Lembra desse? O Incrível HULK
Lembra desse? O Incrível HULK

David Banner (Bill Bixby) e o Hulk (Lou Ferrigno) |

A transformação |

Hulk esmaga homenzinho |

O verdão nervoso |

O lado fashion do monstro |

Superforça |

Hulk, o passageiro da agonia |

Meio a meio |
Por Favor, senhor MacGee, não me irrite...
Se você assistia à TV Globo nos anos setenta, ou como
eu, desperdiçou sua infância assistindo às reprises da extinta Sessão
Aventura, deve saber como essa frase continua, bem como deve se lembrar
do clássico texto de abertura de uma certa série de TV: Doutor David
Banner... Médico, cientista. Em busca da força que todos possuem, acaba recebendo
uma dose maciça de raios gama e agora, quando se enfurece ou se sente ultrajado,
se transforma e tem de enfrentar a sua maldição: o Incrível Hulk! Narrativa
essa, feita no original pela gutural voz de Ted Cassidy, o Mordomo
Tropeço do seriado da Família Addams nos anos 60
Mas espere aí... David? Não era Bruce? Cientista
tudo bem, mas médico? Que força é essa? A dos Jedi? E a Bomba Gama?
Cadê? Bom, já na abertura da série ficamos a par de algumas sutis alterações
do original dos quadrinhos (O que já poderia deixar muito fã de cabelo em
pé). No entanto, por incrível que pareça, esse seriado foi uma das mais bem
sucedidas adaptações dos quadrinhos para a telinha; senão em fidelidade, pelo
menos em termos de público; ainda mais em se tratando de uma HQ da
Marvel Comics... famosa naqueles dias por fiascos como Homem-Aranha,
Capitão
América, entre outros.
O verdão rendeu três longas metragens e 79 episódios no decorrer
de cinco temporadas (1977-1982), bem como mais três novos longas posteriores
(1988-1990). Uma filmografia mais do que respeitável para um brutamontes que
apenas rugia (sim, ele não falava também), demolia móveis de isopor e dava
sopapos em criminosos comuns. Na verdade, dificilmente o Hulk televisivo
batia em alguém. Ele gostava mesmo era de arremessar pessoas à distância.
Sempre, é claro, tomando a devida precaução de esmagar os revólveres de seus
adversários. Afinal, (olha outra alteração...) não era invulnerável. Outro
detalhe curioso era que, prestando um pouco de atenção, descobria-se que Lou
Ferrigno (o Hulk) raramente era maquiado da cabeça aos pés. Por mais absurdo
que seja, ele usava sapatilhas verdes. Quem tiver um episódio gravado é só
conferir...
Quantos seriados maltrataram tanto seu herói?
Mas, com tantos pontos negativos, como é que a série emplacou?
Simples. Se você desconsiderar o purismo, deixar os preciosismos com o original
e dar um desconto no quesito efeitos especiais da época, até que tem um
seriado de ficção acima da média dos realizados no período; principalmente
em se tratando de heróis de HQ. Os produtores optaram por um formato
mais realista à trama, dando mais destaque ao drama do que à ficção. O Hulk
entrava e saia da vida das pessoas, algumas vezes ajudando, outras nem
tanto e, no final, o Dr. Banner (Bill Bixby) nunca se dava bem.
Afinal, após cada aparição do seu alter ego irritado, ele era obrigado a fugir.
Assim, invariavelmente todo episódio terminava em tom melancólico graças a
um indefectível solo de piano intitulado The Lonely Man Theme (Tan-tantantan...)
composta por John Harnell que, por sinal, marcou mais do que o tema
de abertura .
Outro ponto pacífico da série era o fato de que Banner devia
ser espancado de alguma forma em cada episódio. Murros, pontapés, pedradas...Tudo
valia para despertar a fúria gama (manifesta primeiro nas lentes de contato
verde claras que prenunciavam a transformação) do pobre doutor. Ao ser eletrocutado,
arremessado por uma vidraça ou escada ou ainda afogado por algum valentão,
o seriado era a catarse de todo brucutu que detesta um almofadinha metido
a esperto. Por outro lado, era igualmente catártico a qualquer sujeito que
nunca pôde revidar aquele meliante avantajado que abusou dele. Nisso, o Hulk
era especialista. Ele não levava desaforo para casa. Detalhe: Bill Bixby praticamente
não usava seu dublê em suas cenas de ação. Tanto apanhou, que Banner conquistou
a afeição do público feminino, que sonhava com o educado e gentil cientista
que, numa fálica metamorfose, se transformava numa criatura viril, mas de
coração puro.
O formato criado para o programa era perfeito para agradar
a toda a família, tanto que grande parte dos episódios girava em torno de
temas sociais como alcoolismo, abuso, violência, doenças e até mesmo retardo
mental. A série era, portanto, bem mais madura do que seus similares da época,
mais propensos ao escapismo e a fantasia. Enfim, lidava com problemas com
os quais o público adulto melhor se identificava.
Dentro desse universo plausível, a única incongruência (fora
calças que não rasgavam e Golias verdes) era mesmo a notável capacidade
(provavelmente o único benefício da radiação gama) que Banner tinha de arranjar
um emprego novo a cada semana. Isso sem falar em sua coleção de variações
de sobrenomes, que inventava a cada cidade que passava: David Bannet,
David Belson, David Bannon... Na verdade, o prenome David
foi criado como uma analogia à história de Davi e Golias, a fim de carregar
de simbolismo o conflito do cientista (ou médico) com seu alter ego.
Mas dizem as más línguas que o estratagema veio mesmo para
afastar uma possível conotação homossexual que o nome Bruce trazia
à época. E para fugir da aliteração dos nomes típicos das HQs como
Peter Parker, Lois Lane, Clark Kent... se bem que, o
nome Bruce não foi descartado. No túmulo de Banner, no episódio-piloto, lê-se
que seu nome completo era David Bruce Banner.
Receita de Bolo Gama

