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Comédia romântica à moda alemã e tragicomédia com tempero polonês encerram a disputa pelo Urso de Ouro de 2018

Vencedores da Berlinale serão conhecidos neste sábado: coprodução Paraguai e Brasil é uma das mais cotadas a prêmios

Rodrigo Fonseca
23.02.2018
12h28
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Humor costuma ser um substantivo difícil de se encontrar no cardápio de qualquer Berlinale, e, no caso da 68ª edição do festival alemão, que termina amanhã (24), o riso ficou para os 45 minutos do segundo tempo da partida regulamentar pelo Urso de Ouro. Embora sejam sombrios ao abordarem dilemas existenciais e carreguem ingredientes políticos espinhosos, o alemão In The Aisles e o polonês Mug levaram cerca de 1,6 mil críticos a risadas catárticas. E ambos têm condições de saírem daqui com troféus.

Sommerhaus Filmproduktionen/Divulgação

"A comédia está renascendo na Alemanha, ainda de que uma maneira particular, sem um 'hahaha!' rasgado, apontando mais para conflitos internos", disse o diretor Thomas Stuber, que assina o melhor dos quatro longas germânicos em concurso este ano.

Seu In The Aisles deixa no chinelo seus conterrâneos Transit, 3 Days in Quiberon e My Brother’s Name Is Robert And He Is An Idiot (o pior filme deste festival). À frente do elenco de Stuber está a Audrey Hepburn da Alemanha, Sandra Hüller, de Toni Erdmann (2016), que volta aqui numa agridoce história de amor. Ela vive uma funcionária do setor de doces de um supermercado que acaba atraindo o desejo e o amor de um novo funcionário, o silencioso Christian, vivido por Franz Rogowski, o astro da vez em terras germânicas, cuja interpretação é potente o suficiente para ser premiada.

"Na direção, Thomas é um sujeito de poucas palavras o que nos deu muita chance de inventar”, disse Rogowski, protagonista também do já citado Transit, no qual também arrancou elogios da imprensa.

Antes de In The Aisles, a Berlinale visitou uma cidade do interior da Polônia, onde está sendo construída uma estátua GG do Cristo Redentor, inspirada no monumento carioca a Jesus. Quem nos levou lá foi a cineasta Malgorzata Szumowska, que, aos 45 anos, é considerada uma das maiores diretoras da Europa, já premiada em Berlim, em 2015, por Body, no qual falava do médium Chico Xavier.

Em Mug (ou Twarz, no original), Malgorzata denuncia a moda de exorcismos que tomou conta de sua pátria a partir de um enredo ao mesmo tempo trágico e irônico. No filme, o galã da tal cidade, Jacek (Mateusz Kosciukiewicz), trabalha na obra de construção do tal Cristo de pedra e sofre um acidente em meio à edificação do santo, ficando desfigurado. Ele recebe um transplante de rosto, o que causa rejeição em sua namorada e em alguns parentes. Há quem acredite que o Diabo está no corpo dele. A sequência em que Jacek é exorcizado é hilária.

"Se você fizer uma pesquisa rápida na internet, vai ficar chocado com quantidade de filmagens, feitas com iPhone, de ceriomônias católicas de exorcismo na Polônia. É uma febre", disse Malgorzata, explicando que seu interesse em Mug é retratar o dilema da perda de identidade. "A democracia polonesa tem cerca de 25 anos. Antes, a gente vivia sob jugo totalitarista comunista. A juventude de nossa política democrática é culpada pela inércia de muita gente em relação a nossos problemas de governo e ao domínio da Igreja".

Dois filmes disputam a dianteira no favoritismo para o Urso dourado: Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot, do americano Gus Van Sant e U-July 22, do norueguês Erik Poppe. Mas há uma torcida organizada em torno da potencial vitória da coprodução sul-americana Las Herederas, dirigida pelo estreante paraguaio Marcelo Martinessi e produzida pela cineasta carioca Julia Murat. Cogitam-se troféus também para Figlia Mia (Itália), Museo (México), 3 Days in Quiberon (Alemanha), Season of the Devil (Filipinas) e Touch Me Not (Romênia) sendo este último considerado uma escolha obrigatória para o Prêmio Alfred Bauer, dado a experimentos de linguagem. Sua narrativa, comandada pela romena Adina Pintilie, mistura artes visuais, documentário, ficção e anatomia num debate sobre neuroses que afetam o corpo.

Pode sobrar um Urso para o Brasil na competição de curtas, uma vez que Russa, uma coprodução Minas Gerais e Lisboa foi muito elogiada por aqui. O mineiro Ricardo Alves Jr. divide com o português João Salaviza a direção deste híbrido de documentário e drama poético sobre o sucateamento de um bairro.

Os vencedores do Urso de Ouro serão conhecidos neste sábado. Ao fim da premiação, nas programações paralelas, a Berlinale promove o resgate em cópia digital de um sucesso de bilheteria dos anos 1980: Mississippi em Chamas (1988), a ser exibido aqui em tributo a Willem Dafoe, laureado com um Urso honorário pelo conjunto de sua carreira.