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Enquanto Isso | Webtoons, os quadrinhos mais lidos do mundo

Brasileiros na Webtoon, aniversários da semana, duas páginas e uma capa

Érico Assis
30.04.2021
18h34

Deya Muniz queria a ideia mais fora da casinha que conseguisse imaginar e que desse certo como quadrinho. Juntou uma sopa de palavras: "Gay Furry Vampire Figure Skating Battles". É um desafio pra tradução: batalhas de patinação artística entre vampiros gays antropomórficos?

É esse mesmo o conceito de Blades of Furry, que Muniz e a esposa Emily Erdos criaram para a Webtoon, plataforma de webcomics que podemos chamar, nesse momento, de maior editora de quadrinhos do mundo – pelo menos em número de leitores. É lá que ideias como Blades of Furry estão encontrando o público que o quadrinho tradicional não encontra. Ou simplesmente encontrando público enquanto o quadrinho de papel definha.

Eu, velho leitor de gibi impresso, estou chegando tarde aos webtoons. Ainda chamo de “webcomics”, para começar. Webtoon é o nome aparentemente inventado na Coreia do Sul para se referir a quadrinhos feitos pras telas, que se lê puxando a barra de rolagem.

A plataforma coreana Daum Webtoon surgiu em 2003 e hoje é um dos principais bens da corporação Kakao Entertainment, uma das várias do país asiático que estão conquistando paradas, óscares e público pelo mundo. Séries que estreiam em webtoon viram filmes, TV e outros derivados, e têm milhões de leitores na Ásia.

E cada vez mais fora da Ásia. A Kakao está confiante que vai atingir US$ 18 bilhões em valor de mercado quando abrir na bolsa de valores dos EUA no ano que vem. Pela força dos webtoons, sobretudo.

A Daum/Kakao também pretende engolir a Tapas, outra plataforma de webtoons de origem coreana-americana com milhões de usuários. A Tapas começou publicando em inglês justamente para fincar o pé do webtoon no ocidente.

Juntas, Daum e Tapas vão encarar a concorrência da plataforma que roubou o termo webtoon para si, a própria Webtoon, ou Naver Webtoon (Naver é o nome da empresa matriz). Também coreana, a Webtoon estreou por lá em 2004 e começou a publicar material em inglês depois de dez anos. Hoje publica em vários idiomas e, graças ao nome, se confunde com o próprio mercado webtoon.

Tanto na Tapas quanto na Webtoon, você pode criar sua conta e lançar seu quadrinho agora mesmo. O espaço é livre.

Mas por que publicar lá? Além de o quadrinho ser o que você quiser (fora restrições quanto a sexo e pornografia), a plataforma divide a grana que ganha na publicidade com você. Mais ou menos o modelo do YouTube.

Quem começa na Webtoon entra no “Canvas”, o espaço de todos os autores. A plataforma seleciona algumas séries, as que chama de “Originals”, para financiar do próprio bolso e dar apoio na edição, marketing e licenciamento.

A Tapas também possibilita assinatura paga de séries, sendo que o valor é dividido entre plataforma e autores. Tapas e Webtoon têm contatos em produtoras e licenciadoras, trabalhando para adaptar suas séries preferenciais para audiovisual, bonequinhos e outros produtos. E têm muito interesse que isso aconteça, para promover as plataformas. Nestes casos, também compartilham os lucros com os autores.

Não encontrei números da Webtoon, mas a Tapas dividiu US$ 14 milhões com seus autores só em 2020. A reportagem de Bruno Porto na Diggit, de setembro passado, fala que o mercado de webtoons devia atingir 894 milhões de dólares até fim do ano passado. No início de 2021, o analista de mercado Rob Salkowitz disse que uma das tendência para este ano é que os webtoons virem fonte de renda séria para os quadrinistas.

O que me traz de volta a Blades of Furry, o webtoon de competições de patinação artística entre gays vampiros furry.

“Comecei a fazer tiras pra procrastinar quando tinha trabalho na faculdade e uma amiga sugeriu que eu postasse no Tapas”, conta Deya Muniz, a carioca que mora nos EUA há quatro anos. “A tira fez sucesso e comecei a falar por lá com outros autores. Um pessoal me apresentou a Webtoon, alguns tinham o que hoje se chama de ‘Originals’ e ouvi dizer que pagavam bem se você fosse selecionada como Original.”

Muniz chegou a ter uma série na Webtoon promovida de Canvas a Original, a Brutally Honest, que saiu entre 2016 e 2017. Também teve uma série na Tapas, Benedict the Grey, mais curta. Parou tudo para fazer o mestrado no Savannah College of Art and Design, com planos de trabalhar com storyboards. Acabou escrevendo um projeto sobre suspensão de descrença em animação.

“Eu queria mostrar que qualquer história, por mais maluca que seja, tem como dar certo, desde que você faça ela dar certo”, Muniz me explicou por e-mail.

