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Homem-Aranha 2 | Crítica

Homem-Aranha 2 faz lembrar os motivos pelos quais ainda lemos histórias em quadrinhos

Érico Borgo
01.07.2004
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h40
Atualizada em 29.06.2018 às 02h40

Homem-Aranha 2
Spider-Man 2
EUA, 2004
Ação - 127 min.

Direção: Sam Raimi
Roteiro: Alfred Gough, Miles Millar, Michael Chabon, Alvin Sargent

Elenco: Tobey Maguire, Kirsten Dunst, James Franco, Alfred Molina, Rosemary Harris, J.K. Simmons, Donna Murphy, Daniel Gillies, Dylan Baker, Bill Nunn, Vanessa Ferlito, Aasif Mandvi, Willem Dafoe, Cliff Robertson, Ted Raimi, Elizabeth Banks, Bruce Campbell

A Marvel definitivamente mudou o paradigma das continuações de filmes no cinema. Cada uma das seqüências de seus filmes é superior aos originais. Blade e X-Men provaram que uma franquia bem planejada e produzida pelo mesmo time criativo rende idéias mais elaboradas, sem o irritante "mais do mesmo" que caracteriza a maior parte das continuações hollywoodianas. Agora, Homem-Aranha 2 (Spider-Man 2, 2004) sela definitivamente essa tendência.

A nova adaptação do super-herói aracnídeo tem o mesmo humor inocente, o romantismo, a aventura e o drama que transformaram o personagem dos quadrinhos na mais famosa criação de Stan Lee. Todas as idéias plantadas no primeiro filme (recapituladas na introdução através de pinturas do quadrinhista Alex Ross) foram potencializadas na continuação pelo diretor Sam Raimi, que encontrou o equilíbrio exato entre o tempo de tela do Homem-Aranha e de Peter Parker (Tobey Maguire). Absolutamente fiel ao espírito das HQs, o longa mostra também como um blockbuster pode ser relevante, inteligente e, de certa forma, autoral.

Claro, Homem-Aranha 2 também garante ao público mais "veloz e furioso" o que ele quer: barulheira (a cena da explosão do laboratório do vilão é ensurdecedora!), efeitos especiais elaborados e ação vertiginosa, mas isso tudo é relativamente fácil de ser encontrado hoje em dia, quando alucinadas superproduções se alternam no topo do ranking das bilheterias. O difícil é conseguir costurar isso tudo com personagens fortes e sentimentos honestos, que conseguem deixar a pirotecnia em segundo plano. Raimi, ao lado do talentoso time de roteiristas - que inclui Michael Chabon (As incríveis aventuras de Kavalier e Clay) e a dupla Al Gogh e Miles Milar (Smallville) -, conseguiu tudo isso e ainda consertou o único ponto fraco do primeiro filme, transportando para as telas um vilão mais assustador e verossímil: o Dr. Octopus (Alfred Molina). É ele quem protagoniza a violenta cena que leva a maior assinatura do cineasta, quando acorda em uma mesa de cirurgia e promove uma carnificina entre a equipe médica que tentava operá-lo. A seqüência remete ao começo da carreira do diretor, quando ele ficou famoso pela sangrenta (e divertidíssima) Trilogia Evil Dead (estrelada e co-produzida por Bruce Campbell, que depois de participar como o apresentador de luta-livre no primeiro filme, faz uma engraçada participação especial em Aranha 2)

A história

Ao final de Homem-Aranha, Peter Parker é forçado a escolher entre o amor de Mary Jane Watson (Kirsten Dunst) e sua carreira de combatente do crime. Qualquer pessoa normal tentaria ficar com os dois, afinal, somos apenas humanos, mas Parker vira as costas para a bela ruiva e sai caminhando. A jornada do herói é pontuada por sacrifícios e a primeira hora do novo filme é dedicada e explorar as conseqüências desses atos.

