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O show do Television no Sesc Pompéia

O show do Television no Sesc Pompéia

Fernando Tucori*
31.10.2005
01h00
Atualizada em
11.12.2016
23h05
Atualizada em 11.12.2016 às 23h05

Eram sete e pouquinho e a noite de terça já vinha caindo quando eu cheguei em casa, na loucura, pra pegar o ingresso pro Television e zarpar direto pro Sesc Pompéia, porque, como bem se sabe, show por lá começa na hora certa, termina cedo e colabora com a pizza pós-balada.

A gente tinha que correr pra lá logo, contar com todos os recursos disponíveis no tesouro nacional e com toda a boa vontade de estranhos porque, ao todo, éramos quatro pessoas com apenas três ingressos para um show que estava completamente esgotado.

Não era qualquer show.

Era o Television. A banda de Tom Verlaine e Richard Lloyd e suas guitarras que tagarelam entre si o tempo todo. O Gui disse que ia tentar pular pra dentro do show de algum jeito e deixar o ingresso dele com a Rose, mas logo que chegamos lá e ficou claro que seria impraticável, esperamos o Marcelo, que poderia chegar com um amigo ou com um ingresso a mais. Minutos depois, ele chegou. Com um copo de vodka e só. Procurou e procurou pelo cara e, de repente, éramos três, com três ingressos e três sorrisos radiantes, indo adiante pela bilheteria e entrando na Choperia.

Até aí, tudo parecia bem real.

Depois disso, já não tenho certeza mais de nada. Tudo ficou meio numa bruma de sonho. Quando a gente entrou, a banda já estava no palco e tocava uma música que, de cara, não deu pra sacar qual era. Inédita. Parece que o nome dela é Swells. Se a gente tava procurando um bom indício de que o Television poderia lançar mais um disco, este seria o primeiro. Como ele, nesta noite de terça, houve mais dois. Ao todo foram três músicas inéditas no show.

E que show... Ver, ao vivo, as guitarras de Tom Verlaine e Richard Lloyd duelando é uma experiência catártica ao extremo. Assim que eles se engalfinhavam em um solo múltiplo, a coisa ficava eletrizante, como se, a qualquer momento, tudo pudesse dar errado, mas não. Tudo dava certo e cada um dos solos múltiplos equivalia a um orgasmo múltiplo.

É tentador ficar imaginando como é que aquela banda se comportava no palco quando o baixista era o diabo do Richard Hell. Fred Smith é mais na boa e toca muito, mas o Ricardo Inferno devia entrar nessa briga das duas guitarras, causando, com as quatro cordas em riste. 

Tinha gente na platéia que não fazia idéia do que tinha ido ver. Tanto é que ouvi um moleque perto de mim dizer ué...? o Fred Smith não tinha morrido?

Na comunidade do Television no orkut, um cara ficou reclamando que dois manés atrás deles ficavam reclamando que o show tava muito devagar e chegaram até a gritar liga no 220 que é rock! e felizmente acabaram indo embora antes da hora.

Para quem ficou frustrado com a curta duração do show no Rio, a noite de terça ensaboou, lavou e enxaguou almas. Tudo bem que eles não tocaram Friction mesmo que, de onde eu estivesse, fosse praticamente possível berrar o meu pedido - específico e particular -  diretamente na orelha do Richard Lloyd.

Isso também precisa ser dito: ver um show memorável como esse na Choperia do Sesc Pompéia faz com que ele seja ainda mais memorável. Primeiro porque o som do lugar é bom. Pra uma banda como o Television, o som TEM QUE ajudar e, lá, eles fizeram o que bem entenderam sem que a gente perdesse nada por causa de falhas técnicas. Outra que não tem muvuca. Não tem fila pra entrar e, uma vez lá dentro, tem espaço pra respirar. Eles não vendem ingresso a mais - apenas e honestamente o bastante. Mesmo com lotação esgotada nos dois dias, os shows estavam tranqüilos a ponto de permitir que os fãs mais ávidos chegassem tranqüilamente na cara do palco e lá babassem aos pés de Tom Verlaine que até sorriu para o público. Sim, o único cara que tem fama de ser mais sisudo que John Cale e Lou Reed juntos SORRIU. Foi justamente quando o batera, Billy Ficca, se empolgou num solo e a platéia começou a gritar o nome do cara, ele olhou e... sorriu.

E nessa hora o tempo parou.

E isso foi ótimo e providencial, afinal, o velho Ficca quebrou uma das baquetas no meio do solo e, justamente naquele momento em que o tempo parou, ele pode trocar e seguir adiante.

E não foi só nesse sorriso de Verlaine que o tempo parou. Houve mais dessas mágicas acontecendo o tempo todo, coletivas e individuais.

O tempo parou quando eles tocaram See No Evil, que foi, visivelmente exigida pela platéia.

O tempo parou quando a gente percebeu que a interminável Little Johnny Jewel tinha terminado.

O tempo parou quando Tom Verlaine continuou levando a base da música no braço da guitarra enquanto coçava a orelha com o outro braço, que era dele mesmo.

O tempo parou quando eles tocaram Marquee Moon, que fecharia o show, e a Rose e eu dançamos juntos, tentando acertar as pausas exatas das músicas, o que não rolava de jeito nenhum e fazia do momento ainda mais memorável.

As coisas sempre parecem parar quando você tem essa sensação exata de que está no lugar certo, na hora certa e tudo mais está certo.

Tudo.

O tempo parou quando eles voltaram para o bis e arregaçaram em uma belíssima versão de Glory, a música que abre Adventure, o segundo disco do Television.

Aí, o show termina, as luzes se acendem e tudo é muito rápido, como que pra compensar o tempo em que o tempo ficou parado.

A equipe técnica começa a recolher as coisas do palco e a gente fica olhando - em pânico - as mãozinhas se estenderem sobre o palco e catarem os setlists que a gente tanto queria.

No fim, depois de muito encher o saco dos roadies, a gente consegue que um deles descole a toalha que Billy Ficca usou no show e eu volto pra casa com ela em volta do pescoço, cheirando a hotelzinho barato.

Foi o show com que eu sonhei.

Dentro dele, couberam tantos outros sonhos, o que lembra uma música linda do Television, que se chama The Dreams Dream.

No show, eles não tocaram essa.

Mas, tudo bem... a gente toca agora.

(*) Colaboraram Guilherme Koreeda, Rose de Oliveira, Marcelo Callegaro, Dani Braun e Alex Menotti.