonoras e com a lógica musical das composições hindus. Ravi Shankar, músico indiano e virtuoso ao entoar uma cítara, foi um ídolo do beatle. No disco, o exótico instrumento é tocado por George. A percussão é feita por outro instrumento indiano: a tabla, tocada por Anil Bhagwat, outro músico indiano. Wisnick, em seu livro O som e o sentido, esclarece que a música indiana pertence "ao sistema modal complexo", que se caracteriza pelo recurso a "nuances intervalares mínimas, estranhas ao ouvido diatônico e bem temperado da música tonal européia, para a qual formamos nosso ouvido". O que há para ser notado é que, muito antes da world music, o quarteto de Liverpool incluiu elementos musicais de outra concepção sonora. Em 1966 isto era uma novidade.

Here, there and everywhere, de Paul McCartney começa a tocar em seguida. Somos imediatamente transportados aos Beatles líricos e bem comportados que, seguramente existiam, até o álbum Help. A música linda embalou muitos apaixonados.

Yellow submarine é a próxima. Composta a quatro mãos por John e Paul, recebeu ainda a colaboração de Donovan. O vocal nesta canção é de Ringo Starr. Não há mais o que disfarçar: os Beatles assumem de vez a psicodelia. O submarino amarelo, um objeto inexistente no mundo real, assoma e se faz existente a partir dos devaneios subjetivos dos compositores. Inventa um mundo em que os amigos estão a bordo e a vida fácil provê tudo o que se necessita. Do submarino, o céu é azul e o oceano verde... Assistam ao desenho animado. Aprenderão mais do que por mil palavras o que significa "psicodelia".

Segue-se She said, she said, de John Lennon. O andamento da música é cheio de interrupções, o canto encontra um tom todo especial, a guitarra soa estridente e revela a busca por novas sonoridades. A letra acompanha o inusitado da execução sonora. O encontro entre um homem e uma mulher não é para falar de amor comum. A mulher quer saber se ele sabe como é estar morto e ele responde que ela o fez sentir como nunca desde que nasceu.

Na época do vinil, o lado B começava com Good day sunshine. Composição de Paul. A canção nos põe de volta ao lirismo beatle. A estranheza é o recurso a formas musicais dos anos 30, alternando-se com o estilo roqueiro.

Em And your bird can sing, Lennon volta a perseguir a trilha de uma nova sonoridade. A canção pode ser entendida como uma continuação do que a banda fez em She said, she said. Apesar da levada da música não obedecer à lógica das interrupções da canção anterior, não é uma canção que se escuta com o ouvido antigo.

E o lirismo volta com For no one, em que Paul é o compositor. No entanto, não é um lirismo ingênuo em uma composição ingênua. Certamente, o maestro Martin colocou pesadamente sua mão no arranjo. Seja no acompanhamento de piano, nas interrupções e na intervenção de um corno francês, tocado por Alan Civil, tanto no solo quanto acompanhando o vocal.

Dr. Robert segue o estilo que Lennon impõe: como a guitarra pode soar? Lânguida para representar o acordar contra a vontade? Estridente e pouco confortável como aponta a relação entre homens e mulheres afastados dos sonhos adolescentes? Ou desafiadora como a letra sugere? Segundo os próprios beatles, é uma referência aos doutores Feelgood ou Feelright que pontificavam em New York, distribuindo cocktails de anfetaminas para seus pacientes. Uma referência direta à presença das drogas na feitura do disco e na vida dos Beatles.

Mais uma vez Harrison: I want to tell you. Música tranqüila se não fosse o acompanhamento por um piano que ameaça uma ligeira dissonância.

Volta Paul. Got to get you into my life como novidade instrumental traz um naipe de metais desde a introdução. Uma levada bem rock n roll, enriquecida pelos metais e, novamente, a intervenção de guitarras em busca de novas fronteiras sonoras. O detalhe: a música passaria como um libelo romântico se não fosse a última estrofe: "outra estrada aonde talvez eu pude ver um outro tipo de mente lá". Não é necessária muita esperteza para saber qual o amor que Paul encontrou em sua vida.

O disco encerra com a música mais estranha das 14. Tomorrow never knows, obra de Lennon. Cítara, orquestração, dissonâncias, percussão heterodoxa, voz alterada por algum primitivo recurso de estúdio. Enfim, pura curtição que se segue na letra: não há como negar, não há como não perceber a descrição de uma viagem.

******************

Enfim: qual a importância deste sétimo álbum dos Beatles? Na opinião dos componentes da banda - que coincide com a minha - este é um disco que continua as indicações de que algo mudaria no rock. Tais indicações estão presentes no disco anterior da banda: Rubber soul. As letras são menos ingênuas, novas sonoridades são procuradas e encontradas, a clássica guitarra busca novos sons, a cítara é incluída, a orquestra passa a desempenhar um papel decisivo, a percussão pode embrenhar-se por ritmos mais exóticos. Os músicos dedicados ao rock haviam crescido, o mundo em volta havia se transformado.

O rock não se restringia mais a um fenômeno meramente adolescente. Não bastava mais cantar amores impossíveis, carros velozes, cartas de amor que não chegam ao destino, chuva que não permite sair de casa para namorar.

Paul e George comentam o efeito que o disco Pet sounds, dos Beach Boys, teria causado e cujas conseqüências seriam realmente sentidas em Sgt. Peppers Lonelly Heart Club Band, seu próximo álbum. Da mesma maneira, referências aos eruditos John Cage e Stockhausen perpassam o interesse dos Beatles. Não creio equivocar-me ao afirmar que o conhecimento musical de George Martin incluía as experiências seriais destes autores e as aplicou pelo menos na música que encerra a obra: Tomorrow never knows.

Assim, se não uso equivocadamente os termos musicais, Revolver traz uma mescla de música tonal convencional, de música modal indiana e a música serial dos eruditos contemporâneos.

E isto não é pouco.

Influências

Creio que a influência principal que os Beatles tiveram foi do espírito do tempo. No entanto, podemos falar do que acontecia no underground londrino e norte-americano que resultou no surgimento do Pink Floyd (primeiro single é de 1966), o trabalho do Moody Blues que resultou na primeira experiência sinfônica no rock (o disco Days of a future passed é de 1967), o single do Procol Harum (A white shade of pale é de 1967). Mas, fundamentalmentem a tentativa de fazer do rock música séria e incluir elementos eruditos (clássico ou contemporâneo) e jazzísticos. A influência admitida pelos próprios componentes da banda é o Pet sounds do Beach Boys.

Influenciados

Seja pela ousadia beatle, seja pelo espírito do tempo, os influenciados foram as bandas que participaram da British Explosion: Rolling Stones e o disco Their Satanic Majesties Request, Hollies e o disco Evolution, os discos do New Animals, etc.

Assista

DVD Beatles Anthology, em especial os volumes 5 & 6, as filmagens do Festival de Monterrey, da Ilha de Wight, Woodstock, os filmes Privilégio, O sonho não acabou, Simpathy for the Devil de Godard, o Let it be, Alices Restaurant com o Arlo Guthrie...

Ouça

West Coast Pop Art Experimental Band, o Chocolate WatchBand, o Manfred Mann Group. Pegando os primeiros discos destas bandas pouco conhecidas e comparando com os seguintes verão a tremenda transformação musical mesmo na margem do grande sucesso popular.

Leia

Rock and Roll. Uma história social, de Paul Friedlander; Rock: o grito e o mito, de Roberto Muggiatti; O som e o Sentido, de José Wisnick.

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