O Conselho da Biblioteca Pública
de Marshall, no Estado de Missouri (região central dos EUA),
decidiu na semana passada tirar de suas prateleiras as graphic novels
Blankets, de Craig Thompson, e Fun
Home, de Alison Bechdel. A decisão surgiu a partir
da reclamação de um dos membros do Conselho quanto ao conteúdo pornográfico
das obras.
Apesar de acontecer numa cidadezinha interiorana,
o fato atraiu a atenção de toda a mídia norte-americana especializada em quadrinhos.
Graphic novels estão em ascensão nos EUA, e uma das provas disso é
sua popularidade em bibliotecas públicas, onde são bastante procuradas por crianças,
adolescentes e adultos.
As obras escolhidas também são exemplares. São
duas das graphic novels mais elogiadas na produção estadunidense recente.
Ambas são autobiográficas. Bechdel, que publicou Fun Home este ano
e foi elogiada por quase todos os jornais importantes dos EUA, retrata como
descobriu que seu pai era um homossexual enrustido. Em Blankets, de
2003, Thompson conta sua infância numa família fervorosamente católica, e a
descoberta do amor na adolescência; ganhou três prêmios Harvey, dois Eisner,
dois Ignatz e o prêmio da crítica do Festival de Angoulême.
As reclamações do Conselho são as de sempre:
não vamos expor pornografia a nossas crianças (como se quadrinhos
fossem só para crianças) e não vamos gastar dinheiro público em material
de baixo nível (qualquer seio à mostra já causa medo).
Além do bafafá na imprensa especializada, a decisão
da Biblioteca de Marshall ensejou uma carta do Comic Book Legal Defense
Fund (Fundo de Defesa Legal dos Quadrinhos, entidade que provê subsídios
para quadrinistas em processos relacionados a liberdade de expressão) em conjunto
à National Coalition Against Censorship (Coalizão Nacional
contra a Censura).
A carta destaca a qualidade artística das duas
obras, ressalta a inconstitucionalidade, explica o que as entidades entendem
como obscenidade (que as duas obras não contêm) e coloca que se
representações de sexo fossem o suficiente para tornar um livro indesejável
numa biblioteca pública, sobraria pouca coisa – Ovídio, Geoffrey Chaucer, Boccaccio,
James Joyce, Vladimir Nabokov, Dorothy Alison, Toni Morrison, bem como um grande
número de livros de história da arte, estariam entre o material ofensivo.
O Conselho da Biblioteca decidiu que as obras
serão arquivadas até que a instituição redija um novo estatuto quanto ao que
pode e o que não pode oferecer a seu público.