HQ/Livros

Artigo

Batman e a <i>Sedução do inocente</i>

Batman e a <i>Sedução do inocente</i>

Mario "Fanaticc" Abbade
10.06.2005
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h32
Atualizada em 29.06.2018 às 02h32

Sedução do Inocente

Dr. Fredric Wertham

Batman 89, última edição sem
o selo do Comics Code...


... que aparece na edição 90, no canto superior direito da capa.

O selo do Comics Code Authority

Wonder Woman 72: Última edição
antes do selo da CCA.


Batman 159, com a história The Great Clayface-Joker Feud

Criado em 1939 por Bob Kane (1916-1998), o Batman vigiou tranqüilo a cidade de Gotham City durante 16 anos. Seu desinteresse pelo romance era simplesmente atribuído à sua obsessão por justiça, até que em 1955, quando o livro Sedução do Inocente foi publicado, iniciou-se uma reação social puritana.

Escrito pelo alemão Dr. Fredric Wertham (1895 - 1981), A Sedução do Inocente é um livro extraordinário, não por seu conteúdo, mas por ser um melodrama extravagante disfarçado em psicologia social. Wertham parece um clone do Senador McCarthy - que perseguiu pessoas inocentes, com a desculpa de serem comunistas nos anos 50. O escritor era um evangélico engajado na missão de salvar a juventude estadunidense de seus piores impulsos. Ele acreditava que os leitores copiariam o conteúdo das histórias em quadrinhos e enxergava maus exemplos em cada página.

Com a publicação, pela primeira vez, as ilustrações e tramas típicas das histórias em quadrinhos policiais da época despertaram a atenção dos pais, cientistas e de outros adultos. Muitas pessoas passaram a interpretar de maneira equivocada o conteúdo das revistinhas, já que o livro trazia a suposta prova clínica e científica dos efeitos resultantes da leitura das HQs do gênero.

Como consequência, houve uma mudança imediata no mercado. O número de títulos de HQs policiais diminuiu e quando existiam histórias que tratavam do tema elas não eram expostas na capa. O crime e a violência, claro, ainda reinavam supremos nos gibis, mas eram freqüentemente disfarçados. Cientes disso, as autoridades estabeleceram o Código de ética das HQs (o infame Comics Code Authority). Neste pequeno tratado, além das regulamentações concernentes a crimes, violência e vocabulário, há uma parte dedicada especialmente ao casamento e ao sexo:

1 - Divórcio não deve ser tratado humoristicamente, nem ser representado como algo desejável.

2 - Relações sexuais ilícitas não devem ser retratadas e anormalidades sexuais são inaceitáveis.

3 - Todas as situações que tratem da unidade familiar devem ter como principal objetivo a proteção das crianças e da vida familiar. Em caso algum a quebra do código de moral deve ser representada como recompensadora.

4 - Estupro nunca deve ser mostrado ou sugerido. Sedução não deve ser mostrada.

5 - Perversão sexual ou qualquer alusão ao desvio é estritamente proibida.

Obviamente, os padrões morais de hoje são bem diferentes dos da época da publicação deste código, assim como a abordagem do sexo e do casamento nos quadrinhos. Depois da leitura do item 3, por exemplo, é possível compreender que as regras morais de cinco décadas atrás eram bem mais rígidas. Por ser justamente o primeiro personagem fictício a ser atacado pelo dr. Wertham, o Batman - solteirão, morando com um menino adotado - acabou absorvendo todo o impacto da polêmica e algum tempo depois já era taxado de forma absolutamente preconceituosa e errônea de gay, como o próprio Wertham explica:

Todo pré-adolescente tem um período que despreza as meninas. Algumas revistas em quadrinhos fixam essa atitude e ainda criam a idéia de que garotas só servem para apanhar ou seduzir. É sugerida uma atitude homoerótica da forma que a masculinidade é apresentada. As mulheres sempre são bruxas ou violentas. As mulheres sempre são desenhadas num tom pouco erótico. Já os heróis sempre estão em tons agressivamente eróticos. O musculoso super-tipo é enfatizado com o objetivo de criar estímulo e curiosidade sexual no leitor.

É tanto absurdo que nem vale a pena confrontar. Até porque Martin Barker destrói cada um das teorias absurdas de Wertham no ótimo A Haunt of Fears (1984). Mas não é só isso. Após explicar suas teorias infames, Wertham dispara sua metralhadora na mansão Wayne:

Algumas vezes, Batman está de cama por causa de algum ferimento. Robin aparece sentado ao seu lado. Eles levam uma vida idílica. São Bruce Wayne e Dick Grayson. Bruce é descrito como milionário bon vivant e Dick como seu pupilo. Eles moram numa mansão suntuosa com lindas flores em vasos enormes. Têm um mordomo, Alfred. Batman aparece algumas vezes de roupão. Parece um paraíso, um sonho de consumo de dois homossexuais que vivem juntos. Às vezes aparecem num sofá. Bruce reclinado e Dick ao seu lado sem paletó e de camisa aberta.

