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Artigo: O que o mercado de HQs dos EUA tem contra os roteiristas brasileiros?

Editor-chefe da Marvel explica por que prefere compatriotas. Escritores então dão sua opinião

ÉA
04.05.2009, às 00H00.
Atualizada em 21.09.2014, ÀS 13H47

O mercado de quadrinhos dos EUA é hoje movido, em grande parte, por desenhistas nascidos e trabalhando fora do país. Desde os anos 90, o Brasil é um dos maiores exportadores de desenhistas, que trabalham nas pequenas, médias e grandes editoras estadunidenses. Nomes como Mike Deodato, Ed Benes, Ivan Reis, Gabriel Bá, Fábio Moon e vários outros fazem sucesso atualmente lá fora.

E quanto aos roteiristas de quadrinhos estrangeiros? Fora britânicos ou canadenses, aparentemente a entrada de novos escritores no mercado de HQ dos EUA é bastante reduzida. E, segundo uma declaração do editor-chefe da Marvel, Joe Quesada, talvez não seja por falta de tentativa.

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Elektra: O Tentáculo, por Akira Yoshida

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Daytripper, Fábio Moon & Gabriel Bá

Em sua coluna no MySpace, ele diz: "Vemos, quase sempre, que não importa o quanto um escritor seja bom nos quadrinhos em outro país, não existe correspondência aqui. Eles podem chegar do ponto A ao B em uma história tranqüilamente, mas há uma certa cadência, e certos coloquialismos e estruturas de fala, que se perdem. A estrutura da história pode ser diferente também. O que é considerada uma estrutura clássica nos EUA pode não ser visto assim no Japão, ou em qualquer outro lugar. É muito, muito difícil para escritores ir de uma cultura a outra. E, claro, é uma estrada de duas mãos. Penso que vários bons escritores estadunidenses teriam um problemão escrevendo para o mercado estrangeiro. Tenho certeza que eu não conseguiria".

Quesada revela que a única exceção que conhece é o escritor Akira Yoshida, japonês que trabalhou na Marvel com séries como Thor: Filho de Asgard e Elektra: O Tentáculo. O Omelete foi então atrás da opinião de alguns escritores e artistas brasileiros, para saber o que eles pensam da visão de Quesada - que afinal é o representante da maior editora de quadrinhos dos EUA.

Rafael Grampá, que chamou atenção do mercado com a graphic novel Mesmo Delivery, diz que recorreu a um estadunidense - o escritor Ivan Brandon - para adaptar os diálogos de sua HQ, principalmente trazendo gírias e expressões de caminhoneiros dos EUA para a história. Apesar disso, acredita no potencial dos escritores brasileiros no exterior.

"Acho a opinião do Quesada limitada. Concordo com ele que se o inglês for a sua primeira língua, o texto não vai precisar de correções (ou não) e vai ser publicado exatamente como o escritor escreveu, com todas suas vírgulas e seus pontos. Mas até um escritor brasileiro tem que ser corrigido em sua própria língua. Todo mundo sabe que antes de uma editora publicar um livro, o texto é corrigido. Um escritor brasileiro pode sim escrever em inglês e contratar um escritor dos EUA que corrija o texto e mande-o de volta para o criador do texto aprovar. É simples", disse.

Grampá acha também que a revisão por um estrangeiro não é obrigatória, e dá o exemplo de Daniel Pellizzari, escritor com quem divide o roteiro de Furry Water, seu novo trabalho. "Quem digita o texto final é o Pellizzari, e já manda em inglês. Furry Water vai virar uma série, vai ser publicada por uma grande editora dos EUA e eles não deixam passar NADA. O texto em inglês que mandamos não sofreu nenhuma alteração. E o texto é bem complexo. É um exemplo de que um escritor que não tenha o inglês como primeira língua pode escrever HQs para o mercado de lá sem problema nenhum, assim como o Grant Morrison."

O próprio Pellizzari complementa: "Em primeiro lugar, esse conceito de 'cultura narrativa local' é ultrapassado, especialmente em cultura pop - que é global - e mais ainda em se tratando de HQ. Ora, a maioria dos roteiristas de HQ, seja lá onde tenham nascido, cresceu lendo - e absorvendo - a estrutura dos quadrinhos dos EUA (e/ou europeus, e/ou japoneses etc.). Hoje em dia, em QUALQUER área que envolva 'storytelling', os autores do mundo inteiro estão interligados e têm muitas referências em comum. As pequenas diferenças que podem surgir são, na maioria das vezes, benéficas e não deletérias. De certo modo, foi isso que aconteceu na época da invasão britânica nos quadrinhos dos EUA - apesar do idioma ser o mesmo, assim como boa parte das referências narrativas, as pequenas diferenças 'estrangeiras' criaram o charme que consagrou toda aquela geração".

