Como Brooklyn Nine-Nine entregou a melhor representatividade bi da TV americana

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Como Brooklyn Nine-Nine entregou a melhor representatividade bi da TV americana

Episódio em que Rosa sai do armário segue sendo, para o bem e para o mal, o melhor que a TV já fez

Caio Coletti
13.08.2021
06h00
Atualizada em
13.08.2021
08h41
Atualizada em 13.08.2021 às 08h41

Tratar toda uma comunidade como um monolito, uma entidade unificada com preocupações unificadas, é um dos erros mais fáceis para alguém de fora dessa comunidade cometer. Acontece com pessoas brancas em relação a pessoas negras, e acontece com pessoas cisheterossexuais em relação à comunidade LGBTQIA+. É complexo mesmo entender onde uma comunidade se une para reivindicar determinados direitos conjuntos, e onde ela se separa e diverge em suas experiências de vida e opressões - e só é fluente nessa linguagem quem a utiliza no dia a dia.

Na cultura pop, essa dificuldade normalmente se traduz em uma representatividade… bege, digamos assim. É da falta de especificidade e conhecimento sobre as experiências de cada uma das pessoas que se encaixam na sigla LGBTQIA+ que nascem retratos bem intencionados e até inofensivos, mas pouco envolventes ou dignos da integralidade humana de pessoas LGBTQIA+ de verdade. Vide A Festa de Formatura, Jungle Cruise ou Love, Victor. Brooklyn Nine-Nine triunfa justamente por ir na contramão desse cenário.

“Game Night”, o 10º episódio da 5ª temporada da sitcom, começa com Rosa Diaz (Stephanie Beatriz) declarando ser bissexual aos seus colegas de delegacia. O “segredo” da personagem já havia sido revelado a Charles (Joe Lo Truglio) no episódio anterior, meio sem querer, e a notícia é recebida sem muita crise pelos outros policiais. O coração do episódio não está em Rosa falando sobre sua sexualidade com os amigos, na verdade, e sim em sua dificuldade para falar sobre isso com os pais, interpretados pelos atores convidados Danny Trejo e Olga Merediz.

A policial sente um medo que é comum a toda pessoa LGBTQIA+: o de não ser aceita e amada como ela é pelas pessoas com as quais ela mais se importa. O que Rosa percebe no decorrer do capítulo, no entanto, é que se declarar bissexual para o mundo vem com desafios distintos (não maiores, nem menores, mas distintos) dos que viriam se ela se declarasse lésbica, ou se um homem se declara gay.

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A magia de “Game Night” é o quão bem os roteiristas da série entendem esses desafios. Dias depois de finalmente se assumir, Rosa volta a encontrar com os pais e percebe que eles chegaram, por si próprios, a uma conclusão: está tudo bem ela se dizer bissexual, porque no fim das contas vai acabar se casando com um homem mesmo. Mais até do que isso, o pai de Rosa está convencido que “não existe isso de ser bissexual”, e os dois até repetem aquele velho refrão do “isso é só uma fase”.

O que Rosa encontra não é rejeição, portanto, no sentido agressivo e ativo da palavra, mas descrença. Dúvida. Uma espécie presunçosa de contestação, que carrega nas entrelinhas a mensagem estúpida de “eu sei quem você é melhor do que você mesmo”. E essa é uma experiência de opressão singularmente bissexual.

É uma experiência, inclusive, cujos detalhes costumam divergir entre homens e mulheres bissexuais, e Brooklyn Nine-Nine cuida bem de delimitar isso. Mulheres bis, como Rosa, normalmente têm a sua identidade queer negada, em uma espécie de auto-tranquilização empreendida pelos indivíduos bifóbicos (“tudo bem, passe por essa fase e depois se case com um homem”); homens bis, como o Nathan (Uly Schlesinger) de Genera+tion, por exemplo, ouvem que estão “se apegando ao armário” quando se assumem, que a bissexualidade é uma forma de “se preparar” para se assumir gay - o que significa, não coincidentemente, que eles também vão acabar ficando só com homens.

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Pessoas LGBTQIA+, como um todo, conhecem muito bem a dor de ser obrigado a negar a sua identidade, de saber que o “amor” das pessoas que estão ao seu redor é dependente desta negação. Um dos poucos estudos feitos sobre a população bissexual (uma consequência do apagamento é a falta de atenção acadêmica, e portanto sociopolítica, aos problemas da comunidade) afirma que indivíduos bis sofrem desproporcionalmente - inclusive em relação a pessoas lésbicas e gays - de distúrbios como ansiedade e depressão, que são menos frequentemente assumidos, e que se sentem menos conectados às suas comunidades. 

Brooklyn Nine-Nine acerta também na forma como conclui essa parte da história de Rosa. Primeiro, a série não cai na armadilha de colocar sobre a personagem bissexual o fardo de se reconciliar, encontrar um “meio termo” com os personagens bifóbicos. Não há em nenhum momento a sugestão de que ela deveria “abaixar a cabeça” e aceitar uma relação com os pais baseada na negação de si mesma. Ao invés disso, é o pai da policial que a procura para dizer que está disposto a entendê-la melhor.

Melhor ainda é como os amigos de Rosa agem nesta situação. Nos momentos derradeiros do episódio, o capitão Holt (Andre Braugher) modela um acolhimento, um reconhecimento tácito, que nem sempre existe para os bissexuais dentro da própria comunidade LGBTQIA+. Não é à toa que sua fala no final do capítulo ficou marcada como a mais memorável: “Toda vez que alguém se levanta e diz quem é, o mundo se torna um lugar melhor e mais interessante. Então, obrigado.

“Game Night” tem 20 minutos de duração, e a história de Rosa deve ocupar de 10 a 15 minutos dele, no máximo. É o bastante para o episódio abrir e fechar - provisoriamente - um arco importante para a personagem, sem derrapar na representatividade. Outra vantagem de mirar na especificidade, afinal, é que você não precisa de muito tempo, de grandes discursos, para falar o que quer ou o que precisa falar. Quando você conhece bem o ponto, pode ir direto a ele.

Já se passaram quase quatro anos desde que “Game Night” foi ao ar, e ele ainda parece insuperável em termos de representatividade bi, o que não deixa de ser um pouco triste. Personagens bissexuais na TV norte-americana continuam ganhando espaço, com exemplos acertados que incluem Good Trouble e a já citada Genera+tion, mas falta a essas e outras séries o impacto de massa de uma Brooklyn Nine-Nine, e também a precisão cirúrgica com a qual ela lidou com as particularidades da bifobia.

Com a sitcom se encaminhando para a última temporada, que estreia hoje (12) nos EUA, “Game Night” precisa ficar como exemplo, ou ao menos ponto de partida, para quem quiser incluir personagens bissexuais em suas narrativas.

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