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Festival de Berlim | "Cidade de Deus é uma referência no cinema de autenticidade", disse Idris Elba

Astro inglês causa rebuliço na capital alemã ao promover Yardie, sua estreia na direção

Rodrigo Fonseca
22.02.2018
13h51
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Há uma semana, Idris Elba deixou a Berlinale na mão: sua vinda era esperada na sexta passada para a projeção de seu primeiro trabalho como cineasta, Yardie, que recebeu uma calorosa salva de aplausos. A notícia de que ele não vinha deixou uma multidão de fãs do astro de A Torre Negra (2017) com uma frustração que só deve passar esta noite, quando ele desfilar pelo cinemas da capital alemã promovendo sua versão para as telas do romance de Victor Headley

Festival de Sundance/Divulgação

"Eu adoraria ir ao Brasil um dia desses. Eu me senti lá quando Cidade de Deus acabou e os créditos subiram. E olha que eu estava numa sala de cinema de Londres", disse Elba ao Omelete, reconhecendo a influência do cult de Fernando Meirelles na narrativa de Yardie, que registra a jornada de vingança de um jovem negro jamaicano no submundo londrino. "Cidade de Deus me serviu de referência consciente não apenas no tom das filmagens, mas no sentimento de autenticidade. Queria que um jamaicano que visse meu filme sentisse seu país representado ali".

Exibido em Sundance antes de entrar na mostra Panorama de Berlim, Yardie gravita entre a Jamaica de 1973 e os submundos da Londres de 1983, conforme acompanha o processo de amadurecimento de D. (Aml Ameen), um traficante que busca no crime meios de se vingar da morte de seu irmão. "Tenho dúvida se o formato do thriller se aplica aqui, pois, embora haja ação, esta é uma história sobre como se lidar com traumas", disse Elba. "Perdi meu pai há cinco anos e essa dor me fez aprender sobre retidão, sobre escolhas".

Em Yardie, D., revoltado, atrapalha a cerimônia religiosa de adeus ao espírito do morto. Assim, o fantasma de seu irmão mais velho vai segui-lo pelas confusões em que ele se mete com um chefão do tráfico na Inglaterra e com sua namoradinha, hoje uma cristã fervorosa. "Existe uma dimensão espiritual no filme, porque a fé é parte da condição humana, e tentei humanizar ao máximo um universo de personagens que, no livro, é muito mais cruel e violento", disse o astro, cotado há anos para substituir Daniel Craig no papel de 007. "Não defino filmes pela cor da pele de seus personagens, defino-os pelas histórias que eles contam. É importante, para mim, representar a identidade negra, claro, mas o que me leva a um filme como Yardie são sentimentos universais. O maior cuidado neste filme era com o fato de eu ter um contingente demasiadamente masculino. Precisava de uma mulher forte para balancear o painel da Jamaica e de Londres. Encontrei esta mulher na figura de Yvonne, a namorada de infância de D., vivida por Shantol Jackson".

Protagonista da série Luther e já envolvido no seriado In The Long Run, Elba diz que pretende dirigir de novo. "Atuo há 30 anos, o que é maravilhoso, mas é diferente da prática de um cineasta. O diretor precisa estar atento a tudo, o que exige de mais mais concentração", avalia. "Mas a experiência de dirigir fez de mim um ator mais atento ao que meus realizadores precisam".

Neste sábado (24), termina a 68ª edição da Berlinale, com a entrega do Urso de Ouro e demais prêmios julgados pelo corpo de jurados liderado pelo diretor alemão Tom Tykwer. Os filmes favoritos são Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot, de Gus Van Sant (EUA); Las Herderas, de Marcelo Martinessi (Paraguai/ Brasil/ Uruguai); Museo, de Alonso Ruizpalacios (México); e U-July 22, de Erik Poppe (Noruega).