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Dekmantel: O festival de música que todo evento precisa ser

Com line-up diverso repleto de bons nomes e novidades, festival cria nova experiência para o público brasileiro

Jacídio Junior
13.03.2018
14h31
Atualizada em
19.03.2018
19h03
Atualizada em 19.03.2018 às 19h03

Quem costuma ir a festivais tem claramente na cabeça que um evento dessa categoria, além da música, precisa garantir experiência. A segunda edição do Dekmantel, realizada em São Paulo, provou que é possível fazer isso e que a forma de trabalhar com artistas e público não tem nada a ver com sorte de principiante.

A exemplo da primeira edição brasileira, que rolou em 2017 no Jockey Club, o line-up criado com atenção e vontade de garantir momentos em todas as possibilidades da música eletrônica - com nomes de diversas vertentes em um bom número de palcos - garantia um excelente cartão de visitas para um espaço ainda inexplorado na história recente de São Paulo, o antigo Playcenter.

A luz, o palco e a música. Receita certeira do Dekmantel.

Crédito: Ariel Martini

A chegada ao espaço era tranquila, os palcos bem montados (conceito e luzes na medida, o que fazia do DJ e sua música a estrela da hora) com boa distância entre cada um, o atendimento do bar - pessoas sempre sorridente -, preços dentro de uma realidade aceitável para um festival, banheiros em pontos estratégicos e com o máximo de conforto que um local montado pode oferecer (descarga, pias e limpeza) e, em conjunto com tudo isso, várias horas de música. MÚSICA para todos os gostos. Sim, em uma rápida caminhada pelo antigo Playcenter - com uma decoração que aproveitava de forma bem interessante a mata que toma conta do espaço - era possível cruzar com pessoas de variados estilos, felizes, dançando e sorrindo.

Não dá pra negar que uma das grandes forças da música eletrônica é a possibilidade de misturar. Entregar sons pesados, surpreender pistas e unir o estilo do artista com suas referências sem que isso soe pedante ou estranho.

Comandar uma pista vai além de soltar hits um atrás do outro. Logo, nesse mix entre nomes incríveis e consequentemente aptos a desafiar seus ouvidos o Dekmantel mostrou com quantos paus se faz um festival (perdão pelo trocadilho besta).

Foram dois dias - 3 e 4 de março -, nos quais aprender a desapegar é a ideia chave. Com uma curadoria tão vasta e a possibilidade de encontrar sons novos, que irão ficar na sua cabeça, ao caminhar poucos metros de distância, não dá pra chegar e ficar colado no Mainstage a noite toda. Apesar que isso é totalmente possível, já que - mais uma vez - o festival entregou a melhor programação de Mainstage que eu já pude ver na vida.

Assim, nada mais justo do que - depois de entender a ideia de um festival como o Dekmantel  - é necessário respeitar o chamado de algum lugar que você passou despretensiosamente e se manter focado no que está acontecendo à sua frente. E isso faz de cada momento na pista, o momento da sua vida.

E claro, cumpre com a expectativa deixada após o arrebatamento da primeira edição. Afinal de contas, depois de presenciar algo único em terras tupiniquins, muita gente ficou com a pulga atrás da orelha para saber como as equipes brasileiras e holandesas iriam entregar uma nova experiência, em um novo local. Mas eram necessários poucos passos no novo espaço para entender que tudo havia sido melhorado e que as noites de dança estavam, mais uma vez, garantidas.

Os dias e os artistas

No primeiro dia, Peggy Gou foi a bola da vez no Mainstage. Entregou um set monstruosamente construído e com muita gente dançando, enquanto o fim do dia chegava. Além da sul-coreana - com base em Berlim - quebrando tudo, ainda rolaram momentos memoráveis com nomes como Mano Le Tough, Kobosil, e por aí segue. E só ao citar esses nomes é possível ter uma ideia de quão vasto era o cenário distribuído em quatro palcos, mas o Na Manteiga com DJs mostrando seu som enquanto tudo era transmitido on-line.

Essa receita absurdamente bem condimentada, contou (durante os dois dias) com alguns dos principais nomes da cena nacional: Cashu, Carrot Green, Zopelar, Tessuto, a galera da Gop Tun, entre tantos outros estiveram por ali mostrando um pouco do que está acontecendo no Brasil eletrônico. Em conjunto com esses nomes, à exemplo de 2017, o festival também grandes nomes da música nacional para se apresentar por lá. Marcos Valle, Azimuth & DJ Nutts, Os Mulheres Negras... Todos contaram com um bom público, participando e cantando. E ai eu pergunto: Em que outro festival de música eletrônica você vai ter a chance de presenciar esses titãs no palco tocando para fãs e outras pessoas que terão seu primeiro contato com eles? Parece bem difícil, né?

E é bem aí que mora o maior segredo do Dekmantel: A música. Não ter medo de colocar linguagens sonoras que dialogam - por caminhos realmente amplos/diferentes -, apresentar nomes e sons novos e deixar que o público encare esses momentos da melhor forma possível.

Ainda falando sobre os nomes brasileiros, é muito louco ver como os gringos ficam hipnotizados por essas sonoridades. Isso é sempre um ponto positivo, afinal todo mundo tem contato com sons novos, sem medo de ser feliz.

Uma pista com Jayda G vai sempre além do básico.

Crédito: Gabriel Quintão

O segundo dia trouxe mais um line-up raro para a vida de um simples mortal. Marcel Dettman, Floating Points, Nina Kraviz, a abençoada Jayda G e o especial Four Tet que - mesmo depois de um problema técnico - fez mágica no Mainstage. Sério, é quase impossível não ser hipnotizado pela sonoridade que Kieran Hebden entrega em suas apresentações. Com certeza, um daqueles momentos em que o som te mantém colado no lugar, apenas dançando e deixando que a vida aconteça.

Falando sobre a experiência de andar pelo festival e descobrir novas sonoridades, no segundo dia uma das grandes surpresas durante as caminhadas entre um palco e outro aconteceu no Na Manteiga com o set de outro planeta apresentado por Elena Colombi. Sonoridade absolutamente inesperada que simplesmente me retirou da órbita e me manteve ali, dançando, até o derradeiro minuto.

Ah… E além do festival durante o dia, também rolou a edição noturna. Realizada no Sambódromo do Anhembi, não tinha uma aparência tão grandiosa quanto do antigo Playcenter, mas isso sem dúvida fica num plano bem inferior quando ao chegar llá você é recebido por sets de Lena Willikens, Teto Preto, um B3B com Marcel Dettmann, Nina Kraviz e Kobosil, mais Four Tet B2B Floating Points. Momentos como esses não são vistos com frequência em quase nenhuma parte do mundo e com isso o Dekmantel se torna o festival que precisa ser consumido na hora, sem moderação, e que ainda deixa muitos bons momentos guardados para a viagem.

E claro, abre os olhos de produtores e público para uma experiência completa, não só a música ou os palcos. E eu digo para o público porque como você seria capaz de cobrar algo incrível se nunca vivenciou situações incríveis?

Com isso o Dekmantel mostra que é, praticamente, obrigatório para quem gosta de música - qualquer tipo de música - e que esteja aberto para conhecer novas possibilidades sonoras. É uma experiência perfeita para quem está disposto a ser encantado da forma mais bela possível, por meio de um tratamento pensado para fazer com que cada momento dançando, comendo, bebendo, ou só olhando para o céu, seja inesquecível.

Dekmantel, ansioso pela edição 2019.