Anderson .Paak - Oxnard

Música

Crítica

Anderson .Paak - Oxnard

Californiano se cerca de nomes conhecidos, conta com Dr. Dre na produção e entrega um projeto que poderia ter ido mais longe

Jacídio Junior
24.11.2018
12h35

Anderson .Paak é daqueles nomes que, depois que a gente conhece o que ele faz com sua música, é quase impossível não ficar ansioso por suas entregas. Com Oxnard, seu terceiro disco, que marca o encerramento da “trilogia das praias”, não foi diferente. Nesse novo projeto, o primeiro após assinar com a Aftermath, gravadora de Dr. Dre - que também foi responsável pela mixagem e produção executiva do disco - .Paak parece tentar entender como a possibilidade de trabalhar com mais tempo e dinheiro pode ajudar ou atrapalhar um ser criativo e musicalmente fora da curva.

Mantendo sua pegada solar e eufórica, mas na busca de encontrar elementos que o façam sair dos clubes e chegar aos estádios, o artista conta com a participação de nomes como J. Cole, Pusha-T, o próprio Dr. Dre, Snoop Dogg, Q-Tip, BJ the Chicago Kid, Kendrick Lamar entre outros, o que deixa nítida a vontade de conquistar um público mais amplo.

Com todas essas vozes reunidas, Oxnard entrega boa mistura sonora, swingada, regada por elementos de Funk, R&B e uma fluidez dançante que garante ao disco um status importante dentro do caminho sonoro trilhado pelo músico californiano, mas deixa um gostinho de que dava pra ir mais longe. Esse sabor fica ainda mais evidente após ler a declaração de .Paak em uma entrevista à Rolling Stone, na qual comenta que Oxnard é o disco que sonhou fazer quando estava no ensino médio, “enquanto ouvia The Blueprint [Jay-Z], The Documentary, do The Game, e The College Dropout, do Kanye West”.

O objetivo era alto, as expectativas também, mas apesar deste ser um bom disco, a sensação de arrebatamento que um nome como o dele gera nos fãs acabou não acontecendo de forma completa. É possível que isto seja um resultado da adaptação do artista a um ambiente com mais mãos trabalhando sua obra, algo que - invariavelmente - acontece quando você assina com uma major. 

Oxnard alterna entre momentos bons, como na 1ª faixa, "The Chase", que chega com elementos orgânicos, funkeados e que poderiam dar a tônica de todo o projeto, e músicas de menor impacto, como "Headlow". A dinâmica de uma música que instiga, seguida por outra não tão interessante se mantém por quase todo o disco. Com isso, ficamos felizes ao ouvir a  parceria com Kendrick Lamar "Tints" (faixa que melhora a cada repetição, com seu flow de verão) mas voltamos ao estado normal da vida com faixas mais mornas como "Who R U?", que - de alguma forma - parece não se encaixar ao que o disco se propõe.

"6 Summers", coloca o álbum pra cima ao entregar o elemento que parecia faltar ao conjunto inicial, criando um ponto interessante dentro da dinâmica do projeto e abrindo caminho para "Smile/Pety", um jato de ar fresco. A faixa surpreende e empolga, graças a mudança rítmica que mantém o interesse durante todo seu percurso, com quebras que pegam na mão da gente e conduzem para um dos momentos mais estimulantes de Oxnard, "Mansa Musa". A faixa que conta com vocais de Dr. Dre ganha peso e dinâmica, a cada play e é, facilmente, uma das melhores surpresas de Oxnard.

O caminho sonoro se acalma a partir de "Brother’s Keeper", que conta com a participação de Pusha T, e coloca em destaque uma pegada leve, mudanças atmosféricas e trocas sonoras que transformam a experiência auditiva à medida que a ‘história’ do disco vai sendo contada. A partir desse ponto a audição se torna mais coesa e estimulante, possivelmente por causa das participações de Snoop Dog, J.Cole, Q-Tip e Chicago Kid, que conduzem o álbum para uma fase contemplativa, sonoramente interessante e suave.

O final chega com "Left to Right", pra dar uma animada na vibe e deixar uma sensação de que o disco precisa ser ouvido novamente. E precisa mesmo. Após quase uma hora de música, dá pra perceber que a alternância entre momentos bons e momentos regulares não tira o brilho de .Paak, mas funciona como um fator limitante dentro da obra, seja pela interrupção do fluxo de boa música, seja pela constatação de que algo ficou faltando.

Por fim, Oxnard é, sem dúvida um bom disco, mas acaba caindo na armadilha das altas expectativas geradas por artistas extraordinários.

Nota do Crítico
Bom