As muitas faces de
Lázaro Ramos

Ator, diretor, escritor e pai,
Lázaro Ramos não cansa
de surpreender pela genialidade

Pedro Henrique Ribeiro | @OiPhRibeiro Reportagem

Luís Lázaro Sacramento de Araújo Ramos, mais conhecido como Lázaro Ramos (ou Lazinho, para os mais íntimos), é um dos artistas mais versáteis do Brasil. Aos 43 anos, ele acumula papéis nos palcos, nas telas de TV e em salas de cinema, além de trabalhos com dublagem, direção, roteiro e literatura infantil. Onde quer que vá, o trabalho de Lázaro chama atenção pela qualidade. Seja com o irreverente Foguinho (Cobras e Lagartos, 2006) ou com o rabugento Grinch (2018), há sempre um gostinho de quero mais em cada trabalho dele, e o mesmo se repete agora, com sua estreia na direção de um longa-metragem em Medida Provisória.

Baseado na peça teatral Namíbia, Não!, de Aldri Anunciação, o filme conta a história de um Brasil para lá de distópico, em que um golpe racial tenta enviar todas as pessoas negras do país ao continente africano. Medida Provisória acompanha os personagens de Seu Jorge (André), Alfred Enoch (Antônio) e Taís Araújo (Capitú), que juntos resistem firmemente contra a caçada do governo pelos chamados "melanina acentuada”. Ao lado do governo, a personagem de Adriana Esteves (Isabel) trabalha como a agente responsável por executar a MP 1.888, que determinou a expulsão dos negros brasileiros. Junto dela, alguns personagens brancos, como a interpretada por Renata Sorrah, apoiam o governo e até denunciam pessoas negras que ainda não foram retiradas do Brasil.

Gritar contra a censura

O filme, que ilumina o lado cineasta de Lázaro, sofreu muitos obstáculos até ter uma data de lançamento oficial, entre burocracias na Ancine (Agência Nacional de Cinema) e acusações infundadas do então presidente da Fundação Palmares, Sergio Camargo, que afirmou que o filme faz ataques ao governo de Jair Bolsonaro (PL). Sobre o filme fazer ou não paralelos com a realidade brasileira atual, Lázaro diz que “a realidade está em alguns casos pior”.

”O filme foi baseado numa peça de 2011 e o primeiro roteiro, que é a base do roteiro que está aí até hoje, é de 2013. Era uma tentativa da gente fazer um alerta sobre coisas que a gente não gostaria que acontecessem no Brasil. Infelizmente, várias delas que eram imaginação de um grupo de roteiristas viraram realidade”, lamenta o diretor, que alerta: “A gente tem que rever a realidade, o país, as escolhas políticas que estamos fazendo, a maneira com que a gente está se relacionando”.

Não foi apenas Medida Provisória que sofreu nos últimos anos. Marighella, filme dirigido por Wagner Moura e estrelado por Seu Jorge, também enfrentou a burocracia da Ancine no passado; Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, de Danilo Gentili, teve ordens para ser retirado do streaming e a sua classificação etária alterada de 14 para 18 anos. Na área musical, os artistas do festival Lollapalooza 2022 foram proibidos de realizar manifestações políticas sob ameaça de multa no valor de R$ 50 mil para cada manifestação — decisão que foi revogada dias depois. Quanto a esses eventos, Lázaro é categórico e diz que a arte não será silenciada. “Bom, primeiro que a frase que foi dita há muito tempo em um período de terror continua valendo, né? Censura nunca mais! Eu acho que nunca mais, mesmo, porque as pessoas não vão parar de falar, elas vão dar um jeito e os governos não podem se meter nisso. Essa é uma mediação que a sociedade tem capacidade de fazer. As pessoas têm direito de escolha, por isso votamos e defendemos o voto, mesmo com todos os dilemas que a democracia tem”, explica o cineasta.

