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Eles lutaram bastante, e
continuam decididos e dedicados a fazer seu próprio trabalho evoluir - ao mesmo
tempo contribuindo para um novo estágio de evolução do quadrinho brasileiro.
Fábio Moon e Gabriel Bá, os gêmeos quadrinhistas responsáveis
por 10 pãezinhos, falam aqui dos primeiros trabalhos,
das influências, do Novo Quadrinho Brasileiro e de São Paulo.
Os dois cursaram Artes Plásticas
(Fábio na FAAP, Gabriel na ECA/USP), e sempre estiveram envolvidos com artes
visuais. Fora os quadrinhos, Fábio já trabalhou com storyboards e direção
de arte em cinema e videoclips, em Nova Iorque e na Suíça. Gabriel já foi professor
- de História da Arte, como assistente, no ensino médio, e na Fábrica de Quadrinhos.
Hoje ambos dedicam-se inteiramente às HQs e à ilustração.
O Omelete agradece à dupla
pela excelente entrevista.
Há quanto tempo vocês trabalham
com quadrinhos, e no que trabalham atualmente (seja em HQs ou além)?
Somos de São Paulo, capital,
e sempre moramos por aqui mesmo. Nascemos em 1976 e trabalhamos com quadrinhos
desde 1993. O começo foi em fanzine, mas sempre levamos nosso esforço
a sério, não importa a publicação.
Atualmente, estamos produzindo
novas HQs, fazendo ilustrações para revistas infantis (na revista Recreio,
da editora Abril) e, eventualmente, fazendo storyboards de propaganda.
Como e quando surgiu o 10
pãezinhos?
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O 10 pãezinhos surgiu
em 1997 da nossa vontade incontrolável de fazer HQ. Não ter editora para publicar
simplesmente não era desculpa para não produzir, então fizemos em fanzine. Vendíamos
a R$ 0,50 (cinqüenta centavos) para ninguém ter cara de reclamar que
estava caro (você vê os fanzines por aí e eles chegam a custar R$5,00) e, na
semana seguinte, chegávamos com outro número pronto. Essa periodicidade semanal
criou uma vontade nas pessoas de querer ver o nosso trabalho, pois o fanzine
tornou-se algo cotidiano na vida delas. Quando não havia fanzine, a moçada sentia
falta.
No meio de 1997, decidimos
ampliar o esquema do fanzine, que até então era vendido principalmente na faculdade
(ECA e FAAP). Mostramos nosso trabalho na Devir [comics shop paulistana] e,
a partir de Agosto de 1997, passamos a deixar um reparte de exemplares na loja,
o que acarretou um público leitor oriundo de várias partes do país. Recebemos
cartas da Bahia, de Santa Catarina, de Minas e vários outros lugares do Brasil,
graças à iniciativa de colocar o fanzine na Devir. Nessa época, a história em
produção era O girassol e a lua, que, em 2000, foi publicada em
livro pela Via Lettera.
Em 1998 o fanzine entrou
em hibernação, sobrevivendo apenas de constantes pedidos pelo correio dos números
correspondentes ao Girassol, que duraram por mais de dois anos.
Em 2000, tomados pelo entusiasmo
da publicação de O girassol e a lua em livro e ávidos pela oportunidade
de mostrar nosso trabalho para novas pessoas, voltamos a produzir o fanzine,
que, desta vez, passou a ser vendido também nos bares e lugares que freqüentávamos.
Ainda a R$ 0,50, produzimos mais dezessete números, dos quais dez continham
a história Meu coração, não sei por que. A produção de 97/98,
unida à produção de 2000, nos renderam o prêmio HQ Mix de melhor fanzine em
2000.
Há alguma possibilidade
de edições/histórias passadas do 10 pãezinhos virarem álbuns? Há novas
histórias em produção (além das contribuições em coletâneas) para álbuns só
de vocês?
