Cena de American Gods

Créditos da imagem: Starz/Divulgação

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Artigo

3ª temporada de American Gods esquece a Guerra para tentar arrumar a casa

Quatro primeiros episódios da nova temporada revelam os efeitos que a grande crise nos bastidores provocou na série

Henrique Haddefinir
08.01.2021
23h17
Atualizada em
05.03.2021
15h56
Atualizada em 05.03.2021 às 15h56

Quando o terceiro ano de American Gods chegar até os fãs nos próximos dias, uma grande vitória poderá ser comemorada pelos envolvidos na produção. Desde que a segunda temporada foi anunciada, a série esteve imersa numa quantidade impressionante de problemas, que afetaram terrivelmente seu desenvolvimento. O primeiro desses problemas – a saída dos showrunners Bryan Fuller e Michael Green – foi o que ressoa nos episódios até hoje. É quase seguro dizer que ali foi dado o pontapé para todas as atribulações que vieram depois. E isso tem uma razão: Fuller era a frente conceitual da série, essencialmente.

Kristen Chenoweth e Gillian Anderson foram as primeiras baixas no elenco. Eram duas perdas consideráveis. Kristen tinha criado uma “deusa da páscoa” cheia de carisma. Gillian enlouquecia os fãs a cada vez que Mídia surgia caracterizada de algum ícone da cultura pop. Era hora de olhar para o futuro, mas, Jesse Alexander assumiu o controle e foi demitido logo em seguida. A segunda temporada, então, ficou a cargo de Chris Byrne e Lisa Kusnner. Depois de oito episódios estagnados, a dança das cadeiras recomeçou e Chic Eglee chegou para liderar o terceiro ano junto com o próprio Neil Gaiman.

Os problemas, contudo, não pararam por aí. O contrato de Orlando Jones (Mr. Nancy) não foi renovado (segundo a rede por questões criativas). Orlando não gostou nada e foi para as redes sociais acusar os produtores de terem motivações racistas para a decisão; e ainda chamou a atenção do astro Ricky Whittle por não ter lhe dado apoio no conflito. A essa altura, New Media (Kahyun Kim), Djinn (Mousa Kraish) e Mad Sweeney (Pablo Schreiber) já tinham deixado a série. As falas de Orlando pareciam reforçar que alguma coisa nos bastidores estava bastante errada. Gaiman e o próprio Whisttle declararam que as mudanças necessárias aconteceram para o bem da produção. Tudo que American Gods mais precisava era de estabilidade e calmaria.

Por conta disso tudo, a expectativa para os novos episódios era grande. O Omelete teve acesso aos quatro primeiros e ficou bastante claro nessas quatro horas que o desenvolvimento da trama foi atrás de assentamento. Para isso, as crescentes narrativas relativas à guerra iminente entre velhos e novos deuses precisou ser colocada em segundo plano, o que, inevitavelmente, atingiu Wednesday (Ian McShane). Um reforço nas histórias que mais funcionavam foi feito e novos nomes para o elenco foram providenciados para tentar amenizar as ausências. É evidente que essa não é mais a American Gods que conhecemos, mas tudo que ela quer no momento é sobreviver.

American Monsters

Não é como se a série tivesse sido muito sutil desde que foi concebida. American Gods trabalha com polos muito bem definidos e em certos momentos, soa até mesmo maniqueísta e antiquada. Entra ano, sai ano e os Novos Deuses (a tecnologia, a mídia, a internet) continuam sendo tratados como os absolutos vilões da história. Com exceção da Mídia criada por Gillian, todos os outros personagens desse setor são unidimensionais. Essa obviedade narrativa se reflete logo nos primeiros minutos da nova temporada: Wednesday, o Deus Antigo, é ovacionado num show de rock liderado por Marilyn Manson; enquanto Mr. World (agora vivido por Dominique Jackson, de Pose) esmaga cabeças de jovens empregados numa sala de reunião.

Tudo bem, estamos falando de uma trama sobre Deuses que são regidos, em primeira instância, por códigos que envolvem fé e moral; um pouco de obviedade não precisa ser um problema. Contudo, conforme os episódios vão transcorrendo, vai ficando muito claro que do lado dos Deuses a história não anda, justamente porque eles não tem mais para onde evoluir, estão cristalizados. O movimento natural de Gaiman e Eglee é pegar todo o enredo da guerra e desacelerá-lo ainda mais, dando mais espaço para o que tem escopo para crescer, que são, vejam só, as histórias que envolvem os mortais. Laura (Emily Browning), então, continua à frente, com a storyline mais enxuta; e surpreendentemente acompanhada de ninguém menos que Shadow Moon.

Não foi apenas o visual do personagem que passou por uma considerável mudança, mas também sua atitude, que surgiu mais leve e agradável. Seja por indicação da direção ou da criação da série, Shadow Moon era um personagem monocórdio, dono de apenas uma expressão e um tom de voz. Mike (o nome que o personagem adota nos novos episódios) chega em Lakeside (um esperado destino pelos fãs do livro) para viver uma trama prevista e que caiu como uma luva para as exigências orçamentárias da rede. Tudo está mais assentado, organizado, com um passo de cada vez sendo dado numa direção bem definida. O hermetismo ficou para trás, seja isso bom ou ruim para quem chegou até aqui.

Com o aval de Gaiman, o andamento de Laura na série se manteve o mais carismático. A história dela com Sweneey era sempre a salvadora da pátria para os espectadores que se debatiam para conseguir desvendar o enredo em meio aos arroubos imagéticos de Fuller. Na nova temporada, os roteiros sofrem para abrir mão disso, chegando a sublinhar a até então velada “história de amor” entre os personagens. Tudo que envolve as extremas decisões de Laura sobre a morte de Sweneey é conduzido de maneira muito interessante, com destaque para a deliciosa viagem que ela faz até o purgatório.

É claro que nem tudo são flores. Wednesday passa os quatro episódios iniciais em um plot sem absolutamente nenhuma importância e Bilquis (Yetide Badaki), por mais promissora que seja, está sempre no limiar da neutralidade, o que não deixa de ser curioso se considerarmos que esse é o objetivo da personagem na questão do conflito entre deuses. Mesmo assim, ela tem um bom momento no episódio quatro, quando os orixás são abordados no belíssimo teaser de abertura e sua trama se entrelaça com a deles. Quando escolhe a beleza da simplicidade ao invés da confusão visual proposital e pretensiosa, a série ganha muito.

Enfim, o retorno de American Gods foi muito mais positivo do que a turbulência nos bastidores parecia refutar. É importante reforçar que a série mudou muito, drasticamente, mas ao mesmo tempo que isso vai afastar fãs, também vai reaproximar outros. Diante de tudo que já aconteceu, a torcida é para que a série seja capaz ao menos de chegar a seu fim. Seria bom que as questões em torno da fé – que determina a criação ou extinção dos deuses – sejam novamente abordadas dentro desse viés mais objetivo. Closes artísticos em gotas d'água caindo são legais, mas não podem servir para mascarar a fragilidade de uma narrativa. American Gods fez a autocrítica necessária para que voltemos a acreditar nela. Já estava na hora de rezar para os deuses certos.

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