Daniel Craig em 007 - Sem Tempo Para Morrer

Créditos da imagem: (MGM/Divulgação)

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007 | O Bond serializado de Daniel Craig foi legal, mas que volte o episódico

Com despedida do ator em 007 - Sem Tempo Para Morrer, franquia pode mudar rumos outra vez

Eduardo Pereira
05.10.2021
17h27

Não foi exatamente intencional o processo que levou a era de Daniel Craig à frente da franquia 007 a adotar um formato serializado de narrativa. Tudo bem que a ideia por trás do leve reboot proposto por Cassino Royale (2006) sempre foi reaproximar o personagem de sua contraparte literária, conduzida de forma mais linear pelo autor Ian Fleming. Só que foi a greve de roteiristas de 2007, que prejudicou o desenvolvimento de Quantum of Solace (2008), o que levou Craig e o diretor Marc Foster a escreverem o filme como sequência direta do anterior; assim, germinando de vez a semente da continuidade na franquia.

Com 007 - Sem Tempo Para Morrer marcando a despedida de Craig do papel, muitas são as questões deixadas para o futuro de James Bond nas telonas; incluindo se vale ou não seguir investindo em uma narrativa contínua ou se o retorno de um formato episódico não seria interessante à franquia. Em favor da primeira opção há o inegável sucesso financeiro dos filmes mais recentes do espião, além de um público já amaciado para o formato graças ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU). Em prol da segunda, toda a flagrante irregularidade narrativa e qualitativa que marcou a pentalogia de Craig, exemplificada de forma perfeita pelos dois únicos filmes a compartilharem um mesmo diretor: 007 - Operação Skyfall (2012) e 007 - Contra Spectre (2015).

Cena de 007 - Contra Spectre
MGM/Divulgação

A primeira aventura de Bond dirigida por Sam Mendes, com mais de US$1 bilhão arrecadados ao redor do mundo, encontrou seu estrondoso sucesso deixando de lado a misteriosa organização criminosa Quantum e outros elementos centrais aos dois filmes anteriores e focando em temáticas ao mesmo tempo urgentes e intimistas. Trata-se de uma trama muito bem conduzida sobre pecados passados, mães e filhos (ou relações análogas a essa) e raízes. De certa forma, é o filme mais independente de todos aqueles que trazem Craig como o espião, se beneficiando da serialização de toda essa fase apenas de forma tangencial, como complemento emocional – nada muito inédito até se considerarmos outras versões de Bond.

Já o segundo longa sob comando do diretor de Beleza Americana não só voltou a abraçar a narrativa contínua proposta pelo início da Era Craig como foi além, lançando mão também de um resgate a elementos próprios da saga nos anos 1960 e 1970. Foi uma intencional forma de celebração pelo retorno dos direitos de uso da Spectre pela MGM, mas que acabou frustrada e frustrante. Resgatando a conspiração da Quantum só para descartá-la como laranja da tradicional organização criminosa de Ernst Stravo Blofeld, o filme se propõe a servir tantas linhas narrativas diferentes, cobrir tantas pontas soltas e ao mesmo tempo desenvolver tantos novos personagens que falha em fazer com que o público se importe. Nem mesmo o fan service salva o longa, já que soa gratuito, esvaziado de propósito pelo que parece pura e simples vontade de conectar todos os filmes até ali, sem um porquê referente a desenvolvimentos de personagem ou universo.

Há também uma dura verdade que precisa ser dita sobre os filmes de Craig, no que toca toda essa pretensa continuidade narrativa de filme para filme – se submetida a um maior rigor, ela não se sustenta. Se Cassino Royale narra a primeira missão do recém-batizado 007, e Quantum of Solace continua o primeiro filme a partir de sua última cena, por que os outros três filmes do intérprete saltam para uma exploração temática da velhice física e obsolescência simbólica do personagem? Na conta dos quatro anos que separaram segunda e terceira aparição do astro no papel, fica no ar toda uma transição essencial para o desenvolvimento satisfatório de causa e efeito que se espera em uma narrativa serializada.