“Quando você censura a arte, você mata o espelho de uma sociedade, que é onde a gente se vê, a gente se enxerga. Mas a gente não vai calar não, isso aí não é muito uma possibilidade não”
Lázaro Ramos, ao Omelete

Sorrir pelas próprias conquistas

Para Lázaro, o Brasil tem muita dificuldade na hora de discutir suas chagas e as sequelas da escravidão no país. Com o filme, ele tanta trazer uma discussão sobre racismo institucional e espera encontrar debate no público. “Não sei qual será o nível de qualidade do debate, porque o filme mexe com alguns incômodos da sociedade, mas ele foi feito justamente para isso”, diz. Para além da conscientização, o filme busca sensibilizar o espectador, o que, segundo ele, deu certo com o público norte-americano -- Medida Provisória foi bem recebido em festivais nos Estados Unidos, como o badalado SXSW, no Texas. Parte desse resultado vem desde a base do filme, quando houve uma preocupação em colocar a visão de profissionais pretos em todas as equipes do filme.

Com uma equipe predominantemente negra na frente e atrás das telas, Lázaro criou um longa que se preocupou em representar a cultura negra em cada detalhe. Roupas, cabelo, fotografia… tudo perfeitamente harmonizado com a trilha sonora criada por Rincon Sapiência. A união de tantos fatores junto da expectativa de saber a reação do público brasileiro levou a pressão do diretor às alturas antes da primeira exibição de Medida Provisória por aqui, durante o Festival do Rio. “Foi muito esquisito [o primeiro contato com o público]. Eu tenho pressão alta, minha pressão disparou uma semana antes da pré-estreia, começou a subir e descer, eu estava tenso. A sessão foi tensa para mim porque mesmo o filme tendo sido exibido em vários festivais,eu tinha muita expectativa de ver o público brasileiro”, conta o diretor, que celebra a resposta que recebeu da plateia: “Foi um alívio porque eu percebi que as intenções do filme funcionaram, as intenções de narrativa. Os momentos de comédia e drama funcionaram muito. A pressão agora abaixou”.

Rincon não foi o único rapper brasileiro a participar de Medida Provisória. A convite de Lázaro, Emicida fez sua estreia na atuação. “É um cara que eu admiro muito. A voz dele é uma voz muito importante e eu queria que esse filme tivesse vozes assim”, explica. Se você for pensar, quando começa o filme, a primeira imagem que aparece é da dona Diva Guimarães, que emocionou o Brasil todo num momento inesperado na Flip de 2017 ao falar sobre a vida dela. O filme é isso, é um filme de muitas vozes. Tanto que Medida Provisória não é assinado como um filme em que eu sou diretor e roteirista, ele é dessas vozes todas que trazem o debate racial nas suas vidas, e o Emicida não pode faltar”, define Lázaro, comemorando a resposta positiva do cantor, que filmou em tempo recorde. “Eu fiquei feliz que ele aceitou, quase que ele não pode fazer. Ele filmou em tempo recorde. Tinha dez diárias, mas ele acabou filmando tudo em dois dias e nem se percebe. Valeu muito a pena todo o esforço, porque é uma presença, uma demarcação de território”.

Durante uma gravação do programa Altas Horas, da TV Globo, que teve Lázaro e Emicida presentes, o rapper aproveitou para agradecer pelo convite e o trabalho do diretor. “O que você está fazendo com Medida Provisória, você faz questão de colocar os olhos do mundo onde eles precisam estar. É uma honra estar nesse projeto com você, minha alegria não cabe no peito. Quero que todas as pessoas assistam ao filme e se inspirem no que você é, porque você é foda!”, disse Emicida, antes de levar Lázaro às lágrimas.

Olhar para boas histórias

Lázaro escolheu sua profissão ainda adolescente e iniciou a carreira no Bando de Teatro Olodum. Ele chegou a apresentar o Fantástico no início do século, mas foi em 2002 que ele viu sua carreira como ator decolar ao interpretar João Francisco, em Madame Satã. Esse foi o primeiro longa dele como protagonista, mas, antes da estreia, Lázaro já havia filmado O Homem que Copiava (2003), em que interpretou o tímido desenhista e operador de fotocopiadora André. Em 2007, Lázaro foi indicado ao Emmy de melhor ator pelo inesquecível Foguinho, de Cobras & Lagartos.

