Filmes

Entrevista

Dreamcatcher e o lado autoajuda dos documentários

Britânica mostra história de superação de ex-prostituta

Natália Bridi
29.01.2016
12h41
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Os documentários são o xodó do Festival de Cinema de Sundance, recebendo incentivos e laboratórios especiais. Para se ter uma ideia da influência da mostra, dos filmes indicados ao Oscar na categoria, três são crias Utah - Cartel LandO Peso do Silêncio e What Happened, Miss Simone? - veja mais aqui. Longas que mostram a variedade de estilos que o gênero pode apresentar, do mais tradicional e investigativo ao inovador e emocional.

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Em Dreamcatcher, a britânica Kim Longinotto mistura diversas possibilidades narrativas para contar a história de Brenda Myers-Powell, uma ex-prostituta de Chicago que hoje dá assistência a mulheres em situação de opressão, seja trabalhando nas ruas, dentro de casa ou na prisão. Como uma mulher branca, europeia e altamente educada consegue entrar na vida da comunidade negra de Chicago? Longinotto explica que essa aproximação está na alma do cineasta que escolhe fazer documentários: "Em nenhum dos filmes que fiz me senti deslocada, diferente. Acho que a maioria dos documentaristas nunca esteve confortável consigo mesmo e não sente que está de acordo com o mundo ao seu redor, com as convenções sociais. Reconheço muitas coisas de Brenda em mim. Minha vida não foi nem um pouco parecida com a dela, tive muita, muita sorte, de muitas formas, mas sempre me indentifiquei com pessoas assim. E ela foi muito generosa, ela me acolheu na sua vida completamente, você pode me ver no pé da cama dela quando ela acorda, estou no banheiro enquanto ela está enrolada em uma toalha depois de tomar banho. Não havia distância entre nós. Não senti que ela estava me manipulando, mimando. Pareceu que estávamos fazendo isso juntas".

Também ajuda, conta a diretora, o fato do documentarista representar uma voz a ser ouvida. "Senti isso com as outras meninas, o fato delas conversarem comigo e se abrirem já na primeira vez em que estávamos gravando...Elas disseram coisas para Brenda que nunca tinham dito antes e acho que é por que elas entenderam a ideia de estar no filme como a chance de fazer algo bom e que haveria alguém para ouvi-las. Ninguém nunca acreditou nessas garotas", conta, se referindo ao grupo de adolescentes que participam de reuniões administradas pela Dreamcatcher. A maioria das garotas havia sofrido abuso em casa, de parentes ou amigos da família, mas não receberam qualquer tipo de apoio. A mãe de uma delas apenas chorava, sem denunciar o agressor da filha.

"O cafetão não quer que você seja amiga de outra prostituta. Se vocês gostarem uma da outra podem se unir contra ele", explica Brenda sobre a política das ruas de opressão das mulheres. É a união que transforma os oprimidos, que dá força para os fracos, conclui. Uma fala que pode ser facilmente aplicada em todas as realidades, independente de gênero: "Quero o público leve o filme para as suas próprias experiências. Você não está vendo Brenda como alguém separado de você", diz a diretora.

Dreamcatcher é um exemplo de como um filme pode ser objetivo e ao mesmo tempo emocional. Seus personagens cumprem uma trajetória e o longa termina em uma nota otimista, como em uma lição prática de autoajuda: "Testemunhar mudanças é a coisa mais inspiradora de todas. Terminei o filme cheia de esperança e acho que na época em que vivemos isso é cada vez mais raro. Fazer filmes assim tornam a sua vida mais digna".

O longa encerra a programação do 10 Days of Sundance do canal pago Sundance Channel em 31 de janeiro, às 23h. Veja o trailer: