Tenho que confessar uma coisa. Quando comecei a Lá Fora (já faz um tempão), minha idéia era ler todos os gibis das principais editoras dos EUA e comentar aqui os destaques, fossem bons ou ruins. Claro que na época eu não achava isso uma idéia insana – ler gibi e chamar isso de trabalho? Putz, é um sonho.
Mas não, não é. É insanidade. São 40-50 revistas novas por semana, e eu nunca conseguia ler tudo. Primeiro porque, como jornalista e crítico, não dá para você passar a vida lendo só gibi – você tem que acompanhar as notícias, ler livros que não têm nada a ver com gibis, assistir filmes e seriados, ouvir música, saber o que está acontecendo no mundo; quadrinhos são cultura pop e têm que ser comparados ao resto da cultura pop, não só a outros quadrinhos.
Segundo porque, se eu ficar lendo só gibi novo, nunca vou dar conta de todos os clássicos dos quadrinhos que estão naquela eterna (e sempre crescente) "lista-cânone". Terceiro, porque estou ficando mais velho, mais cínico e cada vez com menos tempo.
Quarto e mais importante motivo: Não dá para agüentar todos os gibis. Na fase insana, eu me mantinha firme como Itto Ogami, lendo cada balão dos X-Men do Chris Claremont (das fases mais recentes), torcendo para chegar logo à última página – e lia até a última página, bem como a edição seguinte. Para depois escrever uma coluna dizendo que X-Treme X-Men era uma atrocidade impressa que só x-maníaco de carteirinha podia gostar.
Não dá certo, né? Melhor usar minha curta vida para ler bons gibis e minha pequena coluna para falar do que eu gosto. Para não ficar no "não li e não gostei", ainda dou uma folhada em tudo. A cada dois ou três meses pego uma Teen Titans, por exemplo, leio duas ou três páginas e, se não me convenceu, passo para outra coisa. E, claro, não vou desancar Teen Titans aqui só porque não fez meu gênero. De novo: Vida muito curta, melhor gastar tempo no que lhe faz bem. E recomendar para você as leituras que me parecem mais interessantes.
Dito isso, minha nova vida de leitor e crítico é bem mais sã. É questão de, semana a semana, escolher quais são os gibis mais importantes – as séries que eu gosto e as que ficam entre as mais vendidas/comentadas, para eu ter idéia do que o pessoal mais gosta. Nunca passa de uns 10 gibis por semana. O resto fica para quando sobrar tempo.
Esta semana, por exemplo. Tem Ambush Bug: Year None, início da minissérie cômica do Keith Giffen (ansioso para ler); mais uma edição de DMZ, apesar de eu preferir esperar para ler arcos completos; a segunda edição do James Robinson no Superman (ainda estou dando uma chance); Invincible em nova fase; início de War Heroes, minissérie do Mark Millar e do Tony Harris na Image (outra que me deixa ansioso - a Casa Branca explode na segunda página); Daredevil, que sempre vale a pena; Immortal Iron Fist com novo escritor; New Avengers com mais uma história secundária de Secret Invasion; a conclusão de Black Summer, de Warren Ellis (outra que me deixa ansioso); e o mega-evento Uncanny X-Men #500.
Minha vida sadia de leitor se completa quando compro os encadernados do que li de melhor nos gibizinhos. Aí é a hora de ler com mais atenção para os roteiros, para os desenhos e de ter o material com aquela qualidade gráfica impecável nas mãos (faz parte da experiência, afinal).
Enfim: não leio tudo, mas leio bem. Pode ter certeza que toda semana tem material legal. E você, que também acompanha os lançamentos lá fora, está lendo o quê?
SECRET INVASION x FINAL CRISIS
"Crossovers de Verão em Conflito" nas comic shops. Todo mundo já está careca de saber que Secret Invasion, da Marvel, vende mais. Mas isso quer dizer que Final Crisis, da DC, é ruim?
Antes de passar para a resposta, vale a pena entender como funcionam os mega-crossovers de verão. Eles são projetados como o ponto alto das vendas das editoras no ano. Envolvem a fina flor dos seus personagens em torno de algo esmagador. São coloridos, grandiosos e têm que agradar tantos tipos de fãs que acabam apelando para o lugar comum dos arrasa-quarteirão: Explosões, mortes, traições, mais explosões, planetas arrasados, universos destruídos, supernovas, explosões etc.
Some a isso editores-chefe que mudam de decisão em cima da hora sobre quais heróis podem aparecer, quais podem ou não podem morrer, como a saga deve acabar... e não tem escritor que consiga fazer trabalho legal nessas condições, nem desenhista com tempo para se dedicar às páginas.
Secret Invasion é um exemplo perfeito. Brian Michael Bendis é um escritor dez vezes melhor do que demonstra nas páginas da minissérie (tanto que suas histórias secundárias da saga, em New Avengers e Mighty Avengers, estão fantásticas), bem como Leinil Francis Yu é um desenhista espetacular que se limitou a um traço mais pobre para conseguir ficar dentro dos prazos. O trabalho deles é jogar um monte de super-heróis coloridos nas páginas e dar a impressão de que algo devastador vai mudar a vida deles – e limitam-se a fazer isso. É claro que vende que nem ingresso de filme do Batman.
Por que Final Crisis não é assim? Porque ela não funciona na mentalidade de crossover. A DC se arriscou muito colocando Grant Morrison no comando – ele até pode virar um escritor dos mais comerciais de vez em quando (JLA, New X-Men), mas um crossover é demais. Ele está mais preocupado em mostrar suas beautiful mad ideas do que em atulhar um quadrinho de uniformes colantes – e inclusive briga com os editores que tentam meter o bedelho.
Da mesma forma, o desenho pensado e detalhado de J.G. Jones tanto não combina com um crossover que ele teve que pedir ajuda de outro desenhista para tentar manter os prazos. Há uma seqüência no Japão no início de Final Crisis 2, por exemplo, que é um primor de roteiro e desenho, mas que tem um ritmo lento demais para os leitores que querem um evento de verão cheio de grandes emoções.
Final Crisis não é ruim. Muito pelo contrário – é uma bela saga DC da qual não se devia esperar emoções e lucros rápidos, mas sim uma leitura delicada do mais antigo universo de super-heróis do planeta. Em outras palavras, não é um crossover sazonal.
Secret Invasion também não é ruim. A idéia da conspiração Skrull é excepcional (embora lembre bastante o seriado Battlestar Galactica), e está sendo muito bem executada por Bendis. Pena que seja algo de fundo na minissérie, que está se mostrando uma seqüência de explosões e grandes batalhas entre heróis e vilões – o conteúdo batido e esperado dos crossovers de verão.
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