Robert Kirkman provoca o mercado de quadrinhos com apelo pelo trabalho autoral
Criador de Invencível e Os Mortos-Vivos defende que Marvel e DC se concentrem no público infantil
Robert Kirkman, que no mês passado virou sócio da Image Comics, resolveu usar seu novo cargo para provocar o mercado de quadrinhos. Em um vídeo publicado na semana passada no site Comic Book Resources, o criador dos sucessos Invencível e Os Mortos-Vivos defende que os grandes criadores de quadrinhos deveriam deixar em massa editoras como Marvel e DC para concentrar-se em trabalho autoral - no qual mantêm os direitos sobre os personagens que criam.
Não só isso. Para ele, o problema está no fato do público-alvo dos quadrinhos feitos nos EUA estar na faixa dos 30 anos, e os quadrinhos Marvel e DC serem produzidos prioritariamente para este público. Kirkman diz que HQs mais adultas e elaboradas, escritas e desenhadas por grandes nomes, deveriam estar sendo publicadas por editoras como Image e Dark Horse, onde a maioria de seus criadores retêm os direitos autorais. Marvel e DC, por sua vez, deveriam publicar mais HQs para crianças, garantindo a renovação do mercado.
Robert Kirkman
É a sua proposta, ou melhor, seu apelo para "salvar o mercado de quadrinhos". Sem esta iniciativa, diz ele, não haverá quadrinhos no futuro.
A discussão sobre as vantagens do trabalho autoral corre há anos no mercado de quadrinhos. Com a imensa maioria dos escritores e desenhistas trabalhando como free-lancers, não há aposentadoria nem garantia de que seu sucesso de hoje continuará amanhã. Retendo direitos autorais, criadores continuam recebendo por seu trabalho enquanto ele vender e, hoje a questão mais importante, podem licenciar seus personagens para o cinema ou a TV com contratos milionários.
Foram argumentos similares que levaram à criação da Image Comics, em 1991, quando desenhistas de grande renome na Marvel deixaram a editora para fazer trabalho autoral em uma editora própria. Na época, HQs vendiam na faixa dos milhões de exemplares. Hoje, o apelo é ainda maior: mesmo que HQs vendam menos, há as vantagens dos contratos com Hollywood (e toda semana 2 ou 3 criadores vendem suas HQs para o cinema).
Vários criadores têm reagido na Internet à proposta de Kirkman - e nenhum deles a rejeitou por completo. O principal problema, como coloca o escritor e desenhista Keith Giffen em entrevista ao Newsarama, está na insegurança em torno do trabalho autoral: é uma empreitada financeira do criador, que pode ir por água abaixo, enquanto qualquer trabalho para Marvel ou DC é garantia de dinheiro para pagar as contas.
Outros criadores, como o editor da Marvel C.B. Cebulski (que publica quadrinhos autorais pela Image), diz que os grandes criadores deveriam dividir seu tempo entre trabalhos autorais e nas grandes editoras. Já Jonathan Luna (Ultra) diz que o problema está na falta de diversidade de gêneros nos quadrinhos - as grandes editoras continuam focando nos super-heróis.
Kirkman, por sua vez, em entrevistas posteriores à declaração, disse que ainda tem alguns trabalhos a serem lançados pela Marvel, mas não se vê colaborando com a editora no futuro próximo.
"Quero que todo mundo entenda: não estou dizendo que ninguém devia ter o sonho de trabalhar com os personagens da Marvel ou da DC... Só estou dizendo que este não deveria ser o pináculo de uma carreira nos quadrinhos... Todo mundo que só faz quadrinhos Marvel ou DC eventualmente é convidado a se retirar do mercado... E não há aposentadoria nos quadrinhos. Você escreve seus gibis Marvel e DC e é 'quente' até não ser mais e aí é 'valeu, tchau'. Se você não estiver aplicando seu dinheiro o tempo inteiro, você se ferra. Você deixa sua popularidade cair. Mas se você faz quadrinhos autorais, garante sua aposentadoria. Você acha que Mike Mignola não vai continuar ganhando dinheiro com Hellboy quando tiver 65 anos? Isso que é um plano de aposentadoria."
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