Jack McGee |

Episódio piloto |

Banner e McGee |

Hulk salva sua noiva |

O outro Hulk |

Hulk contra Hulk |
A cada episódio o franzino e boa-praça doutor metia-se em
alguma encrenca e se transformava (duas vezes por capítulo) no Hulk
para escapar da situação. Sempre seguido de perto pelo repórter de tablóide
Jack Macgee; fórmula esta que foi seguida a exaustão até o cancelamento.
Variando pouco mais, pouco menos.
Apesar desse padrão, a série teve realmente bons momentos;
a começar pelo piloto. Simples e bem amarrado, recriava a origem do Hulk
de maneira interessante, caprichando nas primeiras aparições da criatura.
Ao fim do filme o doutor foi dado como morto, o Hulk levou a culpa
e partiu em busca de sua cura.
Outro momento singular é o episódio Motoristas sem
sorte, que também poderia ser chamado de Episódio perdido
de Steven Spielberg, pois seu roteiro é uma adaptação (leia-se
reaproveitamento) de Encurralado, o longa de estréia do aclamado
diretor. A maior diferença é que o motorista perseguido implacavelmente por
um caminhão é um certo cientista que vira Hulk. O mais curioso é que todas
a cenas de perseguição são exatamente as mesmas do filme de Spielberg. Motivo
de desavença séria entre o renomado diretor e o estúdio Universal, que mutilou
sua obra criando uma deliciosa trasheira. Prodígio de montagem e picaretagem,
é uma ótima paródia para quem viu o Encurralado verdadeiro. Além disso,
é um dos poucos episódios em que o pobre doutor se dá bem e fica com a mocinha
no final.
No início da segunda temporada Banner contrai matrimônio (!)
no episódio duplo Casado, pelo qual a atriz Mariette Hartley
ganhou o Emmy de melhor atriz, tendo sido o programa o primeiro seriado
de ficção científica a ganhar um prêmio numa categoria não técnica. Esse foi
o primeiro episódio em que Banner encontra o Hulk cara-a-cara, em sua mente.
Na quarta temporada, com o evidente desgaste do formato familiar
dos episódios, a série passou a flertar com temas mais próximos das HQs.
Na verdade, é bem provável que muitos dos roteiristas dos gibis do gigante
verde tenham se influenciado por essa temporada em específico. É dela os episódios
duplos O primeiro e Prometeus. Neste último,
após a queda de um meteoro, o Hulk é capturado pelo exército, que acredita
ser ele um extraterrestre. Para piorar a situação, nosso herói encontra-se
num estágio intermediário da transformação entre Banner e Hulk. Em O primeiro,
o Dr. Banner viaja para um povoado que, nos anos 50, foi aterrorizado
por uma criatura semelhante ao Hulk. Lá, ele encontra outro cientista que
alega ter a cura para a maldição. Na verdade, o que ele faz é enganar Banner
para recuperar seus poderes e o confronto dos dois Hulks é inevitável. Mais
quadrinho é difícil.
Curiosidade: o monstro que luta com o Hulk foi vivido pelo
canastrão Dick Durock, que anos mais tarde viveria outra criatura verde
dos quadrinhos: O Monstro do Pântano.
Infelizmente, segundo os fãs, essa temporada era muito mal
dosada, tendo excelentes episódios como Lado escuro,
onde um experimento mal-sucedido traz à tona o lado sombrio de Banner, que
quer usar o poder do Hulk para espalhar destruição, mesclados a capítulos
deploráveis no esquema antigo da série. Depois disso, os índices de audiência
despencaram e a série foi cancelada. Ela ainda teve uma segunda chance
e ganhou nova temporada, nos moldes de antigamente. Foi cancelada de novo
após apenas sete episódios, deixando vários roteiros a serem filmados. Num
deles, o Hulk começaria a aprender. Noutro (uma história dupla intitulada
Los índios) onde o Dr Banner viajaria para a Amazônia em busca
de uma cura para sua maldição. Inclusive havia a proposta de um episódio final,
onde Banner seria finalmente pego por MacGee e julgado pela destruição causada
no piloto.
Fazendo um Mundo Mais Verde
Bill Bixby (Dr. David Bruce Banner)
O ator já era um astro quando se envolveu com a série. Ela,
porém, estigmatizou-o de vez na memória do público.
Famoso por seriados como O mágico e seriado
