Homem-Aranha

Créditos da imagem: Homem-Aranha: Longe de Casa/Marvel Studios/Divulgação

Filmes

Crítica

Homem-Aranha: Longe de Casa

Fórmulas do MCU se aperfeiçoam em filme que abraça o cartunesco sem se arriscar demais

Marcelo Hessel
27.06.2019
18h36
Atualizada em
09.07.2019
11h39
Atualizada em 09.07.2019 às 11h39

Depois dos anos, em nome do bom relacionamento, a pessoa aprende a não projetar suas expectativas nos outros. Sempre imaginei ver Mysterio no cinema como um personagem ilusionista de Missão: Impossível, enganando tanto heróis quanto espectadores com as reviravoltas de sua realidade forjada. Evidentemente não dá para esperar, porém, que Jon Watts se manifeste como o novo Brian De Palma, embora o próprio De Palma tivesse se firmado como um grande reciclador de suas referências.

Em Homem-Aranha: Longe de Casa, Watts foca no que Mysterio (Jake Gyllenhaal) e suas ilusões têm de mais gráfico, não necessariamente no seu potencial mais narrativo. Os leitores das HQs vão reconhecer, num par de cenas do herói encurralado, aqueles quadros claustrofóbicos em fundo todo preto em que o Aranha (Tom Holland) fica preso nas vertigens de Mysterio, sufocado por imagens que trazem à tona traumas do inconsciente. É o fan service esperado, e que sabe aproveitar bem o caráter cartunesco de situações e de caracterização de personagens. No mais, a boa tradução visual da estética dos quadrinhos é um legado inegável de Sam Raimi que em nenhum momento, mesmo nos filmes estrelados por Andrew Garfield, foi escanteado dentro da franquia.

Esse legado atinge em Longe de Casa um equilíbrio interessante entre humor, cartoon e empatia. Dos filmes do MCU, talvez seja um dos que melhor se organiza em torno de um elenco de tipos semicaricatos, em situações que se prestam à gag mais facilmente do que num Doutor Estranho ou um Thor. Na falta de uma dramaturgia mais elaborada ou menos didática e imediatista, personagens ganham propriedade e vida pelo que têm de cartunescos. A atuação de Jake Gyllenhaal como Mysterio, por exemplo, explora, sem estereotipar demais, o lado mais ridículo do personagem para tirar disso sua força (o que, comicamente, revela muito sobre todos os outros papéis que Gyllenhaal faz em chave de overacting nos seus filmes "sérios").

Ao mesmo tempo, na escalação, a tipificação de personagens se concilia com a preocupação com a representatividade. Sempre que a turma de Peter Parker entra num ambiente, como um saguão de hotel, notam-se os negros, a garota com o lenço cobrindo os cabelos, o contraste visual de Ned e Betty, o perfil de imigrante novo-rico de Flash Thompson. A escola Midtown do MCU faz jus ao Queens da vida real (recomenda-se o documentário In Jackson Heights para entender o tamanho do caldeirão de culturas desse bairro de Nova York), num registro que evita a armadilha do panfletarismo político justamente por partir do lúdico.

E não há como escapar do cartunesco, uma vez dentro dele. A cena-chave é quando Nick Fury (Samuel L. Jackson) tenta passar para Peter Parker o texto expositivo obrigatório no hotel mas vive sendo interrompido: uma musiquinha de filme de espionagem acompanha as falas e é interrompida também nessas horas, para denotar o potencial ridículo do agente de tapa-olho vestido de couro preto, tentando terminar de passar os detalhes da missão. Longe de Casa adere à graça da metalinguagem porque sabe que pode se refugiar nela para desarmar seriedades excessivas ou mesmo qualquer cobrança desmedida (as tais expectativas projetadas), e a trilha sonora de Michael Giacchino, no geral bem empregada nesses casos, se encaixa perfeitamente no filme para este fim.

O desarme é imediato. Aliás, se há um conceito para definir Longe de Casa - ou mesmo para situar o longa e Vingadores: Ultimato no cenário atual do cinema de super-herói - é o imediatismo. O reconhecimento de tipos cartunescos é imediato. A urgência de assistir a tudo sem pegar spoilers segue a lógica do imediatismo. Os diálogos de Peter Parker com antagonistas e aliados são escritos para verbalizar os conflitos interiores do herói, descomplicar para o espectador a apreensão do arco dramático - e torná-lo imediato. Mesmo o ilusionismo de Mysterio é imediato, porque o vilão não perde tempo e explica seus truques assim que suas verdadeiras intenções são reveladas.

Então seria muito deslocado mesmo esperar que Jon Watts incorporasse um De Palma, cujo cinema envolve o espectador num pacto prolongado de desconfiança. Toda a engenharia do MCU funciona porque parte, ao contrário, de um acordo de confiança com seu público, e nesse sentido Longe de Casa faz seu serviço exemplarmente: esticando até o limite do bom senso a elegia de Tony Stark (Robert Downey Jr.) e oferecendo amarrações com filmes antigos e futuros. O contrato de confiança fica inscrito num easter egg/fan service que pode passar despercebido, quando Peter Parker se balança diante de um prédio na Rua 41 de Manhattan e uma frase aparece escrita numa cerca: "Mal podemos esperar para mostrar a vocês o que vem a seguir".

Nota do Crítico
Ótimo