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Doctor Who | Chegada de Jodie Whittaker no 11º ano eleva o padrão da série

Produção passa por repaginada no visual, roteiros e, claro, protagonista

Arthur Eloi
08.10.2018
13h05

As mudanças do protagonista sempre são um momento interessante para Doctor Who: não só o rosto principal é trocado, como toda a dinâmica entre companions e aventuras. É a chance perfeita de rever o que funciona e o que precisa ser melhorado - algo que a série precisava bastante após a era de Peter Capaldi, encabeçada por um carismático e excelente ator que demorou a vingar como Doutor, graças a roteiros preguiçosos que não sabiam como trabalhá-lo e com arcos ocasionalmente brilhantes, mas frequentemente pouco inspirados.

Jodie Whittaker como a 13th Doctor
Doctor Who/Ben Blackall/BBC/Divulgação

"The Woman Who Fell to Earth", chegada de Jodie Whittaker ao papel, promete vida nova ao seriado britânico. O capítulo, que abre a temporada 11, toma seu tempo para desenvolver a nova protagonista e também os personagens que lhe farão companhia nas aventuras futuras.

Os primeiros minutos do episódio são dedicados aos companions: Ryan Sinclair (Tosin Cole), um jovem de 19 anos tentando superar uma deficiência motora; Graham O'Brien (Bradley Walsh), aposentado motorista de ônibus e padrasto de Ryan; e Yasmin Khan (Mandip Gill), amiga de infância de Ryan e policial novata que se sente mais capacitada do que seus superiores acreditam. Após o trem onde estavam sofrer um inesperado desligamento, os três dão de cara com uma estranha raça alienígena - e com a intervenção da Doutora.

Ainda que passe o primeiro capítulo se preparando, a versão de Whittaker transborda carisma. A atriz combina a autoridade e profissionalismo de Capaldi com a leveza de David Tennant - um sorriso no rosto e uma curiosidade bem-intencionada. Assim como no 10º Doutor essa pureza não atrapalha quando surge a necessidade de partir para a ação, como confrontar um caçador alienígena ou construir sua própria Chave de Fenda Sônica.

A diferença fica nas motivações: enquanto a versão de Tennant - assim como Christopher Eccleston, Matt Smith e Capaldi - busca a paz e equilíbrio como formas de lidar com os traumas de uma guerra sangrenta, Whittaker é guiada pela esperança de um mundo melhor e de mais empatia entre os seres, servindo como mediadora - e defensora - onde necessária. A nova versão parece combinar toda a ferocidade e inteligência do Doutor com uma missão mais otimista, que se torna cada vez mais necessária.

Outra grande mudança acontece na parte visual. O diretor Jamie Childs, que assina o primeiro capítulo, traz qualidade cinematográfica ao programa. As últimas temporadas vinham melhorando, mas só agora é possível ver o investimento da BBC: belíssimos planos abertos do interior do Reino Unido, cenas de enfrentamento claustrofóbicas e uma estética fortemente inspirada por clássicos sci-fi como Alien - O Oitavo Passageiro (1979) e O Exterminador do Futuro (1984). Se os demais episódios seguirem as melhorias de Childs, a temporada terá um padrão elevado de sofisticação visual.

O aspecto mais preocupante fica por conta da escrita. Anteriormente, roteiros eram tópicos sensíveis para o showrunner Steven Moffat, que frequentemente deixava de desenvolver arcos narrativos e os concluía com soluções milagrosas. O produtor se saía melhor escrevendo histórias fechadas - como "Vincent and the Doctor", com Matt Smith; ou o dupla "Heaven Sent" e "Hell Bent", com Capaldi. Chris Chibnall, que agora assume o posto, já se envolveu com Doctor Who no passado - com resultados decepcionantes: todos os seis episódios que roteirizou antes da era de Whittaker são preguiçosos, de baixa qualidade e com a mesma estrutura de ameaça-global-que-exige-urgência.

Em "The Woman Who Fell to Earth" é possível ver alguns desses traços: enquanto Chibnall não recorre à contagem regressiva como nos demais capítulos, ainda há uma sensação de urgência que é ressaltada tanto no diálogo quanto na trilha, com tiques de relógio e crescendos sonoros. O que ajuda é que o foco da trama, mostrando um caçador à la Predador atrás de um único humano, é pequeno o bastante em escopo para que a tensão funcione. Resta apenas confiar que o tempo do showrunner na ótima Broadchurch - que, inclusive, tinha Whittaker, Tennant e Eccleston no elenco - tenha o ajudado a crescer além da mesmice de "vilões que destruirão a galáxia".

Ainda que em um episódio introdutório, a primeira aparição de Jodie Whittaker em Doctor Who passa confiança: a produção optou por deixar a pesada mitologia da trama como plano de fundo, no objetivo de atingir o maior número de espectadores novatos o possível - algo que parece ter dado certo. Isso cria oportunidade para que a 13ª Doutora cresça sem amarras, o que funcionou bem para Capaldi em seu ano final. O capítulo deixa um gancho interessante para o futuro da jornada e também um sorriso no rosto de ver a estreia de uma personagem com potencial de sobra.

No Brasil, Doctor Who é transmitida aos domingos pelo serviço de streaming Crackle.