Lá Fora
O casamento do Arqueiro Verde, a morte do Surfista Prateado e duas das melhores HQs da atualidade
Na coluna "LÁ FORA", o Omelete lê e comenta todos os grandes lançamentos em quadrinhos nos Estados Unidos.
Green Arrow/Black Canary Wedding Special
Green Arrow
Silver Surfer Requiem
Nightly News
Scalped
É um evento de pompa. Talvez não tão grande quanto um Superman e Lois Lane, mas merece destaque. Para comemorar o casamento de Arqueiro Verde e Canário Negro, a DC não apenas cancelou a revista do herói (para relançá-la em outubro), mas publicou três especiais para tirar bom proveito do acontecimento.
Black Canary Wedding Planner mostra o casal planejando um casamento de última hora - o que é bem fácil quando você tem uma conta bancária ilimitada, como é o caso de Oliver Queen. JLA Wedding Special, apesar de ser o espaço das festas de despedida de solteiros, é mais uma prévia de Dwayne McDuffie na Liga da Justiça - o escritor assume a série do supergrupo na edição desta semana (e ele já chega colocando um dos membros no hospital).
A edição de casamento, enfim, responde uma dúvida que os fãs têm colocado desde que se anunciou o casório - por que o Arqueiro não aparece na primeira capa de Green Arrow/Black Canary, a nova série que estréia no mês que vem? Ele morre na lua de mel?
Não vou estragar a surpresa aqui, mas já dá para adiantar uma coisa: o "felizes para sempre" não dura muito após eles dizerem sim.
Scalped 9
Ed Brubaker é o escritor de HQ mais premiado da atualidade. Este ano ele ganhou os prêmios Eisner e Harvey como "melhor escritor"; tem sua nova série policial, Criminal, em destaque fora da mídia especializada em quadrinhos; e é elogiado até quando escreve uma HQ extremamente comercial, como a morte do Capitão América.
Mas essa resenha não é sobre Ed Brubaker. Quando perguntam a Brubaker o que ele lê, a primeira resposta é: Scalped, de Jason Aaron.
A série da Vertigo vende-se como uma "Família Soprano indígena". Em uma reserva de índios Sioux na Dakota do Norte, uma das regiões mais pobres dos EUA, tudo é controlado pelo cacique Lincoln Red Crow, dono do cassino que move a economia e o crime local. Dashiell Bad Horse, um jovem agente do FBI que deixou a reserva quando era adolescente e prometeu nunca voltar, torna-se operativo infiltrado para desbaratar as operações de Red Crow. E tem que lidar com o que deixou para trás, como família, amores e a própria herança indígena que nega.
Se fosse uma série da HBO, como Sopranos, Scalped faria bonito. A primeira coisa que chama atenção é a violência, bem como os diálogos que fariam Garth Ennis corar. Mas isso é só o recheio para uma história complexa sobre família e identidade. Aaron sabe orquestrar a história para fazer você sentir quando Dashiell percebe que ainda ama a reserva que sempre odiou. O trabalho com os personagens é um dos melhores nas HQs atuais.
Porém, como quase sempre acontece na Vertigo, os desenhos deixam a desejar. O iugoslavo R.M. Guéra sabe que tem que dar um estilo sujo às páginas, para entrar no espírito criminoso da série. Mas não tão sujo a ponto de você não conseguir entender o que está acontencendo nem reconhecer os personagens, o que demanda um certo esforço do leitor. O que falta é um editor com pulso firme para coordenar a parte artística da série. Nos roteiros, Scalped é uma das melhores HQs a surgir nos últimos tempos.
Silver Surfer: Requiem 4 (de 4)
Por que ninguém pensou nisso antes? Para escrever o maior filósofo de botequim dos quadrinhos, por que não trazer o escritor mais falastrão dos útimos tempos? Surfista Prateado encontra J.M. Straczynski.
E para as coisas ficarem ainda mais filosóficas, Straczynski coloca o Surfista diante da fronteira final: a morte. O herói percebe que seu fim está chegando, e Reed Richards confirma: o poder cósmico que alimentava o ex-arauto de Galactus está desgastando-se. E não há solução.
É quando começa a jornada do Surfista pelos seus últimos momentos no universo. De uma conversa com o Homem-Aranha até o retorno a seu planeta natal, o que ele busca é fechamento. E é em Zenn-La que reencontra não apenas seu povo, mas seu antigo mestre, Galactus.
É a bela pintura de Essad Ribic - que fez uma das melhores HQs da Marvel desses últimos anos, Loki (recentemente relançada no Brasil) - que torna a história tão fantástica. E Straczynski não faz feio. Para quem gosta do Surfista, é uma daquelas histórias para ficar entre as melhores do personagem.
The Nightly News 6 (de 6)
Quadrinhos não são somente histórias contadas por imagens justapostas, delimitadas por um quadro contornado com nanquim. Quadrinhos abrangem várias misturas de palavras e imagens. E toda hora surge alguém que cria uma mistura nova.
Jonathan Hickman, escritor e artista de The Nightly News, coloca os quadrinhos na era do design gráfico pós-moderno. A minissérie da Image Comics, apesar de não ser uma leitura revolucionária, marca pela arte e pela forma de Hickman de contar a história.
Uma típica página de Nightly News parece um website modernoso. Como você vê abaixo, há aquela sobreposição de desenhos típica da ilustração contemporânea, tipografia e paleta de cores cuidadosamente selecionadas, notas de rodapé dispersas e, se a situação pedir, um bom infográfico para o leitor inteirar-se dos temas da série, como globalização, concentração de poder nas mídias, uso de remédios controladores de humor etc.

No roteiro, um grupo de revolucionários resolve transformar a manipuladora mídia norte-americana do jeito mais visível: assassinando repórteres e apresentadores de noticiário. O grupo é composto por gente que teve sua vida destruída por uma reportagem mal feita, ou que simplesmente não aguenta mais ver os EUA acreditarem em um punhado de canais de notícia altamente tendenciosos.
Um tema fora do comum e um visual também fora do comum criaram, assim, uma das HQs mais comentados do ano. Hickman já tem vários trabalhos agendados na Image, e começa a vender seus talentos para outras editoras, como a Marvel. Nightly News foi apenas o começo de um cara do qual ainda vai se falar muito.
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