O escritor, que também traduziu Sandman, Black Hole e outros quadrinhos para as edições brasileiras, continua: "Quanto à barreira do idioma, é cada vez menor. Hoje é mais simples se manter atualizado em coloquialismos, por exemplo. Isso se aprende convivendo com falantes nativos, e agora eles estão a um monitor de distância, 24 horas por dia. Em casos extremos, um bom tradutor resolve. No fim das contas, acho que nas condições atuais tudo acaba dependendo do talento, mesmo. O resto se tira de letra com um pouco de insistência e cara de pau".

Gian Danton, autor do livro Roteiro para Histórias em Quadrinhos, e que já publicou HQs nos EUA, concorda com Pellizzari. "Pessoalmente, acho besteira. Isaac Asimov não era estadunidense. Joseph Conrad também não. Mas foram escritores que se adaptaram muito bem ao estilo americano de escrever. Além disso, nós nascemos e crescemos assistindo a filmes e seriados dos EUA e lendo gibis de super-heróis. O que nos impede de criar histórias no estilo deles? Claro, não seria igual, da mesma forma que os britânicos não fazem super-heróis da mesma forma que nos EUA. Mas, da mesma forma que os ingleses oxigenaram o mercado, os brasileiros também poderiam fazer isso... se tivessem uma chance".

Os gêmeos Gabriel Bá e Fábio Moon, apesar de atuarem mais como desenhistas, também já publicaram trabalhos roteirizados por eles mesmos nos EUA - como as histórias de 10 Pãezinhos que viraram edições especiais lá fora, além da antologia 5, premiada no Eisner. Eles preparam um novo trabalho roteirizado e desenhado sob encomenda para o mercado estrangeiro, a minissérie Daytripper (DC/Vertigo). E a opinião quanto à fala de Quesada difere um pouco dos outros entrevistados.

"O maior fã de Capitão América no Brasil não vai entender o personagem como qualquer Zé Mané dos EUA entende. Nós somos daqui, vemos a coisa daqui e só podemos contar a história desta perspectiva e não é isso que o público de super-heróis quer. Eles querem tudo igual, querem o conforto do personagem que eles conhecem. No desenho, isso é mais fácil de fazer, mas no roteiro não. Simplesmente, a gente pensa diferente", diz Bá, fazendo referência específica ao mercado de super-heróis.

"Cada língua tem uma estrutura particular e várias peculiaridades que constroem a forma como você pode montar as frases e transmitir as ideias. É preciso conhecer essas estruturas, os jargões, gírias e expressões. Mais do que isso, é preciso pensar em inglês. Você já organiza suas ideias, suas frases naquela língua, ao invés de pensar em algo que fique ótimo em português e depois tentar traduzir aquilo para o inglês", continua.

Uma receita para se arriscar no idioma? "É preciso ler muito direto em inglês pra se acostumar com a construção gramatical da língua, de preferência vários autores diferentes e tentar compreender diversos estilos de escrita. Assistir a filmes e TV em inglês também ajuda, mas é muito pobre, mesmo que você vá construir diálogos mais orgânicos e coloquiais. Um bom escritor, não importa a língua, sabe dosar o clássico com o coloquial criando diálogos naturais que ajudam a história", diz Bá.

Ele também ressalta que a abertura do mercado dos EUA para obras estrangeiras é relativamente recente. Embora a invasão dos mangás tenha mais de uma década, os quadrinhos europeus só agora são publicados com maior frequência nos EUA - tanto por editoras com menos participação no mercado, como Fantagraphics e First Second, como pela própria Marvel, que mantém uma linha de HQs francesas de fantasia e ficção científica.

"O nosso próprio trabalho vem com o rótulo 'exótico' dos 'meninos do Brasil', coisa que nós nem mesmo rejeitamos. Trazemos o Brasil e uma brasilidade em tudo que fazemos e isso diferencia nosso trabalho. Pode ser o tal realismo fantástico de que tanto falam, de Borges, Saramago e García Márquez, ou o trabalho dos irmãos Hernandez. Eles precisam de algo que já entenderam e assimilaram pra compreender o 'novo' do nosso trabalho. Eles aprenderam a escrever com Shakespeare, Hemingway e Elmore Leonard. Nós, com Machado de Assis, Jorge Amado e Guimarães Rosa. Pra nós pode parecer natural o jeito que contamos histórias, pois crescemos lendo isso e é assim que aprendemos a fazer. Mas é como se fosse preciso primeiro avisar o público de que se trata de uma obra de autores estrangeiros pra que ele possa entender a história. Isso ainda é uma barreira a ser quebrada", complementa Bá.

"Coisa de conservador dos EUA achar que a sua cultura é inalcançável para estrangeiros. Estranho, pois o Quesada parace ser um cara de mente aberta. A cultura e o mercado de HQs de lá só têm a perder com esse tipo de pensamento", fecha Rafael Grampá.

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