Esses são apenas alguns papeis que marcam a carreira do ator, que sofre para escolher seus personagens favoritos. “Eu sou um cara de muita sorte. Para mim, é difícil escolher entre o Madame Satã, Foguinho, Mister Brown, Cidade Baixa, ou outro filme do Sérgio [cineasta Sérgio Machado]”, explica Lázaro. “A dificuldade é justamente essa, acho que muita gente investiu em mim e me convidou para trabalhos que fazem com que eu tenha uma carreira muito diversa então eu nunca consigo escolher [entre um personagem e outro]”.

Com o nome em tantos projetos, a pressão e os desafios aumentam, mas nada supera o frio na barriga da primeira vez. Por isso, Lázaro elege sua atuação em Madame Satã como o maior obstáculo que ultrapassou — e brilhantemente, mesmo sem estar ciente disso. “Madame Satã continua sendo o maior desafio porque eu tinha 21 anos, nunca tinha protagonizado nada; cinema eu conhecia como espectador, mas eu não sabia o que era estar naquele lugar com um personagem dessa responsabilidade contracenando com ídolos meus, inclusive. Eu ficava no set meio apavorado com aquelas pessoas. Eu às vezes eu entrava e não sabia o que eu estava fazendo”, lembra o ator.

“Eu até hoje eu assisto Madame Satã e eu não me reconheço, porque o meu medo era tão grande que eu não sei como ele não transpareceu em cena. Todos os dias eram um pavor. Eu tinha pavor de estar naquele lugar”, completa. Porém, o Brasil não é um país que tolera desperdício de oportunidades, especialmente para pessoas negras, que têm mais dificuldade em acessar o mercado de trabalho. Por esse motivo, Lázaro seguiu firme, superando seu medo de errar. “Você vai entender bem o que eu estou falando [se dirigindo ao repórter, outro homem negro], quando a gente tem uma oportunidade dessas, não quer perder, a gente agarra com unhas e dentes. O medo e a coragem estavam ali, andando juntinhos”.

Com blockbusters ocupando cada vez mais espaço no coração do público brasileiro, e consequentemente mais salas de cinema por aqui, muitas produções nacionais estão apostando direto nos serviços de streaming. Por serem mais baratos e acessíveis que uma sala de cinema, os filmes nas nuvens ajudam a democratizar novos e antigos conteúdos, como foi o caso de Cidade Baixa (2005), que entrou no catálogo da Netflix em 2022. O filme que traz Lázaro atuando com Wagner Moura e Alice Braga foi “revivido” e celebrado por muitos que tiveram contato com ele pela primeira vez. Assim como seus filmes, o ator também caminha em direção ao VOD (vídeo on demand). Após deixar a Rede Globo em 2021, Lázaro, que não é de perder oportunidades, vem experimentando o gostinho do streaming. “Eu estou trabalhando agora no Prime Vídeo, entrando no mundo do streaming, tentando entender, dirigindo, vou atuar lá também”, conta ele, empolgado. “Cidade Baixa é um filme que a gente fez há muito tempo e que eu gosto muito. Acho um filme de muita qualidade que teve uma trajetória linda, mas que não era um filme muito revisitado como Madame Satã, que toda hora passa na televisão. Quando [Cidade Baixa] entrou na Netflix, uma quantidade de gente conheceu o filme, parece que ele foi feito recentemente. E eu nem conseguiria fazer [o filme] hoje, né? Lutar boxe já está fora de cogitação”, brinca ao lembrar do personagem.

Quando pensamos na carreira de atores como Lázaro Ramos é difícil apontar o que falta para elas. Ele é daqueles que parecem já ter feito de tudo e quando menos esperamos, somos surpreendidos por algo surreal. Mas os próximos passos devem seguir no caminho da direção. O ator conta que, pouco antes da nossa conversa, comandou um projeto inédito para ele: o filme musical Um Ano Inesquecível — Outono, baseado no livro homônimo escrito por Thalita Rebouças, Paula Pimenta, Bruna Vieira e Babi Dewet. “Acabei de dirigir um filme novo, que é um musical, coisa doida aí. Musical no Brasil… não sei o que vai dar. Mas continuo no desejo de contar histórias que sejam relevantes, sabe? Mesmo que seja na comédia, a relevância sempre vai ser o meu caminho porque eu acho que esse troço que a gente faz é muito poderoso”, afirma. “Eu tenho certeza que as pessoas sempre se transformam quando assistem uma boa história”.

Gargalhar com a família

Ao lado de todas as conquistas profissionais de Lázaro Ramos está a família que ele formou com Taís Araújo. A união deles gerou Maria Antônia e João Vicente, que devem crescer em um país mais esperançoso para pessoas negras graças ao trabalho dos pais. Fora de casa, Medida Provisória foi o terceiro trabalho em que Lázaro dirigiu Taís. “Eu tive o prazer de dirigir ela nessa peça que a gente faz junto [O Topo da Montanha], no Falas Negras, um especial da Globo em que ela fazia a Marielle [vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018] e em Medida Provisória”, conta o marido. “A gente tem uma relação assim que é de muita confiança um no outro e agora é tudo misturado. As pessoas perguntam como é no trabalho e em casa, mas já está tudo misturado. A gente é capaz de estar no meio de uma cena e perguntar se já pagou o judô do filho. É um pouco assim”, brinca.

Além da admiração de marido e mulher, ainda há o respeito profissional que ambos têm pelo trabalho um do outro. O caso de Lázaro e Taís é ainda mais especial, já que eles têm um belo histórico de atuações conjuntas como em Cobras & Lagartos e Mister Brau. “Eu tenho uma admiração tão grande por Taís que, para mim, é muito fácil dirigir ela, porque Taís é uma atriz de muita entrega, ela estuda muito. Ela chega no set e oferece o melhor de si naquele momento, o que é muito lindo porque fica registrado para sempre, né?”, explica Lázaro, apaixonado. Ele também revela um momento dos bastidores de Medida Provisória, quando Taís reclamou de uma cena em casa, mas a executou — brilhantemente — mesmo assim: “Tem uma cena dela que eu gosto muito que em casa, ela falava ‘eu não sei fazer isso’, ‘corta essa cena’, ‘para que fazer isso? Precisa dessa cena no filme?’, e quando chega a hora, ela dá um dos momentos mais lindos que o filme tem”, conta o marido, orgulhoso. Lázaro ainda divide qual foi o trabalho mais divertido ao lado de Taís: “Mr. Brown com certeza. Era uma galhofa absurda. O encontro daquela equipe foi muito feliz. A gente até hoje sente falta”.

De volta ao lar, ao que o papai da família Araújo Ramos assiste quando não está trabalhando? Segundo ele, de tudo um muito. “Eu sou bem espectador diário de tudo”, conta, antes de revelar ser fã de produções de super-heróis: “Os X-Men estão no meu coração. Agora, estou na fase The Boys, que não é Marvel, mas faz parte desse mundo de super-heróis”. E nem tudo são flores. Há também produções que ele não gosta e prefere nem mencionar. “Não vou dizer o nome para não me queimar, mas até série ruim de super-herói eu assisto, só não vou dizer o nome”. Com as crianças, o paizão diz que assiste a muitos filmes infantis da Disney, que para ele, são o que de melhor cinema americano produz. “Eu assisto com meus filhos com gosto. Eu estava vendo Encanto, Red: Crescer é Uma Fera, e você [adulto] fica entretido também”.

No mundo da literatura, o livro de cabeceira de Lázaro é Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves, mas isso pode estar prestes a mudar. “Eu tive o prazer de escrever o prefácio da nova tradução de um livro da bell hooks chamado A Gente É da Hora: Homens Negros e Masculinidades. O livro mexeu muito comigo, então acho que dá para dividir: Um Defeito de Cor e esse que ainda vai ser lançado”. Para acompanhar suas leituras, Lázaro também conta com os sons de Luedji Luna, Baiana System e muito mais.

Ator, diretor, dublador, marido e pai, Lázaro Ramos tem muitas faces e muita história para contar. Aos 43 anos, ele segue a pleno vapor, como uma locomotiva cultura querendo espalhar entretenimento pelos quatro cantos do país. Medida Provisória leva Lázaro a um nível ainda mais alto do que ele já havia alcançado e o consagra como um dos maiores nomes do cinema brasileiro do século. Agora, a dúvida não é se ainda seremos surpreendidos por um novo trabalho dele, é quando.

Publicado 14 de Abril de 2022
Edição de texto Beatriz Amendola | @bia_amendola
Coordenação Jorge Corrêa | @_jorgecorrea
Arte de capa Juliana Toledo | @julianatoledo22