James Blake | Assume Form

Música

Crítica

James Blake | Assume Form

Em novo álbum Blake trabalha sons e sensações diferentes para ampliar seu público

Jacídio Junior
28.01.2019
16h03

É bem possível que James Blake seja, atualmente, um dos poucos artistas capazes de mostrar que dá para ser pop sem apostar em fórmulas para vender mais. Influente, com parcerias em faixas de Kendrick Lamar, Beyoncè, Chance the Rapper, Drake, entre tantos outros, o músico britânico quebra quase tudo que vemos e entendemos como necessário para fazer parte do círculo da “música de massa”, mas sem se tornar massivo.

Com isso em destaque, o inglês de 30 anos entrega seu quarto disco, Assume Form, uma mistura perspicaz que coloca em destaque o ponto no qual sua música nunca deixou de estar (a delicada tristeza de não entender alguns porquês de estar sozinho) e o encontro de dois corações em um verão eterno que o amor proporciona.

Essa ambivalência sonora gera um novo olhar sobre Blake que, com seu trabalho solo, sempre foi conhecido como “sad boy”, título que nunca quis ou almejou carregar. Essa discussão ganhou contornos ainda mais nítidos após ele se posicionar sobre uma crítica referente a faixa “Don’t Miss It” (primeiro single do novo álbum, lançado ainda em 2018). O artista comentou em nota que suas músicas funcionam como uma forma de falar sobre seus sentimentos, fraquezas e saúde mental e que sempre achou “a expressão problemática quando utilizada para descrever homens que falam abertamente dos seus sentimentos”.

Sob esse prisma, Assume Form é um álbum que busca encaixar os ingredientes de Blake em uma embalagem radiofônica e que funciona muito bem em grande parte do tempo. A sequência de abertura (“Assume Form” e a mistura confortavelmente atonal entre voz e piano, “Mile High” e seu apelo pop, “Tell Them”, “Into the Red”, e a sensual “Barefoot In The Park”, com a aposta mais interessante da música contemporânea, Rosalía) é uma boa prova disso. Nela encontramos não só sonoridades já conhecidas na carreira de Blake, mas também algumas camadas de absorção mais simples, como sua parceria com Travis Scott, que carrega elementos perfeitos para tocar em qualquer lugar e desbravar novas audiências.

De forma geral, o disco funciona muito bem, com faixas distribuídas entre a sonoridade melancólica e algo um pouco mais alegre. Essa mistura fica muito clara como resultado das participações de seu disco que, além de Scott, também traz a artista espanhola Rosalía, ingrediente importante para integrar uma sonoridade um pouco mais dançante como parte do universo apresentado pelo músico.

No entanto, nem só de bons momentos Assume Form é composto. Quando atingimos a metade do álbum, surge a faixa “Can’t Believe The Way We Flow”, que funciona quase como uma pausa dentro do trajeto criado pelo artista. A música soa de uma forma tão desajustada que mais parece ter sido criada para outro projeto, completamente diferente do que o disco se propõe até esse momento.

No entanto, depois desse chute perdido, a recuperação chega rápida com a impecável “Are You In Love?” e todas as suas camadas, algo que coloca em destaque uma das principais qualidades de Blake: trabalhar com uma combinação não ritmada entre voz e instrumento, a receita perfeita para criar uma atmosfera própria. Logo em seguida surge a participação de André 3000 em “Where’s The Catch”, o ponto alto do disco, simplesmente por apresentar um momento bem diferente dentro da estrutura sonora de Blake e mostrar que ele pode soar menos introspectivo sem perder sua assinatura.

A mudança de atmosfera, a alternância no ritmo e no flow apresentada pela faixa é um daqueles momentos no qual é quase impossível tirar a atenção do que está tocando. E sem dúvida, André é o fator principal desse jogo sonoro.

“Power On” é outro bom momento, com sonoridades simples sendo exploradas para criar um ponto de calma dançante, ela se apresenta como uma ideia não tão próxima de todo o restante do álbum, mas que - dessa vez - funciona como um elemento de atração para as outras faixas.

Na sequência, “Don’t Miss It” aparece para mostrar que sua forma e conteúdo funcionam perfeitamente para torná-la mais forte a cada nova audição. É uma música que permite interpretações diversas, por isso tão interessante, e que tem um dos lyric videos mais bacanas dos últimos tempos.

E sim, ela poderia encerrar o projeto talvez na atmosfera mais próxima da melancolia, mas Blake ainda encontra forças para entregar o momento mais introspectivo de Assume Form, “Lullaby For My Insomniac”, faixa que, de acordo com o próprio artista, foi escrita para ajudar alguém a dormir.

Essa é, talvez, a ideia de como funciona a calmaria depois da jornada intensa de sentimentos colocados no disco. Possivelmente a forma mais direta de acalmar os sentidos e refletir sobre o que cada faixa significou pra quem passou pelos quase 50 minutos do álbum.

Por fim, ainda com todos esses momentos reverberando, somos levados a acreditar que o passeio de Blake por essas facetas sonoras é uma forma interessante de conhecer um pouco mais de sua perspectiva musical. Cada uma das faixas acaba mostrando pra gente que ele pode criar algo diferente como parte de sua obra, que ela não está estática, e que ele pode crescer bastante nos próximos anos.

Nota do Crítico
Ótimo