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Aqui Dentro e Lá Fora (27/01/2010)

Eu Sou Legião e Monsters

Érico Assis
27 de Janeiro de 2010
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Agora, as colunas AQUI DENTRO e LÁ FORA se fundem e ganham uma periodicidade semanal. Era um projeto antigo e que vai servir pra gente dar mais vazão para as coisas que saem no Brasil e manter você também atualizado sobre o que está acontecendo longe das nossas bancas.

Vamos lá?

AQUI DENTRO: EU SOU LEGIÃO

O QUÊ: Os álbuns franceses Je Suis Legion, lançados originalmente entre 2004 e 2007, saem aqui em coletânea com a história completa. A editora é a Panini Books.

QUEM: Fabien Nury, roteirista de vários álbuns de aventura na França, e John Cassaday, o desenhista norte-americano conhecido por seus trabalhos em Planetary e Fabulosos X-Men.

POR QUÊ: Mesmo que timidamente, o quadrinho francês continua aparecendo no mercado brasileiro. Mas embora a maior parte das livrarias francesas se encha de HQs locais de ação e aventura, o que mais chega às nossas prateleiras é material de autores de um estilo cômico ou humanista, como Joann Sfar, Emmanuel Guibert e Marguerite Abouet.

Eu Sou Legião é exemplo desse material que praticamente não chega até o Brasil. Originalmente, é da editora Les Humanoïdes Associés (mesma de A Casta dos Metabarões, que também está finalmente saindo por aqui), pertencente aos criadores da Heavy Metal. E o estilo da mundialmente famosa revista de histórias sci-fi e de fantasia continua forte, com desenhos fantásticos.

O quadrinho americano também é dominado pela ação e aventura, pode dizer o leitor. Sim, mas além do foco estadunidense ser quase que exclusivamente nos super-heróis, pesa sobre eles o ritmo de produção acelerado que é padrão da indústria desde os anos 30. Os artistas franceses, por outro lado, conseguem cobrar mais por página, o que possibilita que cada desenhista publique, em média, apenas um álbum de 40 a 60 páginas por ano.

É por isso que ao ler Eu Sou Legião percebe-se um refinamento do roteiro (e até na arte de Cassaday, que, mesmo estourando todos os prazos quando trabalha para os EUA, nem sempre é tão detalhista quanto aqui) típico de quem tem tempo para criar uma história complexa, com diversos personagens interligados a acontecimentos históricos reais durante a Segunda Guerra Mundial e a lendas do leste europeu.

É um choque também para o leitor acostumado a Batman e X-Men pegar uma história desta complexidade. A quantidade de nomes, de referências, inclusive de um roteiro que não entrega a história facilmente, é atípica. Mas é o padrão do quadrinho de aventura francês.

Que venham mais, para começarmos a nos acostumar.

ONDE E QUANTO: Nas livrarias e comic shops. O preço sugerido é de R$ 49. Compre aqui com desconto.

LÁ FORA: MONSTERS

O QUÊ: História autobiográfica sobre os anos em que Ken Dahl viveu com herpes. A edição é da Microcosm Publishing.

QUEM: Ken Dahl é o "nome artístico" que Gabby Schulz, quadrinista indie norte-americano, usa para assinar seus trabalhos. Este é seu segundo álbum, fora os vários zines que já publicou.

POR QUÊ: Na descrição de um resenhista, Monsters é a melhor HQ educativa de todos os tempos. E ela educa sobre o quê? Herpes, a doença viral transmitida por qualquer tipo de contato. Mas não pense que é mais um serviço de utilidade pública.

Primeiro porque é uma autobiografia. Dahl/Schulz realmente teve herpes e sofreu com a doença por cinco longos anos. É esse sofrimento que ele retrata na HQ.

Sofrimento relativo, claro, considerando que a doença não é um câncer maligno, nem AIDS, nem o levou ao hospital por um período prolongado. O que a herpes faz, e que Dahl mostra em detalhes bem ilustrativos, é matar sua vida social - você não pode tocar em ninguém, beijar, transar, compartilhar um talher, um cigarro, nem, como o autor mostra no início, "cuspir no café do seu chefe".

A HQ parece a forma com que Dahl resolveu lidar com a doença - que é representada às vezes como um vírus do tamanho de um bebê, que ele carrega a tiracolo, às vezes como uma camisinha gigante que o desconecta das outras pessoas. Começa com a sua namorada de Nova York, em 2002, passa pelos anos em que ele teve que se controlar para não fazer sexo e chega até... bom, melhor não contar o final, que é amargamente doce.

Há didatismo também. O autor passa de alguém que acha que "nunca vai pegar herpes" a alguém que tem que saber cada detalhe do vírus para não passá-lo aos outros. O leitor acompanha cada descoberta, com direto a diagramas e seções de perguntas e respostas.

Mas o que marca no álbum são os recursos visuais de Dahl, um cartunista fantástico com desenhos que misturam os detalhes nojentos de Dave Cooper (Escombros) com a linha mais suja de Bill Watterson (Calvin & Haroldo). E ele põe uma imaginação visual fantástica a serviço de algo que é, certamente, bem mais do que uma HQ educativa.

ONDE E QUANTO: Publicado por uma pequena editora estadunidense, a melhor forma de adqurir Monsters é via Amazon, onde, com frete, o livro sai em torno de US$ 28 (R$ 50). Para quem quiser encomendar de outras formas, o preço original é US$ 18 (R$ 32).

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