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Entrevista

Omelete entrevista: Max Allan Collins

Omelete entrevista: Max Allan Collins

É"
11.10.2002, às 00H00.
Atualizada em 29.06.2018, ÀS 02H32

Max Allan Collins, 54, é um cara ocupado. Romancista há 30 anos, escritor de histórias em quadrinhos há 25, o autor tem dezenas de livros e mais outras centenas de quadrinhos publicados nos Estados Unidos e no mundo. Com sua graphic novel Estrada para Perdição adaptada para as telonas, ele está de volta ao centro das atenções após alguns anos pouco ativo nas HQs.

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Tudo começou com a Marvel pulando na frente da DC (editora original de Estrada) e oferecendo-se para publicar uma continuação do álbum. Collins optou pela DC, mas ficou com novos trabalhos agendados na Casa das Idéias. Para a IDW Publishing, uma das mais novas editoras americanas, ele está fazendo uma versão em quadrinhos da série de TV C.S.I. (atualmente passando na Sony, no Brasil). Além disso, acaba de adaptar Batman: Child of dreams, o bat-mangá de Kia Asamiya (já publicado no Brasil pela Mythos), para o mercado norte-americano.

Mesmo com tanto trabalho, ele não pára com suas outras atividades. Continua escrevendo novos livros e contos dentro da literatura policial, seu gênero predileto; mantém-se adaptando roteiros de filmes (I Spy, Códigos de guerra, Escorpião Rei, O resgate do soldado Ryan) para prosa; redigindo versões literárias de telesséries como Dark Angel e C.S.I.; e criando seus projetos em cinema e vídeo, de filmes a documentários independentes, roteirizando, dirigindo e produzindo.

Ah, e também é músico.

Max Collins foi forçado a parar um pouquinho e responder algumas perguntas para o Omelete sobre Estrada para Perdição e outros trabalhos, direto da sua casa em Muscatine, Iowa (no rio Mississipi, um pouco à direito do centro dos EUA). Confira a entrevista, corra para o cinema e não perca a versão em quadrinhos de Estrada.

Omelete entrevista:
Max Allan Collins

Quais são seus comentários sobre a adaptação para os cinemas de Estrada para Perdição?

A versão para o cinema de Estrada para Perdição é ótima. Sam Mendes (direção), David Self (roteiro) e Conrad Hall (fotografia) fizeram um trabalho excelente. É bastante fiel ao espírito do meu álbum, e ainda gostei das mudanças e adições que eles fizeram para deixá-la mais funcional como filme.

E os atores? Os comentários são de que Tom Hanks e Paul Newman estão nas suas melhores interpretações em anos. O que você achou?

Gostei muito deles. Newman trouxe peso e dignidade ao papel - aliás, o verdadeiro John Looney foi contemporâneo de Butch Cassidy e Sundance Kid, e tinha um esconderijo no Novo México (como mostra o álbum). Hanks foi uma escolha perfeita, mesmo que algumas pessoas tenham reclamado quando ele foi anunciado. Eu imaginava - e estava certo - que qualquer ator pode se dar bem nesse negócio de ação, aventura e tiros; mas Hanks conseguiu representar de forma convincente um pai transtornado e se valer de sua persona de homem comum de forma válida.

Você teve algum controle criativo sobre o filme? Ao menos sobre o roteiro?

Eu chequei vários esboços do roteiro e fiz comentários, mas basicamente me limitei a apontar imprecisões históricas, como gírias não apropriadas. Também dei algumas sugestões sobre o terceiro ato, onde divergiram do meu original - que era melhor que o deles, modéstia à parte.

Mas minha atitude básica foi: Fique fora do caminho a não ser que liguem pedindo ajuda. Sou um cineasta também, e respeito o processo.

Como Estrada chegou à Dreamworks? Por que ele não foi produzido pela Warner, já que tinha sido publicado originalmente por uma de suas empresas (a DC)?

Meus agentes apresentaram Estrada para Perdição a Dean Zanuck, que, com seu pai, fez o filme acontecer. A Warner tinham direito à primera-opção, mas deixaram passar - agora devem estar arrependidos.

Como foi o processo de pesquisa para criar Estrada? Sei que há uma ligação com sua personagem da série de livros Nate Heller.

