Cena de Através da Minha Janela

Créditos da imagem: Netflix/Divulgação

Filmes

Crítica

Através da Minha Janela passa 50 Tons de Cinza por lente adolescente fantasiosa

Produção da Netflix reforça tendência narrativa duvidosa dos homens perturbados sexualizados e redimidos

05.02.2022, às 18H42.

Em 2005, Quando foi lançado o livro Crepúsculo, de Stephenie Meyer, o mundo experimentou um dos piores retrocessos da história literária feminina: Bella, a mocinha frágil e tímida, se apaixonava por um menino rico e excêntrico, que escondia um segredo perturbador e que a fazia abandonar toda sua individualidade para girar em torno dele. Tudo isso era regado de mensagens subliminares sobre a nobreza da virgindade e do casamento eterno, típicos da religião da qual é adepta a sua autora. O vampirismo, essa mitologia construída em torno da transgressão, foi filtrada e esterilizada por valores moralistas.

Contudo, ficou em primeiro lugar, gravado nas tendências da época, a ideia do sucesso alcançado com mais uma história de "amor impossível sendo possível". Algum tempo depois, a mesma dinâmica "mulher tímida e homem excêntrico" foi mantida em 50 Tons de Cinza, que ainda adicionou o sexo e o dinheiro à equação. Anastasia vai desvendando Christian, furando suas barreiras, descobrindo seus segredos e - eventualmente - redimindo o moço de seu comportamento emocionalmente asséptico. "Mulher tímida Vs Homem excêntrico"... um clássico da modernidade.

Quem já assistiu a Através da Minha Janela sabe porque essa introdução foi necessária. 50 Tons de Cinza surgiu de uma fanfic de Crepúsculo e, agora, Através da Minha Janela ganha força a partir dessas mesmas bases. Ariana Godoy se junta a Beth Reekles (A Barraca do Beijo) e Anna Todd (After) como autoras que começaram suas obras como fanfics e conseguiram transformá-las em livros e séries de filmes. O efeito colateral dessa tendência é a semelhança brutal com outras histórias já estabelecidas. Esse é, de fato, o conceito em si do que é uma fanfic. Ao mesmo tempo, é assustador perceber como no imaginário dessas autoras, a figura do homem que exala sexo, é rico e perturbado, parece ser a única opção para escrever uma história de amor. Em todos os casos, a menina/mulher "converte" o sujeito ao fazê-lo se apaixonar por ela. Ou ela vira exatamente como ele, como fez Bella.

Para quem tem gosto pela previsibilidade, Através da Minha Janela é o filme perfeito. Tudo acontece quase exatamente da mesma maneira que em 50 Tons de Cinza, e a autora não disfarça. Raquel (Clara Galle) é uma menina tímida e pobre que se sente muito atraída pelo vizinho rico Ares (Julio Peña), um rapaz sombrio, frio e distante. Apesar de todo dinheiro que tem, ele rouba o wi-fi da moça e assim os dois se conhecem e começam uma tóxica relação de muito sexo e muita canalhice. Passando a história pela lente de quem escreve o fanfic, a conversa é outra: Raquel vai driblar as barreiras do descomprometido Ares e fazê-lo se apaixonar por ela. Era só um dos dois usar um chicote e a cópia de carbono estava pronta.

Através do Meu Filtro

Assistir ao filme é enervante. A história do longa é tão rasteira que quando vai explicar o motivo pelo qual Ares é tão inacessível, não resiste a contar a mesma ladainha do "meus pais trabalharam demais e não me ensinaram o que é o amor". Não há absolutamente nenhum enredo; tudo se baseia em cenas de sexo entre o casal, intercaladas com mudanças em Ares que surgem rápido como num feitiço. O rapaz, com seu rosto sem expressões, leva Raquel em seu carro milionário, com motorista, para surpresas extravagantes que vão justificar a permanência dela naquela relação absolutamente equivocada.

O fato de Raquel e Ares serem adolescentes (pelo menos supostamente) é ainda mais alarmante. Ariana queria tanto ter escrito 50 Tons de Cinza, que reimaginou a trama como se ela tivesse acontecido num colegial onde ninguém estuda. Nem os protagonistas - e nem os coadjuvantes - vivem um drama sequer próximo do que é costumeiro às pessoas em sua faixa etária, a escola é só um território que serve para montagens sequenciais de sexo tórrido em todas as suas possibilidades. Não há conflito, nó dramático, crescente, catarse... Tudo é sexo, com meia dúzia de diálogos rasteiros no caminho. O importante, importante mesmo, é Ares se redimir (sem camisa).

É muito curioso, porque ao mesmo tempo em que o olhar da autora é extremamente sexualizado, também é cheio de ingenuidade, como ao escolher dar nomes de deuses gregos para os irmãos Hidalgo ou como ao decidir encerrar o primeiro filme com Raquel "salvando" seu "Grey" da morte numa sequência vexaminosa no baile da escola (que não foi sobre o baile da escola, claro). E ela é egocêntrica, porque Raquel escreve sua história e tem seu momento de sucesso, como se todos estivessem sempre ansiosos por homens cafajestes que só precisam de uma garota tímida para transformá-los em príncipes sensuais, mas monogâmicos. Não há nenhum problema com o erotismo ou com a entrega voluntária ao amor. Contudo, mais que um problema sócio-cultural, Através da Minha Janela não tem história, é vazio, ruim.E lá vai o conto da mulher que acha que vai "transformar" o cafajeste pela enésima vez seguida.

Vamos aguardar, porque as sequências são só uma questão de tempo. Até onde houver interesse, o mercado estará tomado desses enredos cheios de intenções românticas, mas marcados pela total nocividade das relações que constroi.

Nota do Crítico
Ruim
Através da Minha Janela
Through My Window
Através da Minha Janela
Through My Window

Ano: 2022

País: Espanha

Classificação: 16 anos

Duração: 112 minutos min

Direção: Marçal Forès

Roteiro: Ariana Godoy, Eduard Sola

Elenco: Clara Galle, Julio Peña

Onde assistir:
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