Sierra Hahn não é apenas a bela namorada de Craig Thompson, com quem formava
um casal curioso nos passeios por Belo Horizonte e São Paulo. Ela é,
hoje, uma das principais editoras da Dark Horse, terceira maior
casa dos quadrinhos nos EUA, e responsável por projetos grandes como Umbrella Academy, Buffy: Season 8 e The
Goon.
Seu contato com
o Brasil é mais do que especial. Além de já ter trabalhado com artistas
como Will Conrad e Cliff Richards (os mineiros
Vilmar Conrado e Ricardo Fraga), atualmente é ela que - junto ao managing editor da Dark Horse, Scott Allie - cobra as páginas
de Fábio Moon e Gabriel Bá para projetos
como BPRD:
1947 e de Rafael Grampá e Daniel Pellizzari para Furry Water. E diz estar bem entusiasmada para levar
mais bons artistas brasileiros para os EUA.
A carreira de
Sierra (o nome vem da ascendência espanhola) nos quadrinhos começou
há cinco anos, no departamento de relações públicas da linha Vertigo, da DC Comics. A oportunidade na Dark Horse veio há três
anos. Pelo que revela na entrevista abaixo, sua principal habilidade
é descobrir novos talentos para a editora.
Ela ainda dá
várias dicas para quem quer entrar no mercado, fala sobre a cena de
quadrinhos em Portland (cidade sede da Dark Horse), Furry Water e por que aposta alto na HQ brasileira. Confira:
Como você
começou a trabalhar na Dark Horse?
Eu cresci próxima
a Portland, depois me mudei para Nova York para trabalhar na área editorial.
Queria muito ser editora, mas encontrei uma oportunidade na DC Comics
na parte de divulgação, promovendo os livros junto à imprensa. Aí
a Dark Horse começou a procura por um editor, me candidatei e acabei
conseguindo a vaga. Eu já havia conhecido Scott Allie uma vez em Nova
York, quando ainda trabalhava na Vertigo. Consegui fazer a transição
de RP para editora e fiquei muito empolgada.
E como você
conheceu a turma brasileira dos quadrinhos?
Scott Allie me
apresentou ao Gabriel [Bá] e ao Fábio [Moon]... Ele havia trabalhado
com Fábio em Sugar
Shock. E os gêmeos
já tinham um relacionamento com a Dark Horse porque haviam trabalhado
com [a editora] Diana Schutz fazendo o álbum De:Tales.
Quanto ao trabalho
de Rafael Grampá, encontrei na Internet, no blog dele. Sabia que Mesmo Delivery ia sair em San Diego, então pedi ao Gabriel para
me apresentar, porque havia gostado muito da arte. Comprei um exemplar
e aí comecei a perseguir ele, dizendo: "você tem que trabalhar
comigo, nós temos que fazer um projeto juntos!". E deu certo.
Estou bem empolgada com Furry Water.
Faz parte do
seu trabalho procurar artistas pelo mundo, consultando blogs, da mesma
forma como chegou ao Grampá?
Sim, fico olhando
blogs a todo momento. Recomendo a todo artista ter um blog ou algum
tipo de presença online. Fico em Portland, Oregon, que é uma cidade
pequena. Lá, temos muitos bons artistas de quadrinhos, mas é sempre
legal olhar para fora do seu próprio umbigo. A melhor maneira de fazer
isso é online ou em convenções. Aí eu vou, por exemplo, no blog
do Fabio e do Gabriel, eles têm links dos amigos e então saio clicando
e acessando todos... Já encontrei ótimos talentos assim.
Ivan Brandon
comentou que Portland é uma cena pulsante
dos quadrinhos, em nível mundial. O que
vocês têm lá para que isso aconteça?
Não sei bem...
Bom, temos a Dark Horse, a Top Shelf e a Oni Press, três ótimas editoras
independentes. Alguns festivais também, como o Stumptown Comics Fest.
Muitas lojas de quadrinhos, que ficam abertas até tarde e promovem
festas, então as pessoas podem vir e comer, beber, conversar, trocar
ideias. Alguns dos grandes quadrinistas e artistas estão em Portland.
