Como a TV aberta ajudou a formar gerações de nerds no Brasil

Quando se fala de TV aberta, é quase automático pensar no “boa noite” de William Bonner ou em criações antológicas como a banheira do Gugu. É até fácil esquecer que ela também nos levou a conhecer histórias, mundos e personagens muito diferentes – Ash Ketchum, Jaspion, os X-Men ou o Super Choque, entre tantos outros. É fácil, mas não quer dizer que deveríamos. Afinal, temos que reconhecer: se hoje temos tantos nerds e geeks no Brasil, a TV aberta deu uma boa ajuda nisso.

Beatriz Amendola | @bia_amendola

O começo

Tudo começou lá atrás, em um processo quase tão velho quanto a própria TV no Brasil, que já tem 71 anos. Comprar seriados e animações de outros países era uma prática comum – o primeiro desenho a ser exibido por aqui foi o Pica-Pau, na TV Tupi, um dia após a TV brasileira ser oficialmente inaugurada.

Ao longo dos anos, mais animações chegaram no país, para suprir principalmente espaços dedicados à programação infantil. Foi ainda nos anos 1960 que desembarcaram no país produções como as japonesas Speed Racer e Às do Espaço, que passaram a conviver com clássicos americanos como A Pantera Cor De Rosa, Tom e Jerry e Piu Piu.

Mas a base mesmo de muitas produções que até hoje moram nos corações dos nerds veio na década de 80 (e isso tem uma explicação, sobre a qual já já vamos falar). Foi a década que trouxe Thundercats, He-Man e os Mestres do Universo (que acaba de ganhar uma nova animação na Netflix), She-Ra: A Princesa do Poder (que também ganhou um reboot na Netflix), Super Amigos e muitos outros.

Os desenhos, especialmente, tinham um papel importante na briga por audiência da TV. Eles conquistaram lugar cativo em programas como o Balão Mágico, da Globo, e o TV Criança, da Bandeirantes, e dividiam espaço inclusive com apresentadoras em ascensão como Xuxa, Angélica, Eliana e Mara Maravilha.

Como criança que cresceu nos anos 80 e 90, eu fui muito impactado pela programação infantil da época”, diz o jornalista e escritor Pablo Miyazawa, autor do livro 52 Mitos Pop. “Não existia outra opção. A alternativa seria brincar na rua, ou alugar um filme na locadora, o que também não era uma opção porque demorei muito a ter videocassete, como muita gente que eu conheço. A gente era muito dependente de desenhos animados”.

Era um cenário bem mais fértil do que o de hoje. "Basicamente, todas as grandes emissoras tinham o seu espaço de desenhos, em algum momento diferente. Se a criança quisesse, podia ficar o dia inteiro vendo desenhos animados de gerações diferentes, sem nem se dar conta. Era uma abundância de conteúdo”, explica.

Heróis que amamos

Muito antes de os filmes da Marvel e da DC arrebatarem milhões nas bilheterias dos cinemas, gerações tiveram a oportunidade de conhecer seus heróis justamente pela TV. Separamos aqui alguns exemplos:

O boom das produções japonesas e a Manchete

Foi entre o fim dos anos 1980 e o início dos 1990 que a TV brasileira viu um fenômeno: a explosão de produções feitas no Japão – um fenômeno iniciado pela extinta Rede Manchete. Sim, a TV já havia exibido séries japonesas antes, mas não na escala que viria depois.

Quem ajuda a nos contar essa história é Nelson Sato, proprietário da distribuidora Sato Company. Ele e Toshihiro Egashira, proprietário da Everest Vídeos, comandavam locadoras nos anos 1980, mas percebendo o interesse gerado pelas produções japonesas, resolveram migrar para o ramo da distribuição – primeiramente em home video (lembra das fitas VHS?), e depois na TV.

Ambos foram ao Japão buscar filmes e séries, e Egashira, com um auxílio de Beto Carrero (sim, o já falecido empresário e idealizador do parque de diversões homônimo), conseguiu emplacar Jaspion na Manchete em 1988. “Eles conseguiram colocar a série no ar, e virou o que virou”, recorda Sato, ao Omelete.

Eu trabalhei em parceria com o Toshi nessa época e trouxe Cybercop, Ultraman”, conta o empresário. “Esse conteúdo foi ofertado para outras emissoras, a única que abriu a porta foi a Manchete, porque como ela estava em crise financeira e não tinha dinheiro para comprar, ela preferia fazer parcerias. Foi uma parceria perfeita para todo mundo”. E não é exagero: Jaspion foi um sucesso de audiência e inspirou outras emissoras a investirem em tokusatsus -- o que levaria, anos mais tarde, ao sucesso de Power Rangers na Globo.

Algo semelhante aconteceria, em 1994, com Cavaleiros do Zodíaco. A Manchete não precisou desembolsar nada para exibir a série: segundo reportagem da revista Veja à época, a moeda de troca foi a cessão de três horários comerciais para a Samtoy, que comercializava, por aqui, os brinquedos da saga. A audiência do canal respondeu bem, e quadruplicou.

O outro boom desse fenômeno veio em 1999, quando a Record comprou os direitos para exibir por aqui a série Pokémon. A produção havia sido rejeitada pela Globo e pelo SBT, devido aos casos de convulsão provocados pelos efeitos especiais de um episódio exibido no Japão, mas se mostrou uma aposta certeira da emissora paulista. Exibido no Eliana & Alegria, Pokémon aumentou a audiência do programa e fez os “monstrinhos de bolso” virarem febre no Brasil. (E se você foi criança nessa época, você provavelmente sabe cantar de cor tudo o que vem depois do “pelo mundo viajarei” da música de abertura.)