Felizmente, com Craig empenhado em se despedir do papel em bom nível e às custas de muito trabalho por parte de Neal Purvis, Robert Wade, Cary Joji Fukunaga e Phoebe Waller-Bridge em fazer essa história funcionar, 007 - Sem Tempo Para Morrer consegue fazer o que Spectre não pôde: amarrar as pontas soltas mais flagrantes de forma minimamente satisfatória. E melhor, ainda com direito a pico emocional que ajuda o fã a ignorar os erros prévios. Ao mesmo tempo, entretanto, o filme volta a ressaltar o preço desse comprometimento com o passado, abrindo mão de desenvolver uma história que se sustenta por méritos próprios, como fizeram os menos onerados pela serialização Cassino Royale e Operação Skyfall; não à toa, os únicos concorrentes topo do ranking dos últimos cinco longas.

Entre o formato serializado e o episódico existe um meio-termo que não é nenhuma novidade para a franquia 007, atingido por Operação Skyfall, compartilhado pelas eras de Sean Connery, Roger Moore e conectando as fases de Timothy Dalton e Pierce Brosnan de forma quase abstrata, mas notável. É compreensível que os produtores Michael G. Wilson e Barbara Broccoli queiram algo mais bem definido para o futuro da saga, já que isso aumenta o apelo de uma marca que luta para se manter relevante com o passar das décadas. Mas há algo tão cativante em cada filme de James Bond contar a sua própria história que é difícil não torcer para que o futuro intérprete do espião o faça à moda mais antiga. Com tantas sagas investindo em longas narrativas e universos compartilhados (ou multiversos), seria reconfortante ver uma franquia tão tradicional indo na contramão. Até porque, como canta a velha música: "ninguém faz isso melhor".

O JAMES BOND DO PÓS-COVID 19

Seja por sua desconfiança mediante a autoridade governamental, ou pela sua trágica jornada pessoal o empurrando ao isolamento, o James Bond de Daniel Craig pode ser definido tanto como a versão do pós-11 de setembro quanto do Brexit (ainda que nunca tenha abordado diretamente nenhum desses episódios históricos em seus cinco filmes). É um movimento natural da franquia 007, incorporar elementos do mundo real em suas tramas, ainda que indiretamente. É lógico, portanto, imaginar que o futuro do personagem será moldado de alguma forma pela pandemia da covid-19.

Cena de 007 - Sem Tempo Para Morrer
MGM/Divulgação

Em um mundo ferido pela desinformação, ansiando pela esperança e por uma noção positiva de futuro, seria inspirador ver nos próximos capítulos da saga 007 histórias que colocassem em primeiro plano o aspecto global, evidenciando a colaboração entre pessoas pela vitória contra o mal. A discussão sobre como atualizar o personagem é sempre menos relevante do que sobre o mundo que será colocado em conflito com ele. Logo, ao retomar uma estrutura episódica, o futuro da franquia permitiria também confrontá-lo com realidades mais diversas: se libertando das amarras de um longo arco emocional em prol da abordagem de questões mais plurais. Mesmo que os produtores mantivessem um perfil conservador de Bond na escalação de seu próximo ator.

Depois de um mergulho profundo ímpar em quem é James Bond na "Era Craig", talvez a nova fase do personagem encontre mais propósito em explorar o oposto disso. Símbolo do imperialismo britânico, do status quo social e global e do establishment, o espião ainda assim funciona em prol de discussões progressista se usado como catalisador para tramas que desafiem essas convenções. Não é diferente do que entendeu e fez George Miller ao resgatar Max Rockatansky, outro violento e amargurado homem branco, e colocá-lo no centro de uma fábula feminista em Mad Max - Estrada da Fúria (2015). Bond, assim como ele, é outro protagonista que pode permanecer parado no tempo, contanto que esteja sempre rodeado de uma realidade que trata com urgência sobre temas do presente e futuro.

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