Temos muita vontade de compilar
o material antigo do fanzine em um álbum contendo as histórias, alguns editoriais
e as tiras do NAM, mas ainda não deu tempo de reunir todo o material.
Mas está nos planos. Quanto novas histórias, estamos sempre produzindo HQs e
pensando em novos projetos além daqueles que aparecem no FRONT
e álbuns do tipo, e freqüentemente mostramos um pouco do que estamos produzindo
no nosso site (http://sites.uol.com.br/10paezinhos/).
Falem mais da exposição.
Quem convidou vocês?
É
uma exposição organizada pelo Instituto de la Juventud de Madrid. No
ano passado, fizeram uma exposição sobre o Quadrinho Argentino e este ano é
sobre o Novo
Quadrinho Brasileiro. O encarregado pela exposição
no Brasil é o Kipper,
que escolheu os artistas e está fazendo a intermediação entre nós e os
espanhóis.
Quem é e o que define o
Novo Quadrinho Brasileiro?
É só um nome para juntar
a nova safra de quadrinhos que vem sendo publicada no Brasil. No entanto,
é uma reunião bem ampla de artistas, tendo em vista um limbo de produção que
assolou o início da década de noventa. Tem gente do país todo, numa faixa bem
larga de idades e estilos. Só ficam de fora os clássicos, acho eu.
Já houve algum pedido de
publicação de O girassol e a lua ou Meu coração, não sei por que nos
Estados Unidos ou na Europa? Vocês fazem alguma divulgação destes trabalhos
para mercados estrangeiros? Ou farão somente a partir da exposição na Espanha?
Já faz cinco anos que nós
vamos à Convenção de Quadrinhos (ComicCon) de San Diego e sempre levamos
nosso material pra mostrar e divulgar. Ainda não tivemos nenhuma oferta concreta
de trabalho, mas estamos lutando para produzir nossas próprias historias em
outros mercados, alem de trabalhar com outros profissionais.
Logo após a primeira fase
do 10 pãezinhos, vocês tiveram uma experiência com o mercado norte-americano
trabalhando em ROLAND, com Shane Amaya. Como foi esse lance? Ainda há
pedidos de trabalho do estrangeiro?
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Roland, days
of wrath
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O Shane foi muito importante
na evolução do nosso trabalho, pois o projeto do ROLAND era grande
e elaborado. Ele havia feito muita pesquisa e dedicou muito tempo e esforço
às revistas, alavancando o nosso profissionalismo para um novo patamar. É uma
ótima história e abriu varias portas, tanto no exterior quanto aqui no Brasil.
Temos muito orgulho deste projeto e estamos trabalhando na tradução para, dentro
em breve, publicar aqui no Brasil.
Fora os contos na FRONT
e algumas contribuições para a Revista da MTV há um ano, vocês têm feito
algo mais na área de quadrinhos?
No ano passado
participamos do álbum da Fábrica
de Quadrinhos e
estamos novamente colaborando com o novo álbum que está sendo produzido. Participamos
do livro Dez na Área, um na banheira e ninguém no gol, publicado
também pela Via Lettera, com uma HQ de 10 páginas chamada A jogada,
sobre a magia do futebol brasileiro e do craque. Fizemos uma história de seis
páginas para uma exposição sobre o Novo Quadrinho Brasileiro, que acontecerá
na Espanha em dezembro deste ano.
Além disso, continuamos
fazendo várias histórias e tocando nossos projetos pessoais. Não se pode esperar
ter uma revista que publique seu trabalho para só então fazê-lo. É preciso sempre
produzir coisas novas. Não se pode ficar parado.
É perceptível no trabalho,
e vocês manifestam no site, o apreço pelo uso de cores. Vocês só tiveram oportunidade
de colorir algumas histórias curtas. A maior parte ainda é em preto-e-branco.
Nenhuma perspectiva de um álbum solo e colorido em breve?