Exausto pelas patrulhas e nervoso com os ataques do jornal Clarim Diário, Parker relaxa nos estudos e pode ser reprovado na faculdade pelo Dr. Curt Connors (Dylan Baker - nos quadrinhos, o vilão Lagarto). Além disso, seus problemas financeiros se agravam quando ele perde seu emprego como entregador de pizzas e suas fotos são rejeitadas por J.J. Jameson (J.K. Simmons, impagável), que insiste em comprar apenas imagens do Homem-Aranha para estampar junto a títulos como "A maior ameaça da cidade". Pior ainda, a reputação de Peter sofre abalos consecutivos, quando pessoas próximas a ele são levadas a acreditar que o jovem tornou-se preguiçoso, pouco confiável e egoísta.

E a desgraça não pára por aí... por falta de pagamento da hipoteca, a Tia May (Rosemary Harris) pode perder a casa em que Peter cresceu e sua antiga devoção pelo sobrinho já não é mais a mesma. Até mesmo a apaixonada MJ, agora uma modelo e atriz em ascensão, resolve esquecer Peter, desiludida com suas desculpas frequentes, e começa a namorar John Jameson (Daniel Gillies), um astronauta que é o filho do editor do Clarim.

O resultado de todos esses problemas juntos é uma crise de estresse que acaba por consumir os superpoderes do Homem-Aranha. A benção recebida no primeiro filme torna-se uma maldição e o humano Peter decide encerrar sua carreira de herói e dedicar-se a reconstruir sua vida.

Enquanto isso, o brilhante cientista Otto Octavius (Molina) está trabalhando numa ambiciosa máquina de energia financiada por Harry Osborn (James Franco), o maior amigo de Peter, que nutre um ódio incontrolável pelo Aranha por acreditar que o herói matou seu pai. Porém, depois de um acidente catastrófico, Octavius perde sua esposa e sua sanidade e se vê preso aos tentáculos robóticos que ele utilizava para manipular energias perigosas. Nasce o Doutor Octopus, cuja humanidade - como todo bom cientista louco - é abafada pelo desejo de poder e tecnologia. Obviamente, não tarda para que o novo vilão e o jovem Osborn recuperem a parceria anterior e iniciem uma caçada ao Homem-Aranha. Mas para achar o aracnídeo, primeiro eles têm que capturar Peter Parker, o fotógrafo do Clarim Diário que parece sempre saber onde e como encontrar o herói.

Humor e ação

Apesar da premissa dramática (velhinhas desamparadas, crises, falta de dinheiro, amores não correspondidos...), Homem-Aranha 2 é bem diferente de um filme da Merryl Streep. Os momentos de maior tensão são alternados com genialidade pelo diretor com cenas de um bom-humor incrível. A longa seqüência do Aranha no elevador é memorável, bem como um incrível videoclipe da música "Raindrops Keep Falling on My Head", de Burt Bacharach (!), que Raimi encaixa na trama e merecia um Oscar de tão engraçado.

Tão relevante quanto a comédia é a ação. A cena do bondinho do primeiro filme, o ápice da aventura original, é facilmente eclipsada pelo intenso confronto no metrô entre o Aranha e Octopus. É de tirar o fôlego de tão tenso. Outras boas seqüências, como a luta no alto dos prédios e o clímax no laboratório, também impressionam pela carga de emoção. Interessante notar, entretanto, que tecnicamente elas não são tão boas. Claramente, Raimi não se preocupa em tornar 100% reais os personagens digitais - um tanto falsos - e privilegia os ângulos fechados, bem mais realistas (sem CGI) e calculados.

Enfim, o maior elogio que posso fazer a Homem-Aranha 2 é que o filme me fez lembrar os motivos pelos quais ainda leio histórias em quadrinhos. A aventura tem o mesmo gosto dos antigos gibis do personagem, quando cada edição era aguardada com ansiedade absurda e a emoção era sincera. Não por acaso, durante os créditos do filme, eu já aguardava ansiosamente o próximo capítulo das aventuras do heróico aracnídeo.

Leia tudo sobre o herói no Especial Homem-Aranha

Nota do Crítico
Excelente!