Os livros de Heller combinam as histórias de detetive tradicionais com romances históricos. Coloco meu detetive no meio de crimes reais e não-solucionados, geralmente famosos. A história de John e Connor Looney foi algo que descobri enquanto pesquisava para um dos livros de Heller; não era apropriado para aquele romance, então deixei esse material de lado para uso futuro.

E a relação com o mangá Lobo Solitário? Kazuo Koike é até citado nas páginas de abertura.

Lobo Solitário foi uma grande influência, obviamente. Vi um paralelo entre um samurai e seu shogun e um capanga da máfia e seu chefe. No entanto, o aspecto pai e filho de Estrada cresceu muito da necessidade de criar o paralelo entre Looney e seu filho e O´Sullivan e seu garoto, bem como com Lobo. Também há um paralelo com meu filme independente, Mommy, sobre uma mãe assassina e sua jovem filha descobrindo que sua mãe perfeita é uma assassina psicótica.

Há quanto tempo você trabalha como escritor e quais são seus trabalhos atuais?

Vendi meu primeiro livro em 1971. Hoje estou com diversos trabalhos, de livros e contos até roteiros para quadrinhos, cinema e TV.

Neste momento tenho diversos projetos para a rede de TV CBS relacionados a C.S.I., atualmente a série de TV mais popular nos Estados Unidos. Escrevi dois romances (o segundo, C.S.I.: Sin City, acaba de sair) e fui contratado para escrever mais dois. Também estou escrevendo uma mini-série em quadrinhos de C.S.I. em cinco edições e até os diálogos para um jogo de videogame da série.

Estou para começar um novo romance, The London blitz murders, e preparando um outro baseado na clássica série de TV dos anos 60 O prisioneiro. Tenho mais um livro para escrever baseado na série de TV Dark Angel, de James Cameron - fui contratado para escrever uma trilogia de romances, e mesmo com a série cancelada, vamos continuar com os livros. Recentemente terminei um álbum de quadrinhos do Batman, Child of dreams, com o ilustrador japonês Kia Asamiya, e logo vou iniciar a HQ seqüência de Estrada para Perdição para a DC.

Diversos filmes independentes em diferentes estágios de produção. Estou na metade de um documentário sobre V.T. Hamlin, criador da tira de quadrinhos Alley Oop. Tenho diversos roteiros para cinema precisando de fundos, todos de baixo orçamento; e um sobre a vida de Eliot Ness que vai virar um monólogo teatral.

Esta continuação de Estrada para Perdição não seria publicada pela Marvel?

A Marvel expressou interesse, e originalmente seria a editora. Mas, depois de uma negativa verbal, a DC mudou de idéia e fez valer sua preferência [contratual]. Posso vir a fazer uma nova série para a Marvel também, uma mistura dos gêneros de terror e policial.

Já foi mencionado também que você escreveria Estrada para Purgatório e Estrada para Paraíso, continuações em romance de Estrada para Perdição.

Assinei contrato com a editora William Morrow para fazer estas duas seqüências, que acompanham a vida de Michael Jr. Começo a primeira por volta de janeiro, para publicação no verão (entre agosto e setembro).

Hollywood já está interessada nas seqüências?

É muito cedo para saber isso, mas tenho certeza que eles darão uma boa olhada.

Você entrou nos quadrinhos nos anos 70. Como foi?

Em 1977, fui contatado pelo Chicago Tribune Syndicate para escrever a tira de quadrinhos de Dick Tracy, após a aposentadoria de Chester Gould. Fizeram o convitre com base no meu trabalho com romances de mistério e diversas recomendações. Minha versão de Tracy foi bem-vista por muita gente no negócio de quadrinhos, e meu telefone começou a tocar.

Trabalhei com editoras independentes, fazendo coisas como a duradoura Ms. Tree, mas também com editoras maiores, como a DC (Batman, Cão Raivoso e, por fim, Ms. Tree) e a Dark Horse (Johnny Dynamite). Meu desenhista freqüente foi Terry Beatty, que atualmente faz arte-final para diversos bat-títulos. Ironicamente, somos conhecidos como uma dupla, e fizemos vários trabalhos com Batman, mas nunca juntos.

