Matangi/Maya/M.I.A

Créditos da imagem: Matangi/Maya/M.IA/Divulgação

Filmes

Crítica

Matangi/Maya/M.I.A

Documentário é a peça certa para ressignificar obra e artista

Jacídio Junior
01.10.2018
12h45

O trailer de um filme é feito para empolgar, mas, quase sempre, o resultado que vemos na tela não tem o impacto transmitido por aquele pequeno recorte. Porém, Matangi/Maya/M.I.A. é tudo que o trailer apresenta e um pouco mais.

Rico em imagens de diversas partes da vida de  M.I.A. (Mathangi Maya Arulpragasam), o documentário, dirigido por Steve Loveridge (amigo da artista), é construído com momentos de quase todas as fases da cantora, graças a sua vontade de ser documentarista. Isso nos dá registros de conversas com a família, danças com seu rádio, seus primeiros trabalhos e o surgimento da artista para o público mundial.

Os detalhes vão surgindo aos poucos, como a confissão de que seu primeiro contato com a cultura ocidental aconteceu por meio da música. M.I.A. era fã de pop e posteriormente (após perder seu rádio) descobre e passa a ser influenciada pelos graves do Rap/Hip Hop. O documentário funciona de maneira dinâmica, com cortes temporais que apresentam a jovem imigrante em todas as suas facetas, mostrando sua chegada à Inglaterra, como refugiada de um país em guerra (seu pai era acusado de ser terrorista no Sri Lanka), e construindo a cada momento toda essa amálgama de acontecimentos que a leva até o caminho da sua música e das escolhas que a fazem ser quem é hoje.

É interessante perceber que sua jornada musical, a qual temos acesso, não foi planejada. Maya, enquanto cursava faculdade para se tornar documentarista, teve a oportunidade de trabalhar em uma turnê da banda Elastica, graças a sua amizade com a vocalista, Justine Frischmann. Após algum tempo na estrada, sempre com uma câmera na mão, alguns traços do que viria a ser M.I.A. começam a ganhar força, e ela passa a se incomodar com Justine por não usar a visibilidade que tem no palco para expressar ideias. Essa necessidade, e o contato com a banda, aos poucos criam o caminho para que sua expressão artística comece a surgir, tanto que suas primeiras composições (ainda em cassete) foram criadas não para ela, mas sim para Justine.

Outro detalhe relevante para sua formação pessoal e artística acontece quando M.I.A. faz uma visita ao Sri Lanka, depois de mais de uma década distante de sua família. O contato com a guerra e com a situação que seus parentes vivem a transforma. A partir desse momento é possível notar como esse encontro, as histórias e a aproximação com suas raízes mexem com sua criatividade, criam os elementos que tornariam seu discurso mais afiado e a coloca no caminho da criação sonora com elementos étnicos definidos e que são compreendidos de forma impactante ao redor do mundo. Seguindo daí, também é possível ver trechos de sua apresentação para conseguir um contrato com sua primeira gravadora, o que acontece sem sobressaltos. Por fim, ela estava no lugar certo, na hora certa. Sua música não teria tanta projeção se não estivesse na Europa e provavelmente não teria sido considerada se ela morasse nos Estados Unidos.

A carreira em sua etapa norte-americana

Os Estados Unidos têm um papel interessante em sua história, já que o país funciona tanto como um ampliador de seu público, a levando para as massas, e depois se transformando em um lugar que cerceia seu discurso em busca de enquadrar a artista dentro dos padrões de venda de seus consumidores. No trecho que aborda sua quase transformação em uma artista de massa, um elemento importante recebe pouco destaque, Diplo. No desenrolar do documentário ele aparece rapidamente como algo superficial, mesmo com seus beats sendo de grande importância nessa fase da carreira da cantora.

Voltando aos EUA, M.I.A., à medida em que ganha visibilidade passa a falar de forma mais direta sobre temas espinhosos, principalmente sobre a situação do Sri Lanka. No entanto, suas falas sobre o tópico passam a ser editadas ou tiradas de contexto (como no caso de uma entrevista para a revista do The New York Times), tudo na tentativa tanto de subverter seu discurso quanto para que ela parecesse mais palatável e vendável dentro desse mercado gigante.

O ciclo é fechado com a polêmica na final do Super Bowl, quando ela mostra o dedo do meio para a câmera, e passa a ser tratada e retratada como uma forasteira. Esse momento a faz repensar sua estadia no país e deixa ainda mais clara a importância de expressar ideias mais agudas em suas música e vídeos, algo que já vinha fazendo e passa a ser uma de suas marcas registradas.

Com tudo isso em evidência, a música não perde destaque, já que o documentário alcança um efeito muito interessante ao deixar os sons de M.I.A. ainda mais potentes. O efeito de ter algumas de suas principais faixas inseridas em sequência, conjuntamente com diversas fases de sua vida, faz com que elas tenham ainda mais apelo do que na pista de dança.

No fim das contas, Matangi/Maya/M.I.A cumpre o papel de apresentar a artista e sua música, mas deixa em primeiro plano como o ato de se posicionar sobre temas que ainda não foram comprados por e para as massas de consumo tem um preço dentro do pop. Fica a sensação de que tudo para ser vendido em larga escala precisa ser editado, limpo, embalado à vácuo, para não “agredir” o público (principalmente do mercado norte-americano).

O documentário coloca em destaque que M.I.A não é só uma artista que cria música com sonoridades de diversas partes do mundo, mas que além da identidade sonora e artística ela se conecta diretamente à uma minoria global e não abre mão de colocar atenção sobre isso, seja por meio de suas escolhas musicais seja por meio do que fala ou como vive. Esses detalhes a impedem de alcançar mais lugares, mas demonstram um posicionamento consciente dentro de uma máquina que moe pessoas e ideais.

Assim, como quase todo documentário versando sobre um artista, esse é um instrumento que ressignifica obra e ser humano, e dá um novo desdobramento para sua música, letras e posicionamento. O filme funciona como  uma chave para descriptografar grande parte das informações e conceitos trabalhados por M.I.A. ao longo de sua carreira, e potencializar ainda mais sua mensagem. 

O documentário ainda não teve lançamento oficial no Brasil e foi apresentado em primeira mão no país como parte da programação do Music Video Festival 2018.

Nota do Crítico
Excelente!