Súbete a Mi Moto

Créditos da imagem: Amazon Prime Video/Divulgação

Amazon Prime Video

Artigo

Súbete a Mi Moto | Série da origem dos Menudos não foge de aspectos sombrios

Produção do Prime Video explora o nascimento das Boy Bands no cenário musical

Henrique Haddefinir
10.10.2020
14h45

Quando a história da minissérie Súbete a Mi Moto começa, há uma emblemática cena em que o ambicioso produtor Edgardo Diaz (Yamil Urena) recebe um bolo de cartas dos fãs direcionada à banda que ele produz com todo empenho, mas que não emplaca como ele gostaria. Ele já sabe que a maioria brutal das cartas recebidas pela banda são para os dois integrantes masculinos, mas, naquele momento, ele sofre uma epifania e se pergunta como seria, então, se a próxima banda produzida por ele tivesse apenas homens. Melhor ainda: como seria se a banda fosse formada apenas por meninos?

É completamente justo dizer que Os Beatles foram os primeiros a causar uma verdadeira histeria no imaginário feminino, mas seria injusto dizer que eles foram a primeira Boy Band a inaugurar o gênero dentro do universo pop. Os Beatles tinham, antes de tudo, um compromisso com a música. As Boy Bands, pelo menos em primeira instância, começam preocupadas com a imagem. Os garotos cantam o que os produtores compõem, vestem o que os produtores mandam, não tocam nenhum instrumento e precisam, impreterivelmente, ter características físicas atraentes. Nesse sentido, seguindo essas regras, o título de primeira Boy Band é dos Menudos.

Qualquer um que esteja lendo esse texto e tenha menos de 20 anos, provavelmente não vai saber quem são esses rapazes. Mas, pode acabar descobrindo que o atual fenômeno do gênero – o BTS – existe porque os Menudos abriram o caminho. Nos anos 80, eles dominaram. Nos EUA, o N'Sync (de onde saiu Justin Timberlake) e o Backstreet Boys são exemplos de como os anos 90 também foram tomados pela febre. Mas, as variações são muitas... Até mesmo na Europa, as Boy Bands irlandesas e britânicas fizeram sua trajetória. Take That, Boyzone e Westlife - que existe até hoje - são alguns dos títulos. O Brasil não ficou para trás. Também nos anos 80, o Polegar e o Dominó foram, em uma escala bem menor, os reprodutores do estilo.

Contudo, foi com o Menudo que tudo começou. O Amazon Prime, então, lança esse mês a minissérie Súbito a Mi Moto, que reconta toda a trajetória da banda, desde sua primeira formação (no final da década de 70) até seu derradeiro fim, no final dos anos 90, depois de uma infinidade de trocas de membros. Os mais jovens, enfim, podem não saber quem foram todos os Menudos, mas, vão saber quem é seu membro mais ilustre. Ricky Martin entrou em 1984 e ficou na banda até 1989. A formação da qual ele fez parte pode ser considerada aquela que fez o nome do grupo alcançar o auge. Foi essa formação que reuniu um elenco de garotos que tinham nomes que começavam todos com R: Ray, Roy, Robbi, Ricky e a única exceção, Charlie.

Não se reprima, oprima.

A minissérie volta até o final da década de 70 para mostrar como Edgardo Diaz teve a ideia da banda, como encontrou os primeiros meninos e como foi estabelecendo as regras que seriam replicadas pelo resto do mundo a partir dali. E como acontece com a maioria das grandes ideias, ela surgiu por acaso. Os primeiros meninos, inclusive, eram filhos de pessoas próximas a Edgardo, que convencia as famílias a assinar um contrato rigoroso que tinha como cláusula principal a troca imediata dos membros quando eles ficavam mais velhos, de acordo com a vontade de Edgardo e sem chance de contestação. Cada um dos membros dificilmente conseguia ficar na banda por mais de quatro anos. É essa angústia da certeza do fim que permeia os cinco primeiros episódios.

A narrativa é dividida entre passado e presente. Edgardo, mais velho, conta sua história para uma estudante; e também acompanhamos a perspectiva de uma fã, que no passado, com uma amiga, foi até as últimas consequências em nome do amor pela banda. No presente, ela já não vê com bons olhos o que essas experiências lhe provocaram. Esse é um ponto importante sobre a minissérie. Há toda a música, toda a dança, mas numa espécie de nevoeiro narrativo está escondida a obscuridade que ronda esse tipo de sistema de exploração de talento. Não é possível dizer se as denúncias de abuso feitas por Roy, contra Edgardo, enquanto ele esteve em A Fazenda 7, serão abordadas pelo roteiro. Mas, é possível dizer já nos primeiros episódios que nem tudo eram flores no reino da Menudomania.

Yamil Urena faz um ótimo trabalho na composição de Edgardo, que como todo visionário, é obcecado pelos próprios planos. O que começa como uma promessa de priorizar os meninos, se torna uma priorização absoluta dos negócios. O que eles cantam, o que eles dançam, o que eles vestem... Absolutamente tudo é decidido por ele, que começa a consumir seus pupilos com horas incansáveis de trabalho e nenhuma verdadeira atenção ao crescimento pessoal de cada um. Para Edgardo ele oferece mais que educação acadêmica, ele oferece uma experiência única de vida, que em sua perspectiva justifica tudo. Então, ele vai escolhendo e descartando meninos, um após o outro, criando uma corrente de instabilidade emocional que deve explodir logo adiante.

Apesar da superficialidade dos momentos em que os eventos do presente são abordados, a trajetória da banda em si é envolvente e a direção competentemente ritmiza a narrativa com cortes dinâmicos, legendas que nos informam quem entra e quem sai da banda; e um show de nostalgia quando as canções clássicas são executadas. O espectador sabe que em determinado momento as coisas só vão começar a piorar, mas é conduzido pela trama como se ela o iludisse com doses estratégicas de diversão.

Mesmo que com esse título horrível (Súbite a Mi Moto é o nome de uma canção do grupo), a minissérie serve como um interessante estudo de observação das engrenagens sedutoras e crueis do showbiz. Praticamente todas as Boy Bands que estão ou estiveram no mercado, têm reclamações a fazer sobre seus produtores e empresários, sobre a falta de liberdade para criar e sobre as pressões para manter a imagem intacta, tanto física quanto pessoal. Ricky Martin demorou décadas para assumir sua homossexualidade, depois de passar anos negando-a veementemente na TV. Lance Bass, do Nsync, também só se assumiu gay quando saiu da banda e seu colega JC Chasez, ficou sob esse mesmo radar por anos.

A minissérie Súbite a Mi Moto pode eviscerar o que nem todo fã do Menudo gostaria de saber. Porém, no final de tudo isso a música acaba ficando. O que todas essas Boy Bands têm em comum é o quanto marcaram a adolescência de gerações inteiras. Elas ajudaram a construir memórias emocionais, valiosas para cada um dos fãs e que merecem nosso respeito. O que começa como uma histeria quase irracional, pode sim acabar se tornando um resquício de puro afeto.  

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