As suposições homossexuais de Wertham são sugeridas por sua interpretação de certos signos visuais. Então, para se mostrarem machos, Bruce e Dick deveriam ter feito o seguinte: não mostrar preocupação quando estivessem feridos; morar numa cabana; ter flores horrorosas em pequenos vasos; não terem um mordomo; nunca dividirem um sofá; usar paletó; manterem suas camisas abotoadas e jamais usarem roupão. Mas os desvios sexuais não eram exclusividade do Morcego na visão do autor. Nem a Mulher-Maravilha escapou dos devaneios de Wertham:

A conotação homossexual das histórias da Mulher-Maravilha é psicologicamente irrefutável. Para os meninos, a imagem da Mulher-Maravilha é assustadora. Para as meninas, é um ideal mórbido. Se Batman é antifeminino, a atraente Mulher-Maravilha e suas contrapartes são definitivamente antimasculinas. A Mulher-Maravilha tem suas próprias seguidoras femininas. Suas seguidoras são as meninas que gostam de festejar, as lésbicas.

A visão do escritor, além de preconceituosa, é totalmente machista. Note: mulheres fortes, resolutas e admiráveis só servem para transformar meninas em lésbicas e um heroína dessas só pode ser apontada como ideal mórbido. Mas, infelizmente, os tempos - e as mentes - eram outras e as loucuras de Wertham deram resultado.

Procurando pêlo em ovo

Nos anos 50 aconteceu um pânico moral por causa dos perigos das revistas em quadrinhos. Depois da introdução do Código de Ética, carreiras acabaram e companhias faliram. Da mesma forma que o Código Hayes censurou Hollywood na década de 30, os quadrinhos no mundo todo tornaram-se reacionários. Na Inglaterra, por exemplo, chegou até a ser proibida a importação de revistas em quadrinhos americanas.

No meio disso tudo, Batman perdeu sua couraça de vigilante e tornou-se um defensor dos valores ianques. Os editores introduziram Batwoman e Batgirl para que não existisse nenhuma dúvida a respeito da opção sexual da Dupla Dinâmica. Em 1963, a história The Great Clayface-Joker Feud exemplifica as normas sexuais vigentes para todos os morcegos reunidos. Batgirl diz para Robin: Mal posso esperar para colocar meu uniforme! Não seria o máximo a gente sair em missão juntinhos de novo? (suspiro). Robin responde: Seria ótimo! (suspiro). Batgirl era sobrinha da Batwoman, pois, se fosse filha, isso significaria que ela teve uma relação sexual com alguém.

O episódio ainda conclui com mais uma mensagem heterossexual: Oh, Robin, diz Batgirl, Fiquei tão assustada depois desse confronto com o Coringa que preciso de um abraço... você é tão forte!. Batwoman aproveita a deixa e diz: Batman, você ainda está preocupado com o Coringa. Por que não segue o exemplo de Robin e me deixa aliviá-lo?. Batman: É uma ótima idéia!. Apesar de publicada em 1963, a história é exemplo perfeito das mudanças da década de 50.

E o que Bob Kane achava disso tudo? Tive a oportunidade de conversar com o lendário criador em diversos eventos sobre o Cavaleiro das Trevas nos Estados Unidos. Kane acreditava que as convenções estadunidenses são as mais hipócritas do mundo. Primeiro, ele teve que criar o Robin para humanizar a figura do Batman por exigência da moral e bons costumes. Os críticos não achavam que o estilo sombrio e os métodos violentos do personagem fossem boas influências para os leitores. Assim, o Menino Prodígio foi desenvolvido como um contraste para o lado negro do Morcego. Depois dessas mudanças, os mesmos críticos continuaram sua caça às bruxas, afirmando que a dupla agora era homossexual. Decepcionado, Kane também era categório em afirmar que Batman e Robin são heterossexuais e que, infelizmente, os fãs serão obrigados a conviver eternamente com essa chacota, graças ao dr. Wertham.

Aliás, curiosamente, foi revelado recentemente que o próprio psiquiatra teve relações homossexuais na adolescência. Assim, é impossível deixar de imaginar se toda essa perseguição e censura não passaram de mero despeito e falta de coragem de sair do armário..