Foi quando conheceu a colega Emily Erdos. “A tese de Emily era sobre as vantagens dos personagens furry/antropomórficos quando se trata de expressividade e simpatia. É ela que desenha furries há anos e que me influenciou a desenhar também!”

As duas leram muito Naruto na infância, além de Fruits Basket e One Piece. A quem comenta que Blades é uma cruza entre o mangá (furry) Beastars, de Paru Itagaki, e o anime de patinação Yuri on Ice, Muniz diz que ama ambos e que o último fez ela afundar numa toca de coelho pesquisando patins e gelo.

Depois do mestrado, Muniz e Erdos discutiram o conceito de Blades of Furry juntas e apresentaram à Webtoon. A publicação começou em dezembro do ano passado. Em menos de seis meses, a série tem mais de 340 mil assinantes, que recebem aviso de novo capítulo todo domingo.

Muniz é a roteirista principal, faz os layouts, letras e esboços. Erdos cuida de arte-final e cores. As duas acabaram de começar a fazer um curso de patinação no gelo para entrar ainda mais no espírito da HQ.

Planejar um quadrinho para webtoon exige conhecer a plataforma de publicação, tanto em termos de conteúdo quanto de leitura. Projetar um quadrinho para a tela é diferente de projetar um quadrinho para o impresso, e Muniz me explicou que não tem como fazer as duas coisas ao mesmo tempo.

“Para aproveitar totalmente a barra de rolagem, não tem como se planejar junto para gibi impresso”, ela diz. “Principalmente se tiver qualquer coisa de ação. Exigiria muito mais tempo e planejamento para funcionar pros dois e eu não tenho esse tempo.”

Quanto ao conteúdo, como recém-chegado na plataforma eu achei, à primeira vista, que quadrinhos românticos com temas LGBTQ+ eram preferência do público. Não é bem assim.

“A gente recebe muito comentário e reação homofóbica e transfóbica pela série ter personagens abertamente LGBTQ+", Muniz explica. "Acho que não tem um autor de webtoons LGBTQ+ com que eu tenha conversado que não tenha recebido esse tipo de comentário. Alguns receberam até ameaça de morte.”

Mas é certo que a plataforma achou um nicho. “A comunidade LGBTQ+ está sedenta por bom conteúdo gay, então a gente se agarra aos títulos que encontra.”

Ela também está preparando uma graphic novel (impressa) com temática LGBTQ+ e diz que não teve problemas no processo de aprovação. “Chama-se Princess and The Grilled Cheese Sandwich [a princesa e o queijo quente] e é uma historinha romântica brega”, ela conta. Vai sair pela Little, Brown and Company, editora tradicional e grandona nos EUA.

Erdos também fechou contrato para uma graphic novel autobiográfica: Dearest Daughter [a filha mais querida]. Está prevista para o ano que vem pela também grandona First Second. Tem páginas aqui.

Perguntei como se mede se um quadrinho ou autor faz sucesso na Webtoon. “Da minha parte”, diz Muniz, “se eu tiro uma grana legal, se a série cresce e se a gente mantém os leitores, é sucesso!”

Perguntei se ela tem as três coisas que citou.

“Acho que... sim? Ainda não estou onde eu quero. Espero que Blades of Furry cresça muito. Quero que chegue a um milhão de leitores. Isso que vai me deixar muito feliz!”

Muniz está longe de ser a única brasileira fazendo webtoons. Há exatos quinze dias, a equipe do canal de YouTube 7 Minutoz lançou Game Over Squad, um quadrinho de fantasia, heróis, monstros, magia e, claro, games. Está na Webtoon.

O canal de rap e games tem mais de 10 milhões de assinantes e é comandado por Lucas A.R.T., de Praia Grande, São Paulo. É conhecido pelos raps em torno de Naruto, como o “Rap da Akatsuki” (116 milhões de views). A equipe do 7 Minutoz tinha planos de produzir um quadrinho há pelo menos dois anos.

“A ideia originalmente era lançar o Game Over Squad numa plataforma própria”, Lucas A.R.T. me explicou em entrevista. “Mas aos 45 do segundo tempo eu tomei a decisão de lançar gratuitamente porque eu queria que mais pessoas tivessem acesso. Decidi lançar pela Webtoon porque parecia a opção mais fácil, mais próxima e também o aplicativo em que eu vi os melhores números, que se encaixava com o projeto.”

A produção do quadrinho é feita a catorze mãos. A.R.T. é o autor, Kelson Martins auxilia nos roteiros, Yuzo Deen desenha personagens, Jujupit3r desenha cenários, Bonnie RLP faz as cores, e as letras ficam com Joaka, Adriel Designer e Jujupit3r. Cada um é de um canto do Brasil.

Game Over Squad está no Canvas e não é um Original da Webtoon. “Os autores de ‘Originals’ ficam muito a serviço da plataforma”, justifica A.R.T. “Os contratos exigem entregar em certos prazos e tem vários pormenores que eu não queria que limitassem nossa produção. Já tínhamos um fluxo de produção bem definido e não queria nos enquadrar no padrão de outra empresa.”