Você está adaptando Batman: Child of dreams, o bat-mangá de Kia Asamiya, para o público norte-americano. O gibi já foi publicada no Brasil (como duas mini-séries), traduzido diretamente da versão original japonesa. Que mudanças você fez? Ela será redesenhada?

Me deram bastante liberdade. Entre outras coisas, expliquei aspectos do roteiro que não pareciam fazer muito sentido, e tornei a heroína mais forte e mais independente do que no original, no qual a achei bem fraca. Acredito que mantive a mesma história, mas minha contribuição serve para fazê-la funcionar melhor para o público americano, que exige que a ficção-científica tenha fundamentos na realidade e que seja bem explicada.

Um bom exemplo está no que eu fiz na cena de luta final. No original, o vilão apenas joga Batman de um lado para o outro, página a página, aparentemente sendo superior a ele. Na minha versão, Batman está se contendo, tentando racionalizar a situação com o vilão que é brilhante... então, quando se torna óbvio que o sujeito não vai dar ouvidos à razão, o herói facilmente termina a luta.

Nada será redesenhado. Os desenhos são elegantes e é uma história bem contada. No entanto, adicionei balões de diálogo onde julguei necessário. Espero que Kia Asamiya fique satisfeito, porque realmente tentei honrar sua visão enquanto fiz meu trabalho.

O Imdb.com lista seu nome na direção dos filmes Mommy 1 e 2, que você já mencionou, e algo chamado Real time: Siege at Lucas Street Market. Como foram essas experiências com produção cinematográfica?

Os dois Mommy foram rodados aqui em Muscatine, minha cidade-natal. Eu mesmo consegui o dinheiro. Mommy fez sucesso - foi o filme da semana, em horário nobre, no canal a cabo Lifetime, e um sucesso estrondoso em vídeo. A continuação não se saiu tão bem, mesmo que eu goste mais dela.

Real Time é um filme experimental de baixíssimo orçamento sobre um assalto a uma loja de conveniência que dá errado e torna-se uma crise com reféns. São filmagens encontradas - utilizamos câmeras de segurança reais e mantivemos estritamente tempo real. Tipo um falso documentário. Também utilizamos a função de ângulo alternativo para o DVD - editamos uma segunda faixa de vídeo na qual se pode clicar para observar a ação de outro ponto. Já tem um bom público cult.

Tanto Mommy quanto Real Time foram baseados em contos meus já publicados. Mommy´s day foi um roteiro original, e eu fiz as adaptações para romance dos dois filmes Mommy.
Adoro fazer filmes independentes e espero fazer muitos mais.

Você está escrevendo um novo roteiro chamado A matter of principal, certo?

A matter of principal é um curta feito com um jovem cineasta da Califórnia. Sou o roteirista e co-produtor executivo. É baseado na minha personagem Quarry, de cinco livros e vários contos. Se o curta for bem recebido no circuito de festivais, talvez façamos uma versão em longa-metragem também.

Você é um romancista, um cineasta, um roteirista, um músico, um especialista em novelizações de roteiros cinematográficos, um colecionador, um escritor de quadrinhos... Como você concilia todos esses trabalhos e gera tanta produção constantemente?

Sou um escritor free-lancer em tempo integral. Isso é tudo que faço. Gosto de escrever para diferentes mídias - me mantém atualizado e interessado. Basicamente, eu me considero um narrador de histórias e meu talento especial está provavelmente em trabalhar com várias formas de contar histórias.

Para finalizar: quando falou em Estrada para Perdição pela primeira vez, Tom Hanks disse que o filme era baseado em uma graphic novel, mesmo que não soubesse o que era uma graphic novel. O que você acha que essa situação diz a respeito da indústria de quadrinhos? E sobre Hollywood?

Hanks é um cara engraçado e loquaz, mas provavelmente também estava um pouco constrangido por seu filme sério sair de um gibi. Todos no filme pareciam um pouco constrangidos no início, mas esqueceram disso, especialmente quando ficou aparente que nossa HQ era respeitável. É esnobismo da parte de Hollywood, mas a indústria de quadrinhos pode culpar a si própria por manter vivo o estereótipo de quadrinhos sendo estritamente super-heróis para o público juvenil.
.:: O Omelete agradece a Max Allan Collins pela entrevista ::.

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