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Coraline e o Mundo Secreto

Não há pontas soltas no filme, seja na trama dos bordados ou na da história

Érico Borgo
02.02.2009
22h00
Atualizada em
21.09.2014
13h44
Atualizada em 21.09.2014 às 13h44

O título original de O Estranho Mundo de Jack, Tim Burton´s Nightmare Before Christmas, engana muita gente. A grande maioria acredita que foi o cineasta Tim Burton o responsável pela direção dessa cultuada animação em stop-motion, mas a verdade é que ele apenas produziu e criou a história e os personagens do filme. O diretor foi Henry Selick, espécie de "herdeiro criativo" do mestre da técnica de animação com bonecos Ray Harryhausen e pupilo do grande nome da animação experimental Jules Engel (1909 - 2003).

Depois de James e o Pêssego Gigante, Selick retorna aos holofotes com seu maior projeto até hoje, Coraline e o Mundo Secreto (Coraline, 2009), talvez a mais impressionante animação stop-motion já criada. O longa-metragem é um exercício de estilo emocionante, uma obra-prima de um artista em pleno domínio de sua técnica e dotada de um escopo intimista e de sensibilidade autoral.

Coraline e o Mundo Secreto

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Mas em Coraline Selick não se limitou a reproduzir o que sabe fazer melhor. Pelo contrário, foi além, introduzindo um novo desafio ao seu ofício: o 3D estereoscópico. A técnica digital, que faz com que as imagens "saltem" da tela com o uso de óculos especiais, nunca foi tão bem aproveitada antes. Diferente das animações digitais tradicionais que empregam esse tipo de tecnologia, todos os elementos de Coraline foram criados à mão (cenários, personagens, objetos, plantas...) e poder vê-los em profundidade acentua sua presença, que se torna quase física e tátil. A fusão de técnicas jamais parece gratuita ou forçada pois Selick e sua equipe de trinta animadores a exploram com sutileza artística, guardando os maiores choques (profundidade demais, beleza demais) para momentos-chave.

A atenção aos mais ínfimos detalhes de design e arte é louvável. Note o fiozinho que liga as letras do bordado com o nome dos atores nos créditos iniciais, o jeito como o pelo do gato capta a luz (ele precisa ser tocado para ser animado, cada toque faz com que o pelo se mexa um pouquinho), cada folha de grama mexendo-se ao fundo com o vento, a sujeira no parabrisa do carro, a lindíssima referência ao quatro A Noite Estrelada de Vincent van Gogh... e fique até o final para uma surpresa.

É inspirada também a contratação do compositor francês Bruno Coulais para a trilha sonora estilo "caixinha de música" e a presença da banda They Might Be Giants nas canções. O tema da protagonista vai ficar horas em sua cabeça.

Tudo isso, porém, não faria o filme passar de alento visual e sonoro, um poético videoclipe, se o roteiro não fosse igualmente brilhante. O filme é baseado no livro infanto-juvenil de Neil Gaiman, em que uma garotinha chamada Coraline (Dakota Fanning) muda-se com seus pais workaholics (Teri Hatcher e John Hodgman) para um enorme e antigo casarão. Aborrecida, ela começa a conhecer seus estranhos vizinhos e a explorar o local - e acaba encontrando um mágico universo alternativo, onde existem amorosas versões de seus pais com botões no lugar dos olhos.

O texto expande o livro, criando um novo personagem (Wybie Lovat) e desenvolvendo melhor o passado do misterioso Palácio Cor-de-Rosa, sem perder nada do tom sombrio da obra original (é uma adaptação de Neil Gaiman!). Algumas situações também são alteradas, como a ocupação dos pais de Coraline, que justifica duas das melhores cenas do filme (o jardim fantástico e o final) mas é tudo para amarrar melhor os elementos visuais e a narrativa.

Não há pontas soltas no trabalho de Selick, seja na trama dos bordados ou na da história. Com tanto esmero, é um filme para ver, rever e adorar.

Saiba tudo sobre o filme no nosso Especial Coraline