José González faz show lírico e virtuoso em São Paulo

Créditos da imagem: Thiago Lins

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José González faz show lírico e virtuoso em São Paulo

Público festivo recebeu o músico em espetáculo promovido pelo Queremos!

Thiago Lins
25.01.2019
18h22
Atualizada em
25.01.2019
18h35
Atualizada em 25.01.2019 às 18h35

As visitas de José González ao Brasil, infelizmente, são tão espaçadas quanto os lançamentos de seus discos. O cantor sueco, filho de argentinos, possui três álbuns lançados; Veneer (2003), In Our Nature (2007) e Vestiges & Claws (2015); e esteve no Brasil também em três oportunidades; em 2007, 2016 e agora, em 2019. No show da última quarta-feira, dia 23, ocorrido na casa de shows Audio, em São Paulo, González priorizou o repertório de Vestiges & Claws sem deixar de fora os sucessos dos demais trabalhos – e até mesmo um cover dos Beatles – na 1h20min de sua apresentação.

A noite começou com a bela “With the ink of a ghost”, faixa que abre seu novo disco, para logo em seguida voltar aos acordes hipnotizantes de “Stay in the shade”, de seu primeiro trabalho. Rotulado como “indie folk” pela crítica, o músico é um grande virtuose do violão. Formado em bioquímica, ele carrega suas preocupações e interesses – sejam eles científicos ou metafísicos – para suas composições.

Em “Down the line”, golpeando o violão de maneira percussiva, o músico fez o público dançar embalado pelos versos “Não lave a sujeira de suas mãos/ Você está cometendo o mesmo erro pela segunda vez”. Antes de executar “What Will” – canção que contém o verso que dá título a Vestiges & Claws – González explica que pensava sobre “o zeitgest, sobre o espírito de nosso tempo, sobre como as coisas mudam debaixo de nossos pés repentinamente, e sobre qual seria nosso legado para as próximas gerações” enquanto a compunha. A canção convida a todos a “lutar por uma causa comum”.

A noite seguiu com as emocionantes “The forest” e “Cycling trivialities”, desacelerando o ritmo e preparando o clima para a lírica “Every age”, que o compositor afirma ter sido inspirada pela fotografia da Terra chamada “Pálido ponto azul”. Em 1990, A Voyager 1, que tinha completado sua missão principal e deixava o Sistema Solar, recebeu ordens da NASA para virar sua câmera e tirar uma última fotografia da Terra em meio a vastidão espacial, a pedido do astrônomo e escritor Carl Sagan. Ao vivo, a canção começou com um longo e belíssimo dedilhado de violão que comoveu o público. Ela conclama a todos a “Fazer o melhor nesta curta estadia/ Construir um lugar em que todos pertençamos”.

“Abram”, próxima música da noite, é fruto das leituras religiosas de seu compositor, tema que corre ao longo de In our nature. Abraão é um personagem bíblico a partir do qual teriam se desenvolvido as principais vertentes do monoteísmo: o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. Na canção, González encoraja o profeta a acordar ou dormir de vez, já que “Você está sonambulando com uma cabeça delirante/ Você foi programado a muito, muito tempo atrás/ Suas histórias são antigas, e sua aclimatação é lenta”. Em seguida, em “Leaf off/The cave” o cantor convida a todos a parar um pouco e “reflita sobre quem você é/ Deixe que a razão o guie”. “Open book”, que veio na sequência, encerra o repertório do novo disco.

Para surpresa de todos, enquanta afinava seu instrumento, o violonista arranhou os primeiros acordes de “Blackbird”, dos Beatles, “essa é umas das primeiras canções que aprendi a tocar”. O público acompanhou o cantor e seguiu cantando junto até a última canção da noite, um dos grandes sucessos de González, “Killing for love”.

O bis foi composto por “Crosses”, “Heartbeats” e pela indefectível “Teardrop”, canção do Massive Attack em que González mostra sua incrível capacidade musical: primeiro introduz o tema da canção com um dedilhado realizado pelos dedos indicador a mindinho da mão direita, em seguida começa a cantar para, logo depois, ainda realizando o primeiro dedilhado, introduzir o baixo com um forte dedilhado do polegar da mesma mão. A impressão é que existem dois ou mais músicos no palco, e a reação do público é sempre a mesma, trazendo a casa abaixo.

José González é um grande músico, ainda desconhecido por boa parte do público brasileiro, que merece ser trazido mais vezes ao país para tocar em locais à altura de sua obra. Seu repertório, sempre tão candente, lírico e, por vezes, melancólico, casaria muito bem com a ambientação de teatros e até mesmo de salas de concerto. Um show obrigatório.