Filmes

Entrevista

Festival de Berlim | "Tentamos respeitar a beleza estética indígena", diz diretor de Ex-Pajé

Documentário brasileiro será exibido nesse sábado (17)

Rodrigo Fonseca
16.02.2018, às 11H30
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37

Respeitado como um dos mais criativos roteiristas do cinema nacional, a julgar por filmes como Bingo – O Rei das Manhãs (2017) e Bicho de Sete Cabeças (2000) em seu currículo, Luiz Bolognesi surpreendeu seu público ao dirigir uma animação, História de Amor e Fúria (2012), e agora promete mais uma cota de surpresa, via Berlinale, onde exibe seu primeiro longa-metragem documental solo. Ex-Pajé será projetado no pomposo Cinestar, amanhã (dia 17), às 20h, para uma plateia alemã afoita por entender a erosão das tribos indígenas do Brasil. Com sua incursão pelo desenho, Bolognesi ganhou há cinco anos o prêmio principal do maior festival de narrativas animadas do mundo, Annecy, na França. Agora, em Berlim, ele integra uma mostra que só concorre ao prêmio do júri popular. Mas a disputa é acirrada.

Facebook/Reprodução

“O cerne do filme é a identidade cultural e etnocídio, entendido aqui como a morte de uma cultura. Há um etnocídio de diversos povos indígenas da América Latina com a chegada da Igreja Evangélica. É um novo momento de um fluxo que começa no século XVI e que tem, agora, um recrudescimento”, explica Bolognesi ao Omelete.

Num mergulho na Amazônia, ele documentou a realidade dos Paiter Suruí, a partir da jornada existencial de Perpera, um ex-sacerdote de sua tribo, convertido ao cristianismo, mas ciente do sucateamento de suas tradições. “O filme acompanha esse pajé de 65 anos que viveu isolado na floresta, em sua formação, acolhido pelos espíritos, em seus sonhos premonitórios, e que hoje vive uma angústia, perseguido pelo pastor da Igreja. Este diz que tudo o que ele faz, ao tocar sua flauta mágica, é direcionado pelo Diabo”, explica Bolognesi, parceiro criativo da cineasta Laís Bodanzky em vários longas, incluindo o recente sucesso Como Nossos Pais. “Quando se destrói um pajé, desmancha-se o epicentro de uma cultura indígena, pois eles são os doutores da Sorbonne da floresta. Há uma ancestralidade de 4 mil anos à prova, ameaçada de destruição”.

Prestes a rodar uma série de TV sobre funk, Bolognesi diz que Ex-Pajé busca traduzir a conexão metafísica de Perpera com a floresta com o máximo de esmero plástico que a linguagem cinematográfica oferece.

“Este longa-metragem é um exercício de Cinema Direto (linhagem de documentário sem intervenção), na borda entre a ficção e o real, com o roteiro construído a partir da vivência dos próprios personagens, feito com o mesmo fotógrafo de Como Nossos Pais: Pedro J. Márquez”, diz o cineasta, que prepara sua volta à direção de ficções com A Estrangeira, um filme de animação com Alê Abreu (diretor indicado ao Oscar com O Menino e o Mundo). “Tivemos muito cuidado com a construção dos planos aqui em Ex-Pajé. Na medida em que a gente quer mostrar que esses povos indígenas têm uma cultura e rica e complexa, com uma cosmogonia muito particular, parecia contraditório apostar na linguagem clássica do documentário, com uma câmera apressada, balançando ao correr atrás dos fatos. Procuramos respeitar a beleza estética dessas civilizações, para que imagem possa transmitir a potência poética da cosmogonia indígena”.

Nesta sexta (16), a Berlinale amanheceu entre boleros e guarânias em Asunción, com um raro exemplar do cinema paraguaio em competição pelo Urso de Ouro: o drama Las Herederas, de Marcelo Martinessi, coproduzido pela diretora carioca Julia Murat, que foi premiada aqui em 2017 com Pendular. Conciso (95 minutos enxutinhos) e muito requintado em seus enquadramentos, o filme, de tônica LGBT, acompanha a mudança na vida de Chela (Ana Brun) depois que sua companheira de toda uma vida, Chiquita (Margarita Irún), vai presa sob a acusação de ter cometido uma fraude bancária. Chela é levado, pelo acaso, a se tornar motorista e acaba esbarrando com uma pretendente a seu coração (ou algo assim), bem mais jovem. Com um domínio cirúrgico da edição, Martinessi espreita (e radiografa) a intimidade alheia com um abordagem que jamais é invasiva, fazendo da câmera uma espécie de ombro para Chela chorar as mágoas de uma classe media decadente. Questões de classe (expressa numa empregada que não sabe ler) e de identidade sexual são tratadas sem alarmismo, mas elas estão lá, visíveis o bastante para abrir um debate. O encantamento da crítica com estética intimista do diretor é generalizado. E o desempenho de Ana é de uma potência inquestionável.

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