Queremos! joga no eclético com Baianasystem, Father John Misty, Cut Copy

Créditos da imagem: Queremos!/Divulgação

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Queremos! joga no eclético com Baianasystem, Father John Misty, Cut Copy

Aumentada para o formato de arena, iniciativa segue atendendo aos fãs de nichos musicais

Marcelo Hessel
27.08.2018
15h56

Plataforma conhecida por viabilizar, via financiamento coletivo, shows no Brasil de artistas estrangeiros em uma escala pequena-média, para fãs, o Queremos! realizou no último sábado seu primeiro festival grande, no Rio de Janeiro. O resultado soou menos como uma seleção de artistas com uma curadoria linear e mais como uma multiplicação de pequenos shows de nicho - o que acabou diluindo a experiência de quem foi à Marina da Glória para as 14 horas de apresentações.

Festivais são, em geral, uma oportunidade de encontros de tribos distintas, mas no Queremos! isso ficou ainda mais evidente. Havia os indies discretos de camisa xadrez, atrás do som cerebral do Animal Collective, que acabaram se misturando ao público de perfil mais casual em shows como o de Father John Misty e Boogarins. Havia o grupo do hip hop e da black music, interessada em Rincon Sapiência, que poderia migrar para o Baianasystem. E havia os fãs de eletrônica e das experiências mais performáticas, contemplados com Ionnalee, Cut Copy.

O som dos dois palcos do Queremos! - onde os shows aconteciam intercaladamente e não competiam - atendeu bem à sonoridade dessas atrações variadas, e a proximidade dos dois palcos realmente permitia que os presentes andassem de um para o outro sem estresse. A estrutura estava pronta, em outras palavras, para que o público realmente transitasse entre atrações bem diferentes, mas não foi toda banda que atendeu bem a esse apelo de festival e galvanizou atenções. Animal Collective (com seu perfil mais experimental e anticlimático), Xênia França (com um show picado, feito de interrupções discursivas) e Baianasystem (cujo som depende muito de uma conexão com a massa e não só com a rodinha de convertidos) tiveram dificuldade em manter a atenção do público menos compromissado. Vocalista da banda baiana, Russo Passapusso até tentou ligar a plateia na base da convocação, mas à meia-noite a evasão da Marina já começava a se sentir.

Quem se saiu melhor foram os artistas com som mais popular ou hipnótico. No segundo caso, o Boogarins mostrou que todos os seus anos fazendo turnês nos EUA e na Europa com seu rock rural psicodélico deu ao grupo um entrosamento invejável; está aí um bloco sonoro de baixo, guitarra, voz e bateria que realmente envelopa o público com suas reverberações. No primeiro caso, Father John Misty fez uma apresentação bastante competente, escudada pela voz e pela presença do vocalista Josh Tillman - cujo microfone estava mais alto e a cada começo de canção (como "Please Don't Die") já batia no público com timbre seguro, demandando a atenção das pessoas mesmo nas faixas mais atmosféricas ("Strange Encounter", por exemplo, saiu ligeiramente mais lenta e soturna do que no registro de álbum). O fato de Father John Misty vir ao país no auge da carreira, na turnê do elogiado disco God's Favorite Customer, sem dúvida ajudou a apresentação.

Primeiras vezes sempre são um desafio, e o Queremos! enfrentou seu debute em espaços de arena com muita coragem, com um line-up que se prometia eclético e soou por vezes quase esquizofrênico. A variedade de atrações denota, de qualquer forma, a simpatia que marca a iniciativa. O Queremos! começou como uma ideia para atender bases de fãs, nichos de pessoas que vão a shows pelo ritual e não pelo rolê, e o que se viu neste primeiro festival - embora coletivamente possa ter parecido diluído - foram atenções individuais atendidas com boa estrutura, bom som e muita boa vontade.