Meu marciano favorito, Bixby emprestou dignidade ao papel do
atormentado Dr. Banner. Exatamente por fugir aos estereótipos masculinos viris
e truclentos, acabou caindo no gosto da audiência feminina. E, por mais que
Hulk fosse o nome da série, era Bixby quem carregava o programa nas costas.
Por sinal, estreou atrás das câmeras dirigindo um dos episódios da série (Tragam-me
a cabeça do Hulk).
Apesar do enorme sucesso do seriado, aqueles não foram os
melhores anos de sua vida pessoal. Durante suas temporadas, casou-se com,
Brenda Bennet, uma das atrizes com quem contracenou. Infelizmente,
Cristopher, o filho do casal acabou falecendo por problemas de saúde e o casal
se separando ainda antes do fim do programa. Brenda suicidou-se algum tempo
depois.
Depois de Hulk, dedicou-se a produção e direção de
filmes para a TV, destacando-se a série Blossom. Bixby faleceu em 1993, vítima
de câncer.
Lou Ferrigno (Hulk)
Por
pouco, o Hulk não foi vivido por outro ator.
Originalmente, fora escalado o grandalhão Richard Kiel,
famoso por ter sido um dos mais caricatos vilões da série 007: Jaws,
aquele com mandíbulas de aço.
Kiel chegou a rodar várias cenas do piloto (sendo que uma
delas, onde aparece de longe, não foi cortada), mas foi substituído por Ferrigno,
com um físico mais adequado para o papel. Em compensação, Kiel acabou sendo
a voz que narra a abertura da série em sua versão original. Convenhamos, Ferrigno
nasceu para o papel do gigante esmeralda. Grande, musculoso ao extremo e com
cara de bobo, era a síntese da personagem.
Ele havia debutado no cinema ao lado de Arnold Schwarzenegger
no abacaxi anabolizado Pumping iron e, depois do seriado do
Hulk, protagonizou uma série de abacaxis musculosos como as versões trash
de Hércules e Simbad. Recentemente dublou o Hulk no desenho animado dos anos
90, além de ser escalado pra uma ponta no filme do verdão de 2003.
Ferrigno contracenou com o Hulk no episódio O rei da
praia, onde interpreta um fisiculturista em início de carreira.
Por mais que o ápice de cada episódio sempre fossem as aparições
do Hulk, Ferrigno pouco fazia além de urrar, correr em câmera lenta e fazer
caras e bocas. O monstro, devido à sua ingenuidade, muitas vezes acabava até
servindo de alívio cômico aos dramas da série. Mesmo em cinco temporadas,
sua personagem pouco evoluiu; até pelo fato de ser mudo e aparecer por apenas
dez minutos por episódio. Em compensação, cada sessão de maquiagem durava
três horas, começando às cinco da manhã. Pouca gente sabe, mas Ferrigno tem
audição parcial. Pois perdeu cerca de 60% desse sentido devido a problemas
de saúde na infância. Outra curiosidade, é que ele é sócio de Batman (ou melhor,
Adam West) num restaurante.
Jack Colvin (Jack Macgee)
Quem diria que o repórter chato e de caráter dúbio, que queria a todo custo
capturar o Hulk iria dirigir quatro bons episódios da série? Além de Hulk,
o ator participou de diversos seriados como Kojak, O homem
de seis milhões de dólares e MacGyver e não atua mais
desde os anos 90. Sua personagem trabalhava no tablóide sensacionalista National
Register, que financiava sua caçada ao Hulk através dos Estados Unidos.
O monstro seria o grande furo de sua carreira e a única forma de sair do buraco.
Coitado, nunca conseguiu.
Kenneth Johnson
Produtor da série, que escreveu e dirigiu boa parte dos seus
melhores episódios. Foi dele a idéia de limitar os poderes do Hulk, transformando
a premissa de ficção científica das HQs numa variação do clássico seriado
O fugitivo. Em vez da aventura, preferiu privilegiar o drama
do cientista eternamente em fuga, o que tornou a série viável economicamente.
Outras referências sempre presentes no programa foram Frankenstein
e O médico e o monstro, obras das quais o conceito original
da série se influenciou.
Depois de Hulk, Johnson ainda faria o insosso seriado
da Mulher-Biônica, a telessérie Missão Alien,
A minissérie V- A batalha final e o deprimente filme Steel,
baseado nos quadrinhos da DC Comics.