Brian Michael Bendis está lá, Joe Sacco... Mike Mignola também morava
lá.
Bom, é simplesmente
uma ótima comunidade de quadrinistas. E a cidade nos apoia, o que é
algo difícil de encontrar. Temos um mês dos quadrinhos, quando a cidade
ajuda a patrocinar vários eventos e coisas do tipo. Eu não sei exatamente
porque todos acabaram lá, mas acho que o custo de vida também é bom.
As pessoas podem vir e ter uma boa casa e trabalhar como artistas sem
ter muito, muito dinheiro, como em Nova York, onde você precisa de
muita grana para o básico.
É
sua primeira vez no Brasil, certo?
Sim.
Dos artistas
nacionais, você já conhece Moon, Bá, Grampá...
É, acho que sim. Rafael Albuquerque também é daqui? Conheço o trabalho
dele, mas não o conheço pessoalmente. Gosto muito, mas nunca conversamos.
Ah, Will Conrad e Cliff Richards! Cliff fez Buffy: A Caça-Vampiros e Will Conrad fez Serenity para nós. Trabalhei com eles nesses
dois projetos.
Você veio
aqui pensando em procurar outros artistas ou não estava nos seus planos?
Não era algo
planejado. Não acho legal eu chegar aqui e dizer "olha, sou editora,
venha me mostrar seu trabalho!". Estou observando mais discretamente
e quem sabe venha a descobrir algo desta maneira. Mas ainda é ótimo
quando as pessoas vêm me entregar seu material. É o único jeito que
tenho para ver o que está acontecendo, quando as pessoas me dão o
trabalho e eu posso levar pra casa e realmente absorver aquilo. É muito
difícil quando estou aqui e só tenho alguns minutos para olhar. Gosto
de passar um tempo com a obra e digeri-la, observar as abordagens, as
técnicas. É sempre bom ter algo para segurar e olhar.
Nas convenções,
como em San Diego, você ficava cercado por artistas, como aqui?
Bom... em San
Diego eles me pagam para ir [risos], então reservo tempo para me reunir
com os artistas e ver portfólios, conversar com eles sobre técnicas
e perspectivas. Encorajo as pessoas a terem blogs e me atualizarem sempre
que o trabalho for se desenvolvendo, porque é possível perceber potencial
num portfólio e sentir que aquilo vai crescer e melhorar. É ótimo
quando as pessoas me mandam coisas e aí vão me atualizando durante
o ano, porque novos projetos aparecem e aí já tenho a pessoa certa.
Mas às vezes não tenho, então pesquiso online e olho portfólios
para que possa contratá-los para algo específico.
Comenta-se
muito o destaque meteórico de Grampá, que levou a Furry Water. É uma ascensão inédita para o mercado brasileiro.
Como você percebe potencial num artista como Grampá para criar um
produto para o mercado americano?
A arte dele é
muito fantástica. Ele sabe contar uma história e faz isso de forma
única e cinematográfica. Tem tanta energia nas ilustrações, coisa
que eu não via há muito tempo. Acho que os jovens artistas começam
a aprender imitando os já consagrados e eu acho que essa é a melhor
maneira de começar. Mas o que vi no Grampá foi algo totalmente novo.
Como editora, foi muito empolgante ver algo assim, e queria fazer parte
disso.
Começamos a falar
sobre Furry Water e todas as ideias para a história me empolgavam.
É algo que eu gostaria de ler, de que eu gostaria de fazer parte, uma
experiência em quadrinhos que eu gostaria de ter. E espero que todos
concordem. Acho que a maioria dos leitores vai por causa das ilustrações,
mas depois que começarem a ler a história, que Grampá e Daniel Pellizzari
escreveram, vão se empolgar com ela, porque tem profundidade... Acho
que vai ser ótimo.
Você conheceu
o trabalho de Pellizzari como romancista?
Passei pouquíssimo
tempo com Daniel, mas ele é genial. Está sempre pensando, fazendo
associações. E ele traduz alguns dos meus autores preferidos, como
o David Foster Wallace. Mas adoraria ler o livro dele [Dedo Negro
com Unha, não publicado nos EUA]. Ele é tão articulado e poético
nos e-mails! [risos] E está fazendo um ótimo trabalho com a história.
