Luedji Luna fala de sua sonoridade diversa e a responsabilidade na música

Créditos da imagem: Luedji Luna/Divulgação

Música

Entrevista

Luedji Luna fala de sua sonoridade diversa e a responsabilidade na música

Cantora passa pelo Coala Festival neste final de semana

Julia Sabbaga
31.08.2018
16h13

Luedji Luna é, definitivamente, uma artista única. A cantora em ascensão, que passa neste final de semana pelo palco do Coala Festival, tem uma sonoridade cosmopolita que consegue ser ao mesmo tempo universal e profundamente pessoal, exemplificada em seu álbum de estreia, Um Corpo no Mundo. A baiana, que hoje mora em São Paulo, conversou com o Omelete sobre as suas influências e as principais questões que trata na sua música e fora dela, discorrendo sobre a canção de mensagem e o cenário musical hoje, principalmente para a mulher negra.

Luedji veio para São Paulo em um movimento para realizar seus sonhos: "Eu vim pra cá atrás de realizar um sonho, de cantar, de tornar minha carreira viável", ela explica. O que não sabia, no entanto, é quanto o movimento viria a influenciar a sua escrita: “Um Corpo no Mundo nasceu do modo como a cidade me afetou”. E a ideia fica clara na faixa-título do disco, onde ela explica: “Cada rua dessa cidade cinza sou eu”.

O movimento para São Paulo foi recente, mas resultou de uma vida sonhadora com a carreira musical: "Eu comecei a partir da escrita, compondo músicas na adolescência, mas cantar era minha brincadeira predileta desde criança. O que levou a essa carreira foi o desejo de viver do meu sonho. Eu não tinha sido conduzida a fazer isso da vida. O projeto era outro, e aos 25 anos eu decidi arriscar e acreditar no que meu coração mandava".

"Minhas heroínas hoje são Nina Simone e Elza Soares", ela diz, explicando daonde surgem as referências do trabalho. Com influências que passam por Milton Nascimento, Luiz Melodia, Tracy Chapman e Peter Tosh, o trabalho de Luedji soa cosmopolita pela raíz de cada um dos músicos que passou por Um Corpo No Mundo: as guitarras são do queniano Kato Change, o violão do filho de congoleses François Muleka, o baixo é do cubano Aniel Somellian, as percussões do baiano Rudson Daniel de Salvador e a produção do sueco radicado na Bahia Sebastian Notini. A composição é majoritariamente de Luedji, mas mistura de origens cria uma sonoridade única no álbum: "Eu não faço questão que o processo seja assim, mas se deu dessa maneira e fez todo sentido com a história que eu estava contando. Se eu estou falando de ‘não-lugar’ e ‘não-pertencimento’, o som não podia ter um recorte muito demarcado de lugar, não podia ser música africana, nem brasileira, nem baiana. E o fato de ter esses músicos de diferentes partes do mundo e do brasil, com diferentes narrativas e histórias, levou isso para o som. Cada um colocou sua identidade lá no momento da gravação e do arranjo".

Mas ainda além das sonoridades diversas, a música de Luedji trata de questões maiores. Em seu álbum de estreia, ela por vezes se distancia de questões pessoais e escreve de temas como violência policial ou a revolução haitiana. Isso é resultado de um amadurecimento na escrita desde 2012 até hoje: "Só o fato de ter saído de Salvador e ter vindo pra São Paulo me deu um outro olhar sobre a vida, sobre a cidade, sobre mim mesma. Acho que, em um primeiro momento, a composição e escrita eram mais introspectivas, e sinto que hoje eu volto o meu olhar para o outro, ou falo sobre o ‘eu que é nóis’". Em partes, isso é resultado, simplesmente, de ser uma mulher negra: "Ser negro é também trazer pra si a responsabilidade e o compromisso com a luta pela afirmação das nossas existências que são plurais, que são diversas. Ser mulher negra no mundo é ser atravessada pelas opressões, pelas violências deste mundo, e isso consequentemente se reflete em como a gente está no mundo, como a gente enxerga o mundo, e como a gente cria nossa arte".

Já começando a pensar em seu segundo disco, Luedji foca atualmente na divulgação do primeiro trabalho e se diz animadíssima com a participação no Coala Festival, onde passará pelo mesmo palco que um ídolo: “Estou muito feliz que eu vou pisar no mesmo palco com o Milton Nascimento. Eu estou muito surpresa, muito feliz e muito honrada. Não tenho nem palavras ainda pra definir o que vai ser esse encontro”.

O público vai poder conferir a apresentação de Luedji Luna no domingo do Coala Festival, no Memorial da América Latina, em São Paulo. Confira mais informações sobre o evento aqui e ouça abaixo Um Corpo no Mundo: