Doctor Who

Créditos da imagem: BBC/Divulgação

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Doctor Who | Como erros de Steven Moffat ainda "assombram" fase atual da série

Apesar de transformar produção britânica em sucesso mundial, era do ex-showrunner foi marcada por temporadas irregulares e escolhas criativas divisivas

Nico Garófalo
26.07.2021
12h36
Atualizada em
26.07.2021
16h07
Atualizada em 26.07.2021 às 16h07

Criada em 1963, Doctor Who é, desde então, um dos grandes pilares da cultura pop do Reino Unido e da ficção científica de modo geral. Como acontece com qualquer propriedade intelectual longínqua, a série passou por muitos altos e baixos, como a infame demissão de Colin Baker, o sexto Doutor, que nem pôde filmar uma cena de despedida em 1986, ou o cancelamento repentino da chamada Era Clássica em 1989. No revival, iniciado em 2005, não foi diferente. Problemas de bastidores surgiram já na primeira temporada, e Christopher Eccleston, intérprete do nono Doutor, se demitiu por causa das famosas “diferenças criativas”. Ainda assim, a qualidade das primeiras temporadas da nova fase passou praticamente ilesa pelas turbulências, agradando crítica e público. O momento de divisão aconteceria em 2010, quando Steven Moffat assumiu o posto de showrunner e fez escolhas que, mesmo quatro anos depois de sua saída, seguem afetando a série.

Obviamente, é necessário reconhecer que Moffat teve sim acertos em sua passagem por Doctor Who. Foi sob seu comando que a produção se tornou de vez um grande sucesso mundial. O produtor e roteirista soube escalar e criar bons personagens, como River Song (Alex Kingston), Amy (Karen Gillan), Rory (Arthur Darvill), Bill (Pearl Mackie) e - apesar do que dizem alguns haters dentro do fandom - Clara (Jenna Coleman). Moffat também acertou nas escalações de Matt Smith e Peter Capaldi, que conquistaram suas próprias bases de fãs no período em que viveram o 11º e 12º Doutor, respectivamente.

Acontece que a visão americanizada de Moffat foi, aos poucos, descaracterizando a série, criada originalmente para o público infantil. Embora seu antecessor, Russell T. Davies, tenha introduzido interesses românticos para o Doutor quando chefiava a série, a forma como o Senhor do Tempo olhava para Rose (Billie Piper) era carinhosa e admiradora. Obstinado em levar Doctor Who para as massas, Moffat substituiu esse amor mais “fofo” por momentos de tensão sexual, especialmente nas temporadas em que Smith viveu o Senhor do Tempo. O vício hollywoodiano também se refletiu na criação de cenas de ação cada vez mais grandiosas e histórias que prometiam o fim do universo caso o Doutor não impedisse, algo que fugia completamente da proposta original de fazer crianças se interessarem por ciências e história.

Ao deixar o cargo para Chris Chibnall, o agora ex-showrunner entregou uma verdadeira bomba ao seu sucessor: ciente das críticas recebidas nos sete anos anteriores, o novo chefe precisaria manter as escolhas acertadas de Moffat ao mesmo tempo em que devolvia Doctor Who às suas raízes. Trazendo Jodie Whittaker como a primeira protagonista mulher da série, o produtor criou ainda mais expectativas em torno de sua Era, que começou relativamente desequilibrada, muito por causa do malabarismo que Chibnall teve que fazer.

A 11ª temporada, primeira do novo showrunner, foi alvo de críticas por não encontrar uma identidade própria. Diversas vezes, percebia-se que Chibnall e sua equipe tentaram emular os acertos dos últimos 13 anos, criando um híbrido relativamente desequilibrado, que recuperava a inocência da proposta original de Doctor Who, mas ainda criava cenários e histórias grandiosas de forma desencaixada. A mistureba prejudicou o ritmo dos episódios, que às vezes nem pareciam pertencer a uma mesma série.

Os problemas continuaram no ano seguinte. Desta vez mais próximo do que os whovians estavam acostumados a ver pré-Moffat, Doctor Who trouxe histórias criativas e (em sua maioria) divertidas e mais contidas em si mesmas. A sombra de blockbuster criada pelo showrunner anterior, no entanto, continuava cobrindo Chibnall, que virou não só a 12ª temporada, mas todo o cânone da franquia na tentativa de atrair fãs de histórias como “A Pandórica Abre” ou “Um Bom Homem Vai à Guerra” de volta para a série.

Mesmo que as duas temporadas já transmitidas de Doctor Who sob o comando de Chibnall não sejam ruins - longe disso, aliás -, é evidente que o atual comandante da produção ainda não entendeu como imprimir sua própria identidade na série. Embora tenha devolvido a franquia às suas raízes em diversos episódios, o showrunner parece ainda assustado demais pelo legado de Moffat e seus Doutores mais sombrios para abandonar definitivamente o vício pelo épico estabelecido nos sete anos em que seu antecessor comandou o destino da TARDIS.

A pluralidade de vozes, visões e, claro, protagonistas entregues nestes quase 60 anos de história é o que permitiu que Doctor Who durasse e crescesse tanto. Responsável por renovar a paixão pela ficção científica em diferentes gerações, a série precisa que suas mentes criativas tenham menos vergonha de mostrar suas ideias, mesmo que isso signifique deixar o espetáculo e grandiosidade cinematográfica um pouco de lado. Afinal, qual a necessidade de sempre pousar em meio a um gigantesco perigo intergaláctico quando podemos encontrar pessoas como Rosa Parks, William Shakespeare, Agatha Christie e outras figuras tão fascinantes e importantes quanto uma batalha pelo destino do universo?

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