Era uma Vez em... Hollywood

Créditos da imagem: Sony Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

Era uma Vez em... Hollywood

Melancólico e hilário, filme é o mais maduro da carreira de Quentin Tarantino - cuidado com possíveis spoillers!

Natália Bridi
30.07.2019
07h56
Atualizada em
15.08.2019
16h29
Atualizada em 15.08.2019 às 16h29

Se em todo filme de Quentin Tarantino a obsessão pelo cinema foi uma constante, em Era Uma Vez em... Hollywood essa é a premissa. Uma declaração de amor pela Sétima Arte escancarada desde o primeiro segundo de exibição  quando um recado do cineasta pede que não sejam divulgados detalhes sobre a trama  e que acompanhará qualquer comentário sobre o seu nono longa-metragem, seja do crítico hermético ou do espectador casual.

Ironicamente, o período escolhido para situar essa empreitada pela metalinguagem  exercício cinematográfico em que Tarantino deliberadamente se une a nomes como François Truffaut (A Noite Americana, de 1973) e Federico Fellini (8 ½, de 1963), para citar apenas alguns  é o da quebra da idealização hollywoodiana. Enquanto conta a história do ator frustrado Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) e do seu fiel dublê Cliff Booth (Brad Pitt), o diretor usa de fundo a expectativa pelos trágicos eventos do verão de 1969, quando a Família Manson proclamou o fim do movimento “paz e amor” com uma série de assassinatos pela cidade de Los Angeles.

Da justaposição da fantasia vendida pelo cinema e das falhas humanas frequentemente omitidas pelas películas, Era Uma Vez em... Hollywood vai elaborando a sua narrativa, mais interessada em refletir sobre alguns momentos do que em calcular espaços e reviravoltas para a conclusão de um grande quebra-cabeça. Ou seja, não é um filme redondo como tantos da filmografia do cineasta. Com cenas que usam diferentes linguagens, sem necessariamente conversar entre si, e um narrador que aparece ocasionalmente, o resultado é um tanto desconjuntado  e até sem muito sentido para quem nunca ouviu falar de Charles Manson ou Sharon Tate (interpretada por Margot Robbie no longa). Ao mesmo tempo, é sua obra mais profunda. Cada um dos personagens principais existe além da exibição, ainda fiéis ao espírito exagerado do cineasta, mas com uma melancolia inesperada e bem-vinda.

A começar por Dalton, o galã dos faroestes e filmes de ação, em quem Tarantino busca o contraste entre o velho ideal masculino e as dores de um artista sensível e inseguro. A própria maturidade de Leonardo DiCaprio serve a esse propósito, com a sua experiência como galã hollywoodiano encontrando as suas pretensões artísticas — como um ator é visto e como quer ser visto. Suas cenas, contundentes e hilárias, dão vida em dois níveis para a empreitada metalinguística do filme. A participação de Dalton como o vilão de uma série de TV, por exemplo, é filmada para desfazer a imersão audiovisual e exige que DiCaprio abra seu personagem da mesma forma (ele é, ao mesmo tempo, Rick Dalton, o ator frustrado, e Rick Dalton, o ator frustrado encarnando um vilão).

Booth, por outro lado, serve para analisar outro tipo de negação hollywoodiana. Bonito demais para ser dublê, talentoso o suficiente para encarar lendas sem piscar, ele aparenta ser o cara mais fiel e legal do mundo, ao que Tarantino adiciona um passado sombrio à la Robert Wagner e Natalie Wood. Saber disso pouco muda o apelo do personagem, que toma emprestado todo o carisma e charme de Pitt, além da sintonia com DiCaprio, ao mesmo tempo em que mexe diretamente em antigas e novas feridas - seja pelo caso de estupro de menor do qual Roman Polanski, marido de Tate na época do filme, é acusado, ou pelas várias denúncias desencadeadas recentemente pelo movimento Me Too, que também incluíram Tarantino. O quanto é possível negar para “não perder o amigo” ou um artista talentoso?

Já com Tate, a busca é outra. Robbie a recria de forma imaculada, ao que cineasta adiciona pequenos toques humanos - o ronco que acompanha seu sono, os óculos feios que precisa para assistir ao próprio filme ou os pés sujos que sustenta na cadeira da frente no cinema. Ela representa a inocência hollywoodiana e o amor pelo cinema em cenas que são sempre construídas em tom de homenagem: à atriz e à cidade em que habita. A sua Los Angeles é certamente mais ensolarada e animada do que aquela percorrida por Dalton e Booth, o que o diretor de fotografia Robert Richardson demarca com precisão.

Era Uma Vez em... Hollywood é, enfim, muito mais do que a constatação máxima do amor de Quentin Tarantino pela indústria cinematográfica. Mesmo que digressões levem a quase três horas de filme, o diretor mantém intacta sua capacidade de entreter e de criar personagens memoráveis. Não se limita, porém, ao riso fácil, à fala elaborada, à violência ou às referências (e autorreferências). Na sua fábula, Tarantino continua a usar cinema para fazer cinema, mas pela primeira vez conversa sobre a sua percepção da arte e propõe um diálogo com quem o assiste. Nessa discussão, a fantasia é destruída e reconstruída constantemente para que a ilusão seja percebida, assim como a sua importância. Às vezes, escapar da realidade pode ser a melhor forma de encará-la.

Nota do Crítico
Ótimo