Beyoncé em show no Coachella em imagem de Homecoming

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Homecoming: A Film by Beyoncé

Beyoncé entrega obra definitiva e decodifica sua maior apresentação até hoje

Jacídio Junior
18.04.2019
09h57
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

Beyoncé é, inegavelmente, uma das artistas/criadoras/fenômenos mais importantes do planeta e isso não é de hoje. Com mais de 20 anos de carreira, praticamente, tudo que se propôs a fazer - desde o momento em que deixou o Destiny’s Child para trás - ganhou grandes proporções. O documentário Homecoming (o qual escreveu, dirigiu e foi produtora-executiva) é mais um passo importante dentro desse universo artístico.

Focado na apresentação que Beyoncé realizou no Coachella de 2018, o filme é ainda mais impactante do que as imagens transmitidas ao vivo nos dois finais de semana nos quais ela e um time composto por músicos e dançarinos se apresentaram. Nesse projeto, com pouco mais de duas horas, além de ver o show da forma como a cantora quer mostrar (durante uma conversa com a equipe ela fala sobre a necessidade de fazer com que a câmera seja capaz de mostrar o que acontece e o que todos sentem no palco), o conceito, os detalhes e as nuances da performance ficam ainda mais claras.

Beyoncé foi a primeira mulher negra a ser a atração principal do Coachella desde a primeira edição do festival, em 1999. Assim, é possível notar que a necessidade de mostrar diversidade como o mote principal de sua apresentação é uma das forças motrizes de toda a concepção do show que já no nome Homecoming carrega a identidade de algo muito importante para a comunidade negra norte-americana. Isso vai ficando cada vez mais claro à medida que dançarinos explicam que o Homecoming é um momento importante como parte da programação das HBCUs - “Historically Black Colleges and Universities” - Faculdades e Universidade Historicamente Voltadas para Negros em tradução livre. É uma época na qual todos se reencontram e retornam para “casa”. Beyoncé, também, logo no início do documentário faz o link com esses espaços comentando que: “Sempre sonhei em estudar em uma HBCU. Minha faculdade foi o Destiny’s Child, foi viajar pelo mundo, e a vida foi minha professora”.

A partir daí, a grandiosidade de cada ato, das centenas de pessoas no palco, ganha contornos ainda mais interessantes. Ao mesmo tempo se torna mais fácil perceber a grandiosidade da apresentação que Beyoncé preparou para o festival - os enquadramentos, as lentes, os pontos, os filtros, tudo faz com que os olhos permaneçam no lugar em que ela quer que eles estejam -, o simbolismo que a composição da sua pirâmide de artistas tem, ganha ainda mais impacto.

Beyoncé em seus shows sempre contou com músicos negros, em grande parte mulheres, e isso é algo louvável para quem está no mainstream e luta por representatividade. Mas para Homecoming ela afirma que queria uma orquestra composta por negros, com pessoas de todos os tipos, “diferentes”: “Eu queria que todas as pessoas que já foram discriminadas por causa da sua aparência se sentissem representada naquele palco”.

Conjuntamente com esses momentos em que ouvimos a voz de Beyoncé comentando o processo de criação, o tempo de ensaio (foram oito meses - quatro só com a banda, mais quatro com os dançarinos - e ela manteve três espaços separados para os times criarem e ensaiarem - um para os dançarinos, um para os músicos e outro para a equipe criativa) e as surpresas que aconteceram antes mesmo dela chegar ao palco, também vamos sendo cooptados pelo tamanho da apresentação, pelos detalhes, pela sonoridade, pelos fãs ensandecidos na primeira fila.

Dessas surpresas anteriores ao show vale destaque principalmente por uma delas ter desencadeado o cancelamento de sua apresentação no Coachella em 2017. Naquele ano, a artista soube que estava grávida e que sua gravidez era de risco.Além disso, Beyoncé começou a pensar no show do ano seguinte logo depois de ser mãe de gêmeos, algo que - como ela mostra durante o filme - mudou seu processo de recuperação e também a forma como passa o tempo com os bebês. O que por sua vez originou uma nova maneira de pensar em como gerenciar família, produção e os ensaios para a apresentação monumental que estava criando.

Sensações do show na tela e os detalhes para chegar ao palco

A mistura de sensações em conjunto com a apresentação dos detalhes pensados para o show fazem do documentário disponibilizado na Netflix algo que potencializa ainda mais tudo que foi mostrado nos dois momentos do festival. No filme, o mix entre os dias só é notado pela mudança nas cores das roupas, algo que cria uma excelente dinâmica visual. Já as faixas ficam ainda mais fortes à medida que a escolha do que aparece na tela se torna cada vez mais específica.

E claro, toda essa mágica, além dos detalhes técnicos, tem ligação direta com o que foi desenvolvido nos ensaios. A busca por criar um ambiente seguro e no qual todos pudessem se expressar, até o momento em que tudo fosse cristalizado para o palco também é
interessante e explorado de maneira bonita e direta.

Por fim, não importa se você já viu esse show ou qualquer outra apresentação da cantora. Não dá para negar que a sensação que Homecoming entrega ao final de sua jornada é única, tanto pelo ritmo quanto pela forma como mostra a artista e sua equipe. O documentário parece ter como sua função máxima a decodificação de conceitos que não ficaram tão claros para todo seu público e também potencializar ainda mais tudo que Beyoncé apresenta no palco.

Nota do Crítico
Excelente!