Foi a deixa para outras produções chegarem com força. Em resposta, a Globo passou a exibir o anime Digimon, que trazia outros monstrinhos. Em 2001, a emissora adquiriu ainda os direitos de outro sucesso: Dragon Ball, que havia chegado ao Brasil pelo SBT, em 1996.

Tá, e o que isso tem a ver com a cultura nerd?

Muita coisa – e isso não passa só pelas boas lembranças que eu e você carregamos desses programas. Afinal, a cultura nerd e geek, como a conhecemos hoje, uniu essas memórias a uma cultura de consumo forte.

De acordo com a doutora em comunicação Patricia Matos, a cultura nerd se expandiu muito com a ascensão da geração que nasceu ao redor dos anos 1980 (ou um pouco antes, ou depois). E não por acaso, já que, demograficamente, esse é um grupo com maior poder aquisitivo e mais tempo livre, que se casa mais tarde e tem filhos mais tarde.

Essas pessoas, em bom português, têm dinheiro para gastar, e continuam gostando das coisas que elas gostavam quando eram mais novas, como Star Wars, Star Trek, os animes... E eles querem continuar consumindo esses produtos, e isso se torna um mercado consumidor muito forte”, explica.

Não é à toa que filmes e séries como Stranger Things e a trilogia Rua do Medo se apoiam (e muito!) na nostalgia. Mas isso é assunto para outro texto...

E hoje?

Atualmente, a situação da TV aberta é bem diferente da que existia até o início dos anos 2000. Os espaços para as animações -- e para os programas infantis como um todo -- foram diminuindo gradativamente, muito em função das mudanças no mercado, como a segmentação e popularização de canais infantis na TV paga (que nos anos 2000 já exibiam muitos dos programas que falamos acima) e a migração de parte do entretenimento para a internet e o streaming.

Hoje, entre as grandes emissoras, apenas o SBT tem uma programação infantil consistente. O principal destaque é o Bom Dia & Companhia, exibido de segunda à sexta, onde estão animações como DC Super Hero Girls, Jovens Titãs e O Espetacular Homem-Aranha.

Para os adultos (ou nem tão adultos assim), os canais se apoiam em séries e filmes – o que faz sentido, dado o sucesso dessas produções na TV paga, no streaming e nos cinemas. “A TV aberta, no Brasil, reproduz bastante do que é essa cultura mainstream, mas com um pouco de atraso”, nota Patrícia Matos.

O que hoje a gente tem como esses produtos que a TV aberta conseguem propagar, são produtos feitos para um escopo muito maior. São produtos que saem da categoria de ‘coisas para nerd’ e entram na categoria de ‘coisas para todo mundo’”, corrobora Pablo Miyazawa.

O SBT exibiu por anos The Big Bang Theory – e você ainda pode encontrar por lá Supernatural, finalizada no ano passado. A Globo, por sua vez, já levou ao ar série como Agents of S.H.I.E.L.D. e Flash, e fez de filmes do MCU, do DCEU e de Star Wars (todos grandes sucessos das bilheterias) parte regular de sua programação.

(Isso sem falar das referências geeks e cinéfilas que Tiago Leifert distribuiu em seus discursos do BBB 21, cujos impactos podem ser mais difíceis de mensurar, mas com certeza existem. Basta observar as reações nas redes sociais).

Vale notar que o interesse nessas produções passa, também, por parcerias comerciais. No fim de 2020, a Globo exibiu os dois primeiros episódios de The Mandalorian como parte de uma ação com o Disney+, às vésperas do lançamento do serviço no Brasil. O resultado? 33,7 milhões de brasileiros impactados -- bom para a emissora, bom para a Disney. Ação semelhante já havia sido realizada, em 2017, pela Netflix, que exibiu o primeiro episódio de Stranger Things no SBT, na semana em que a segunda temporada estreava no streaming.

A vida breve da Loading

Por pouquíssimo tempo, em um passado bem recente, os espectadores também puderam contar com um canal que desde o início se assumiu como voltado ao público nerd e geek: a Loading.

A emissora, que ocupou o sinal da antiga MTV em 2020, tinha programas originais dedicados a falar de cultura pop e games, como o Multiverso e o Gameshark. Lamentavelmente, porém, o canal demitiu abruptamente todos os seus funcionários no fim de maio, com menos de seis meses no ar, e deixou em exibição apenas séries e animações.

Pouco depois, foi revelada a informação de que a Loading deveria dar lugar a um canal de TV da rádio Jovem Pan, que se preparava para lançar sua nova iniciativa ainda neste segundo semestre de 2021. No entanto, em agosto, a Justiça cassou a concessão do canal, por considerar ilegal a negociação feita em 2013 entre o Grupo Abril, dono da antiga MTV, e o Grupo Spring, que assumiu a concessão. Canais de TV aberta, vale lembrar, são concessões públicas -- e as negociações não podem ocorrer sem a participação da União.

Os dias da Loading, então, provavelmente, já estariam contados -- o que não deixa de ser uma pena para os profissionais envolvidos e também para o público.

Afinal, ainda que o acesso à internet tenha avançado muito e ela já seja parte de 88% dos lares brasileiros -- segundo dados de 2019 do IBGE --, isso implica em outros elementos, como a pulverização (e os valores) dos serviços de streaming, e discrepâncias na qualidade da conexão. A TV, enquanto isso, ainda é praticamente onipresente, estando em 96,3% das residências.

Publicado 22 de Setembro de 2021
Projeto gráfico: Kaique Vieira | @kaicovieira
Reportagem: Beatriz Amendola | @bia_amendola
Edição e coordenação Jorge Corrêa | @jorgecorrea_