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Cenas de um Casamento encontra as justificativas necessárias para ser revisitada

Atualização de grife feita pela HBO mostra ao que veio e conta com atuações fantásticas

Flávio Pinto
14.09.2021
18h29

Em junho de 2020, quando a HBO anunciou que daria uma atualizada na minissérie Cenas de um Casamento (1973), de Ingmar Bergman, pode ter sido possível ouvir o som do arranhar de disco pelo mundo inteiro. “Que audácia”, alguns cinéfilos ou devotos do diretor sueco devem ter pensado. Não por exagero, mas existem inúmeros exemplos de produções que foram revisitadas com pouco sucesso (aqui vão pelo menos duas listas cheias de exemplos) e que, de quebra, ainda lancinaram o juízo dos fãs das obras originais. 

Especialmente porque não estamos falando de qualquer produção, e sim de um título universalmente recepcionado como uma verdadeira obra-prima. Um projeto que inspirou diretamente filmes como Maridos e Esposas (1992), Antes da Meia-Noite (2013) e História de um Casamento (2019). Então, logo de cara, a produção adaptada por Hagai Levi (The Affair) já vem com peso nas costas - equivalente a quase cinco décadas de muito respeito -, e a responsabilidade de oferecer um ponto de vista que justifique a ambiciosa empreitada. 

Na nova versão de Cenas de um Casamento, somos apresentados à Mira (Jessica Chastain) e Jonathan (Oscar Isaac), um casal que já passou por melhores momentos matrimoniais. Com a rotina esmagada por crianças, tarefas cotidianas, carreiras distintas e o desgaste natural que uma vida a dois é capaz de oferecer, a dupla busca uma terapeuta de casal para tentar reanimar a paixão — ou pelo menos tentar descobrir o que está acontecendo entre eles. 

Flashbacks ajudam a elucidar algumas questões que explicam os motivos pelos quais o casamento começou a ruir, a começar por um caso extraconjugal de Mira. Ao lidar com a infidelidade, a série promove uma sensação diferente da original e introduz um desarranjo em relação às normas de gênero sobre a temática — já que comumente, na ficção, as mulheres se veem na condição de traída, e não o contrário. A sua justificativa se faz logo aí. 

Embora não anuncie, Mira consegue deixar bem claros os motivos pelos quais ela buscou outra pessoa para se livrar de um relacionamento tedioso. É muito reconfortante vislumbrar um cenário (fictício ou não) em que mulheres erram e assumem suas falhas, e sem remorso. Jonathan também não é um coitadinho. Egoísta e um tanto arrogante, é possível compreender como ele estava alheio à sua esposa — embora manter uma relação fora do casamento não seja a resposta apropriada para uma complicada situação a dois. 

O primeiro episódio até tenta persuadir o público de que estamos diante a uma produção original, existe o uso de artimanhas e de uma linguagem cinematográfica ousada para tal (como a sequência de abertura ilustra). Mas não precisa, a forma como Hagai Levi escolheu para bater nesse casal fala por si. Há quem vá traçar inúmeras comparações a obra original; mas ao tratar da nova minissérie como uma criação original e isolada, podemos presenciar as questões complexas que um casal precisa lidar no século XXI e, especialmente, como o papel da mulher (sob o filtro de um casal cis e branco) também mudou. Como bônus, ainda somos presenteados com uma interpretação excelente de Chastain e Isaac. 

A dupla, cuja química absurda ganhou rendeu algumas notas na imprensa após uma aparição de tirar o fôlego no Festival de Veneza, oferece todas as camadas para nos intrigar. Eles precisavam ser críveis, difíceis e empáticos o suficiente para nos fazer criar laços instantâneos e investir na derrocada desse relacionamento. E conseguem sem surpresa alguma. Ainda há mais quatro episódios da minissérie a caminho e, muito provavelmente, passaremos as próximas semanas com o coração na mão e investidos em um novo casal da televisão.

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