O grande sucesso de Ultraman
e Ultra
Seven no Japão desencadeou uma série de imitações em seu país,
quase nenhuma capaz de arranhar a popularidade dos originais. Uma dessas produções,
porém, feita no início da década de 1970, conseguiu não só rivalizar com os
Ultras clássicos como também obteve algum sucesso nos Estados Unidos,
França e Brasil, onde foi reprisado até meados da década de 1990 pelo SBT.
Produzido com parcos recursos
pelo estúdio P-Productions, a saga de Spectreman iniciou
no Japão uma verdadeira mania por monstros, revigorando o gênero. Um herói
humano, com fraquezas e constante rebeldia, inimigos carismáticos e histórias
criativas fizeram a fama de um dos mais famosos clones do Ultraman. Os defeitos
especiais da produção também eram marcantes: maquetes capengas com fios de
sustentação ainda mais visíveis do que de costume, raios desenhados em cenas
congeladas, monstros em stop motion desajeitado e explosões pífias,
fora os trajes de acabamento quase amador. Tudo muito tosco e divertido, num
enredo que misturava humor (voluntário e às vezes nem tanto), drama e algumas
vagas mensagens ecológicas.
No centro de tudo isso, a grande
atração era sem dúvida o maligno Dr. Gori. Egocêntrico, histérico,
megalomaníaco e cheio de tiques nervosos, o estiloso macaco loiro e seu fiel
assistente Karas foram criados graças ao sucesso mundial de O
planeta dos macacos.
Além de Gori, os monstros eram
outra grande marca do programa. Ao longo da série, apareceu um rato voador
gigante bípede e com duas cabeças, um monstro com cabeça de semáforo e ganchos
no lugar das mãos, uma barata gigante, uma baleia cachalote voadora e até
uma cópia maligna do herói, entre outras ameaças memoráveis.
DOMINANTES, ÀS ORDENS!
Com esse bordão, o pacato Kenji
(Jooji Gamou, no original) transformava-se no poderoso andróide de
batalha Spectreman e partia para enfrentar os monstros que ameaçavam o Japão.
Capaz de se tornar um gigante e voar, utilizava uma infinidade de golpes e
raios, sendo o principal deles o Spectro-Flash.
O enredo mostrava o herói vivendo
oculto na Terra a mando dos Dominantes de Nebula 71 para alertar a
humanidade sobre os riscos da destruição do meio ambiente. Disfarçado de humano,
ele se juntou ao Grupo Anti-poluição, uma equipe de pesquisadores e
ativistas ambientais.
A chegada de Spectreman coincidiu
com o primeiro ataque do Dr. Gori, um fugitivo espacial que almejava conquistar
a humanidade junto com seu assistente Karas, um homem-gorila tão forte quanto
cretino. Gori criou monstros que se alimentavam de lixo e fez sucessivos ataques
contra o Japão, um país que sofre com a poluição desenfreada de suas indústrias.
O discurso ambiental, no entanto, não passava de um detalhe, pois o que interessava
aqui era ver monstros levando uma boa surra do herói.
Ao longo dos episódios, o Grupo
Anti-poluição deixou as pesquisas de lado e começou a usar armas avançadas
para ajudar Spectreman, tornando-se o Grupo Anti-monstros. Ficou uma
imitação meio capenga de equipes estilo Esquadrão Ultra (de Ultra Seven) mas,
sem dúvida, a mudança deixou os episódios mais movimentados.
A série possui muitos capítulos
antológicos (quase todos em duas partes), com destaque no aspecto humano das
histórias, o que era bem característico nos heróis da P-Productions.
Em um dos mais interessantes, o boa-praça e mercenário espacial Meteoro
desafiou Spectreman para um duelo estilo caubói, a fim de saber quem era capaz
de disparar mais rápido seu raio mortal. Porém, a amizade de Meteoro
por um garoto fez o honrado lutador tomar uma decisão inesperada no confronto.
Em outra aventura, um patético lixeiro foi transformado por Gori num monstro
comedor de lixo que assustava sua própria família. Em pânico, a grotesca criatura
tentou se matar, numa cena tão constrangedora que ficou bacana de tão trash.
E, bizarrice suprema, em um aventura, Karas colocou óculos escuros, chapéu
e poncho de mexicano e entrou numa discoteca. A seqüência é um verdadeiro
delírio de pancadaria psicodélica.
Alguns momentos, porém, tinham ênfase no drama, como o arrepiante
(se você tiver menos de dez anos, claro) episódio duplo Operação genocídio,
com mortes em profusão e o heróico sacrifício de um garoto sensitivo no final.
Em outro arco duplo de histórias, Gori saiu de cena para o confronto de Spectreman
com o vampiro espacial Vordalak, em aventura digna do clássico Ultra
Seven.
O final da série mostrava o herói partindo de volta para
seu lar, depois de perder o poder de se reverter para a forma humana, vencer
Karas e presenciar o suicídio do Dr. Gori. Os camaradas de equipe, vendo-o
partir, revelaram que já sabiam da sua identidade secreta. E foi assim, de
modo bem melancólico, que o programa terminou, deixando de lado os alívios
cômicos e assumindo aquele senso de melodrama que tanto caracterizava os aventureiros
japoneses clássicos.
Competindo diretamente com a
super-produção (para os padrões da época) O
regresso de Ultraman e com o inovador homem-gafanhoto
Kamen Rider, a produtora apostava no clima das histórias para manter
a audiência. E conseguiu, pois Spectreman chegou a 63 episódios, uma
excelente e poucas vezes alcançada marca para um seriado do gênero.
ATERRISSANDO NO BRASIL
No Brasil, pouco mais de cinqüenta
episódios foram exibidos, sendo que a maior parte dos inéditos fazia parte
da segunda metade do programa. Exibido inicialmente à noite na TV Record
no início da década de 1980, a série logo migrou para o SBT, onde ganhou enorme
popularidade.
A dublagem, feita nos estúdios
da TVS (que era também o nome original do SBT), era recheada
de vozes marcantes, como Carlos Seidl (Dr. Gori) e Potiguara Lopes
(Karas), os populares Seu Madruga e Prof. Girafales do Chaves.
Porém, a edição de áudio era péssima, parecendo que as vozes saíam de dentro
de uma cabine.
No Brasil, a série ainda ganhou
uma versão em quadrinhos na Editora Bloch desenhada por Eduardo
Vetillo, que teve um grande destaque como desenhista dos Trapalhões.
Com o nome do herói mudado de Kenji para Kenzo, e com o traje
em tons de azul e com design diferente do original, o gibi parecia
até uma produção pirata.
Com todas suas virtudes e deliciosos
defeitos, Spectreman é uma série cult como poucas. E, preparando
o terreno para cada um de seus divertidos episódios, uma sóbria locução alertava
os telespectadores, mais ou menos assim:
Planeta: Terra. Cidade: Tóquio.
Como todas as metrópoles do planeta, Tóquio se acha hoje em desvantagem em
sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E apesar dos esforços
de todo o mundo, pode chegar o dia em que a terra, o ar e as águas venham
a se tornar letais para toda e qualquer forma de vida. Quem poderá intervir?
ssssssssssssssSpectreman man man man!!!
CURIOSIDADES