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Como Halloween criou pesadelos atemporais com a paranoia dos anos 70

Filme completou 40 anos em outubro e ganhou uma continuação direta no mesmo mês

Arthur Eloi
30.10.2018
14h32
Atualizada em
30.10.2018
19h18
Atualizada em 30.10.2018 às 19h18

A cada lançamento, o cinema de terror carrega um dilema: como criar um filme realmente assustador se as pessoas têm medos diferentes? Não há fórmula certa para traumatizar os espectadores, então os cineastas recorrem ao cotidiano para buscar inspiração. Os monstros e aberrações que você vê na tela são reflexo de problemas da época em que a obra foi feita.

Halloween (1978)/Divulgação

Olhando para a história do horror, fica fácil ver isso: nas décadas de 20 a 30, ainda durante a Era Jim Crow e pré-movimentos de igualdade racial, era comum que histórias de terror envolvessem "magia negra" ou qualquer coisa derivada de religiões africanas; já a devastação pós-Segunda Guerra Mundial e o medo nuclear da Guerra Fria trouxeram monstros radioativos. Mesmo assim, o terror tinha como regra o desconhecido, os lugares inóspitos e os monstros não-humanos… até chegar Halloween.

O clássico de John Carpenter, lançado há 40 anos nos cinemas, mudou tudo. Parte de uma era onde o terror estava ganhando confiança e boas bilheterias após O Exorcista (1974) e O Massacre da Serra-Elétrica (1974), o longa revolucionou o gênero por optar pela simplicidade do dia-a-dia para assombrar o público. Pegue os dois filmes citados como exemplo: enquanto Exorcista é uma história focada no conflito de uma família com o demônio, O Massacre da Serra-Elétrica desenvolve sua brutalidade no interior dos Estados Unidos, longe da civilização. Quando Laurie Strode (Jamie Lee Curtis) vê Michael Meyers de relance em um arbusto, ela está meramente caminhando na rua de seu bairro. De repente, os monstros invadiram uma vizinhança comum.

A inspiração veio da TV: os anos 70 não só começaram marcados pelos assassinatos liderados por Charles Manson, como a década inteira foi tomada por cultos e serial killers. A paranoia com violência urbana, sequestros e invasões tinha alcançado o seu auge, e por mais que o sobrenatural assustasse, era a ideia de ter seu lar e sua vizinhança ameaçados por um lunático que tirava o sono a noite. E foi exatamente o que aconteceu: recentemente foi divulgado o áudio de uma sessão do filme nos Estados Unidos em 1979, um ano após a estreia original - veja abaixo:

A forma do medo

De 1978 para cá, o subgênero de slasher pegou as várias contribuições de Halloween para criar ícones do terror como Freddy Krueger e Jason Vorhees, ao mesmo tempo que a mitologia se expandiu em uma franquia de sequências de diferentes diretores e até mesmo um reboot comandado por Rob Zombie. Mesmo assim, o clássico continua absoluto.

Sua simplicidade na hora de criar tensão, uso da espetacular trilha sonora de Carpenter contrastada com o silêncio opressor e a marcante atuação de Jamie Lee Curtis criam algo que transcende as gerações por sua qualidade. À parte disso, a figura de Meyers é 50% do que faz o filme ser atemporal: sem rosto, sem explicações, o serial killer continuará sempre sendo catalisador de pesadelos, visto que nunca a sociedade aceitará o medo da violência inexplicada.

A maior prova disso fica na versão de 2018 de Halloween, comandada por David Gordon Green. Na melhor cena do filme, acompanhada pelas fúnebres notas do sintetizador de Carpenter, Meyers caminha por uma movimentada vizinhança em noite de Dia das Bruxas. Esbarrando em crianças e foliões durante um sufocante plano-sequência, o assassino caminha por entre as casas com frieza cirúrgica, fazendo mais e mais vítimas e trocando de armas a cada novo crime. Ninguém sequer se importa: é apenas mais uma noite normal, em uma vizinhança comum - que na próxima pode muito bem ser a sua.