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Old boy | Crítica

<i>Old boy</i>

Érico Borgo
12.05.2005
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h18
Atualizada em 21.09.2014 às 13h18

Old Boy
Old boy

Corea do Sul, 2003
Drama - 120 min

Direção: Chanwook Park
Roteiro: Jo-yun Hwang, Chun-hyeong Lim

Elenco: Choi Min-sik, Yoo Ji-tae, Kang Hye-jeong, Ji Dae-han, Oh Dal-su, Kim Byeong-ok, Lee Seung-Shin, Yun Jin-seo, Lee Dae-yeon, Oh Kwang-rok, Oh Tae-kyung

O herói vingativo solitário é tema recorrente no cinema, mas seu novo representante traz criativas inovações ao gênero. Em Old boy (2003), o diretor coreano Park Chanwook mistura a inquietante violência tarantinesca com uma trama de mistério que levaria um sorriso ao rosto de Hitchcock. Esse amálgama de estilos funciona perfeitamente nas telas e o resultado tem uma originalidade rara hoje em dia.

Vencedor do prêmio especial do júri em Cannes 2004 (o fato de Quentin Tarantino ter sido o presidente do festival na ocasião não é mera coincidência), o drama apresenta o beberrão Oh Dae-Su (Choi Min-Sik), sujeito que, depois de uma breve detenção pela polícia, acorda numa prisão diferente de qualquer outra. Parece um quarto de hotel barato, um tanto puído, dotado de papel de parede medonho, uma televisão e uma cama. Sem fazer a menor idéia do motivo pelo qual está preso ali, Dae-Su passa seus dias assistindo à programação da TV e comendo rolinhos fritos, sem direito a qualquer contato humano ou informações sobre seu encarceiramento. Não tarda para que sua mente comece a se deteriorar. À beira da loucura, inicia um treinamento físico que consiste em esmurrar sistematicamente a parede, seu inimigo virtual. Os anos passam até que um dia, 15 anos depois, é libertado sem explicação alguma. Ganha roupas, dinheiro e um telefone. Desorientado, recebe uma ligação com o seguinte desafio: descobrir o motivo de tal castigo e a identidade de seu torturador.

Chanwook desenvolve a idéia com calma e estilo, saboreando quase sadicamente o interesse do público. Ele conhece as cartas que tem na mesa e não apressa sua conclusão, fornecendo pequenas pistas ao longo do caminho. Seu único momento negativo é no último quarto do filme, quando ele quase perde as rédeas da trama em meio a uma sucessão cansativa de flashbacks. Porém, o clímax que se segue é tão perturbador, visceral e surpreendentemente que o rápido deslize anterior é facilmente relevado. E caso eu não tenha exaltado o suficiente o desfecho, ele é daqueles que chegam a provocar manifestações verbais no público.

Aliás, vá preparado para ouvir exclamações de espanto durante toda a duração da fita. Espectadores mais sensíveis simplesmente não conseguem conter a língua perante certas cenas chocantes... e a fita está repleta delas. Mutilações, degustação de alimento vivo, mais mutilações... Chanwook se diverte e deixa as bizarrices rolarem com gosto, às vezes até mais tempo do que o necessário. Só pra ouvir os suspiros do público.

Mas o melhor de tudo é Choi Min-Sik. O ator com cabelos desgrenhados e cara de maluco dá um show. Honesto e corajoso, não tem medo de parecer ridículo. Vai de um extremo emocional ao outro em questão de segundos. Numa determinada cena está com os cabelos e barba longos, preso, insano, e dá um sorriso que é ao mesmo tempo engraçadíssimo e terrivelmente sinistro. Alucinante.

Merecem destaque também as seqüências de ação. Sem firulas, são extremamente cruas. A melhor delas evoca os jogos com "side scroll" do Nintendo. Nela, Dae Su esmurra vinte capangas com um martelo em um plano-seqüência lateral. Bem-humorada e um tanto tosca até, a cena não tem a beleza plástica de um Kill Bill, mas entra para a história como uma das mais legais já realizadas.

Curiosamente, Chanwook era estudante de filosofia antes de seguir carreira como cineasta. A opção prévia se esconde no fundo de seu pesadelo pop numa discussão subversiva sobre moral e responsabilidade. E pensar que a puritana Hollywood planeja refilmá-lo... ha!

Nota do Crítico
Bom