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Crítica

Corra! | Crítica

Terror fala de questões raciais e sociais com bom equilíbrio entre comicidade e estranhamento

Marcelo Hessel
16.05.2017
16h54
Atualizada em
16.05.2017
18h03
Atualizada em 16.05.2017 às 18h03

Já virou piada recorrente no cinema o fato de negros e casais transantes serem sempre os primeiros a morrer em filmes de maníaco homicida, o que certamente não conta a favor de Chris (Daniel Kaluuya), que em Corra! (Get Out) passa por diversas provações na hora de conhecer a família branca rica da sua nova namorada (Allison Williams). A ideia do roteirista e diretor Jordan Peele é partir desse clichê para fazer um filme de terror em que o negro não morre primeiro - pelo simples fato de ser o protagonista da história.

Peele é conhecido pelas comédias, e com frequência cria esquetes na TV em parceria com Keegan-Michael Key em que subverte os estereótipos que se faz da cultura black americana. Embora seja um terror "sério", Corra! tem a inconfundível pegada do humor por conta do absurdo que esse tipo de inversão de perspectiva traz. Sempre esperamos que certos personagens se comportem de determinada forma, em situações que já conhecemos pela repetição, e quando uma inversão nos desnorteia ela implica um estranhamento e, neste caso, também um potencial cômico.

Corra! funciona bem e não descamba para a paródia porque Peele consegue manter, por boa parte do filme, um equilíbrio ideal entre a comicidade e o estranhamento. O roteiro escolhe transformar a história de resistência de Chris em uma jornada sociomotivacional - no melhor estilo deixe-a-TV-e-vá-ler-um-livro - mas isso não tira sua eficiência e sua capacidade de provar, por conta dos absurdos que o filme nos desvela, como a realidade de jovens negros em qualquer sociedade, e não apenas a americana, pode se transformar em um filme de terror no dia a dia.

Como todo comediante, Peele pensa anedotas a partir da punchline, e a contação de uma piada não é nada mais que uma grande preparação para o seu desfecho. Com Corra! não é diferente, e embora a capacidade de invenção do filme se esvazie no terceiro ato (quando acaba o mistério, vai-se também o potencial de subverter expectativas), o final é impagável. Fica a impressão mesmo de que Peele fez um filme inteiro só pela oportunidade de usar aquele final, e é curioso saber que o desfecho mudou por conta de testes de audiência. Mudaria o impacto, mas o sentido seria o mesmo: o pavor de viver sem segurança.

Nota do Crítico
Bom