Ainda não há planos de renda direta com o quadrinho. Mas a equipe tem interesse em produzir itens de colecionador e versões físicas da HQ "no futuro breve", diz o autor.

Isto, assim como a continuidade do projeto na Webtoon vai depender da aceitação do público. Os três episódios que estão no ar já passaram dos 800 mil views e dos 40 mil assinantes. Não há quadrinho brasileiro com o mesmo público em tão pouco tempo.

“Os webtoons não são apenas uma versão digitalizada dos quadrinhos clássicos”, explica Alexandra Presser, quadrinista e pesquisadora da área. “Isso já vem sendo feito há tempos, e não parece ter lá muita popularidade. Eles são, como digo na minha tese, um gênero novo, assim como são as tirinhas, como são os mangás, as graphic novels.”

A tese de Presser rendeu um guia para pensar os quadrinhos no celular, direcionado a quem já está acostumado a produzir para o impresso ou quem está começando totalmente no ramo – dá para ler o guia e a tese aqui. Ela ainda vai transformar a pesquisa em livro.

Assim como eu ainda chamo essas coisas de webcomics, na tese ela chamou de mobile comics. “Mas estou me acostumando com a ideia de chamar a mídia de webtoons”, ela ressalta.

Foi Presser que me apresentou Blades of Furry e que também disse para eu conferir o top da Webtoon: Lore Olympus, de Rachel Smythe – com três anos de plataforma, uma indicação ao Eisner, ilustração de causar inveja em franco-belga e 5 milhões de assinantes que acessam um episódio por domingo.

“Acho que o público mesmo dos webtoons é novo”, diz Presser. “E quando digo novo não falo apenas de idade, mas de leitores que nem liam quadrinhos impressos antes. Quiçá qualquer mídia impressa.”

E eles vão tomar o lugar dos quadrinhos de papel?

“Na minha opinião, os webtoons são tão diferentes dos quadrinhos impressos que vejo eles coexistindo. Se algum dia os quadrinhos impressos deixarem de existir, não vai ser por razão dos webtoons, e sim, provavelmente, por pura obsolescência da mídia impressa.”

VIRANDO PÁGINAS

Amazing Spider-Man n. 96, a famosa “drug issue”, é de maio de 1971, cinquenta anos atrás. A pedido da secretaria de saúde federal dos EUA, Stan Lee e Gil Kane criaram uma história para contar os malefícios do vício em drogas. Harry Osborn, amigo de Peter Parker, virou viciado. Por desrespeitar as regras do Código de Ética dos Quadrinhos, esta edição e as duas seguintes saíram sem selinho de aprovação. O Código foi revisto em seguida. A última publicação dessa história no Brasil foi em Homem-Aranha: Grandes Desafios n. 4, da Panini (com tradução de Mario Luiz C. Barroso e Roberto Guedes)

O Incal Negro, primeiro volume d’O Incal de Alejandro Jodorowsky e Moebius, saiu na França em maio de 1981 – há quarenta anos – como álbum, depois de serializado na Métal Hurlant. O material saiu em nova edição no Brasil este ano, pela Pipoca & Nanquim (com tradução de Pedro Bouça).

Ao Coração da Tempestade, graphic novel semi-autobiográfica de Will Eisner, saiu exatamente em 1º de maio de 1991 nos EUA e faz trinta anos amanhã. Já foi lançada mais de uma vez no Brasil, a última delas pela Quadrinhos na Cia. (com tradução de Augusto Calil).

X-Force n. 116, a reformulação total da equipe mutante por Peter Milligan e Mike Allred, começou a marcar época em maio de 2001, há vinte anos. O material saiu nas revistas de linhas dos X-Men no Brasil pouco depois e nunca foi reeditado.

UMA PÁGINA

Do diretor de animação Stephen Ong, que mostra outras animações fantásticas no Twitter. Fiquei pensando se era mesmo uma página de quadrinho, perguntei pro Scott McCloud e ele disse que é. Então é.

OUTRA PÁGINA

De Juscelino Neco, esperando o novo filho.

UMA CAPA

De Tom Gauld, exclusiva para a edição brasileira dos Diários de Franz Kafka. Gauld mostrou o processo de criação no Tumblr. O livro sai este mês pela Todavia, com tradução de Sergio Tellaroli.

 

(o)

Sobre o autor

Érico Assis é jornalista da área de quadrinhos desde que o Omelete era mato e autor do livro Balões de Pensamento.

Sobre a coluna

Toda sexta-feira, virando a página da semana nos quadrinhos. O que aconteceu de mais importante nos universos das HQs nos últimos dias, as novidades que você não notou entre um quadrinho e outro. Também: sugestões de leitura, conversas com autores e autoras, as capas e páginas mais impactantes dos últimos dias e o que rolar de interessante no quadrinho nacional e internacional.

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