Tantas ideias brilhantes sobre essas famílias que andam por Furry
Water, suas vidas nesse mundo pós-apocalíptico. E as relações
entre os irmãos, numa aventura louca, violenta, sangrenta. É muito
divertido.
Quantos edições
você já viu?
Estamos trabalhando
na primeira agora, mas já temos dois roteiros. Serão seis edições
no total, com 32 páginas de história, o que é fora do comum. A maioria
das histórias em quadrinhos tem 22 páginas. Demos mais espaço para
eles, o que normalmente ninguém conseguiria. Tive que brigar por isso,
mas a história era tão boa...
Eles que pediram?
Sim, Grampá e
Daniel pediram 32 páginas e eu tive que falar para a Dark Horse "vale
a pena pagar pelas páginas extras, vai ser muito bom!". Então
eles aprovaram.
Você tem
em mãos um projeto de antologia com autores brasileiros [a Inkshot], e ouvi você falando com eles que seria bom ter um
tema que conectasse as histórias. Você diria que com a abertura para
artistas brasileiros nos EUA, seria hora de publicar uma antologia
totalmente produzida por quadrinistas brasileiros lá fora?
Claro, com certeza
apoiaria isto. Em junho, fui a Portugal, e tanto aqui quanto lá vejo
um estilo muito diferente do que existe nos EUA. Gosto muito disso.
Gosto de ver algo novo, uma energia diferente, olhares diferentes. É
esse tipo de coisa que quero encontrar. Uma antologia é um ótimo recurso,
porque mostra bem a diversidade. Se você for a San Diego e tiver algo
assim para mostrar aos editores, é o melhor jeito de começar, para
que eles vejam tudo.
Eu normalmente
compro muitas antologias americanas, porque elas trazem vários cartunistas
jovens e emergentes. Como 24/7, organizada por Ivan Brandon.
Usei essa tantas vezes, me perguntando "Quem desenhou isso? Como
eu encontro essa pessoa?". Mas antologias não vendem muito bem
nos EUA. Eu estou editando uma chamada Dark Horse Presents, que
estava no MySpace, mas parece que não dá mais para ler no Brasil,
o que é terrível. Foi ótima porque me deu a oportunidade de procurar
novos talentos. Mas trata-se mais de cultivar novas relações do que
de fato ganhar dinheiro. É legal ter esses relacionamentos, mas é
difícil para a empresa manter algo assim, sem grana entrando.
Joe Quesada,
editor da Marvel, disse que gosta de ter ilustradores estrangeiros
trabalhando para a Marvel, mas nunca pediria a um escritor estrangeiro,
que não fala inglês, para trabalhar para a Marvel Comics, ou para
os quadrinhos americanos em geral. Você tem uma opinião diferente
ou concorda com ele?
No caso do Grampá,
por exemplo, Daniel [Pellizzari] traduz os roteiros. Acho que Grampá
tem tantas ideias incríveis, num fluxo constante, e deixar de trabalhar
com ele porque não fala inglês muito bem seria uma perda. Acho que
se alguém tem uma boa ideia e consegue articulá-la, em qualquer língua,
e dá um jeito de explicá-la para mim, não há motivos para eu
não trabalhar com essa pessoa.
E quanto a
diferenças culturais na história, isso afeta o trabalho feito para
o mercado americano?
Eu acho que é
complicado o público americano aderir a essas diferenças culturais,
mas a partir do momento que isso acontece eles gostam muito. Eu aprecio
essa experiência, fazer parte desse mundo. Conhecer o Gabriel, Fábio
e o Grampá e trabalhar tanto com eles, ver o quanto eles falam de São
Paulo e do Brasil e o quanto a cultura é uma influência e inspiração
para eles. É uma honra pra mim poder vir até aqui e ver isso de perto,
experimentar tudo isso. Semana que vem eu vou ao estúdio deles e estou
bastante empolgada.
O Omelete agradece
à simpatia de Sierra Hahn por nos conceder esta entrevista.