As cores adicionam novas
possibilidades gráficas e narrativas, mas uma historia colorida não é necessariamente
melhor do que uma preto-e-branco. Assim como todas as técnicas, somente usamos
a cor quando ela ACRESCENTA algo à história que esta sendo contada. Se não precisar
ser colorida, não será. Se precisar, então pensemos em algo que fique melhor
em cores.
Nossos planos de publicações
coloridas com a Via Lettera, por enquanto, resumem-se a uma palavra: ROLAND.
Noto uma
grande preocupação no trabalho de vocês em explorar as capacidades narrativas
dos quadrinhos. Em É tarde para café,
na FRONT
9, por exemplo, há todo um transcorrer lento da história
evidente na diagramação. É algo que vocês exploram conscientemente e em que
buscam se superar? Quais são as referências ou influências em narrativa que
utilizam?
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Existem varias maneiras
de se contar uma história em quadrinhos, vários artifícios para facilitar o
modo como o autor coloca as informações na página. Uma delas é a narrativa em
terceira pessoa, usada em recordatórios, aqueles retângulos com texto
que conta muito mais do que a imagem mostra. É muito usado em histórias policiais,
introspectivas, onde há muito pra ser dito sem a necessidade de imagens, pois
há muita descrição no texto. O recordatório também é muito usado para mostrar
o que certa personagem está pensando, ao invés de usar o balão de pensamento
padrão. Nestes dois casos, você tem muita informação que não está na imagem,
enche muito mais o leitor de informações para entender sua história. No caso
do É tarde para café, nós não queríamos que isso acontecesse, pois
tínhamos uma história que se baseava em diálogos e olhares. Então, quando uma
personagem está pensando, o quadrinho não tem fala nenhuma e o desenho tem que
dar conta do recado.
Falando em influências,
é notável em O girassol e a lua como o traço do Moon lembra Mike Mignola
e P. Craig Russel. Bá parece preferir um estilo de animação, e o trabalho de
luz e sombra lembra Brian Bendis. Quais são os autores que realmente influenciaram
o trabalho de vocês?
Aqueles créditos de O
girassol e a lua estão invertidos. Então, o que fala que o Bá desenhou,
foi o Fábio e vice-versa. Portanto, temos os dois influência de artistas que
trabalham com muita luz e sombra, como o Mignola ou o Frank Miller, ou até o
Tim Sale e o Jeff Smith. O Fábio tem uma forte influência do Will
Eisner e do Terry Moore, dois mestres em desenhar pessoas de verdade,
e gosta muito da forma como Neil Gaiman conta suas historias (principalmente
em seus livros). Mas, indubitavelmente, uma das maiores influências no nosso
trabalho é o Laerte, em todos os aspectos possíveis.
Ilustração
da dupla para a revista Recreio
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Falem mais sobre a influência
do Laerte. Foi ele que definiu esse aspecto de brasilidade (ou paulistanidade)
dos quadrinhos nacionais, bastante presente nos trabalhos de vocês?
O Laerte transforma tudo
o que vê em história. Ele é o Midas brasileiro dos quadrinhos. E mora em São
Paulo. Daí, tudo o que é paulistano vira história do Laerte. O rio Tietê, os
viadutos, o trânsito, até o gosto por pizza (e isso não quer dizer que não exista
pizza fora de São Paulo, mesmo com todos os cariocas comendo pizza com catchup,
mas é que a variedade e a tradição de comer pizza é algo tipicamente paulistano).
A maior influência do Laerte
no nosso trabalho é a de trazer o universo que nos rodeia para as nossas histórias.
Acontece de sermos também de São Paulo, de termos crescido e morado a vida toda
aqui e de termos lido muita história do Laerte quando éramos crianças.
Em Outras palavras
(FRONT 10), como em É tarde para café, parece haver um gosto,
além do tema da história, pela exploração da cidade e do ambiente urbano. É
algo consciente? O que vocês buscam?
Grandes cidades existem
em camadas. Camadas arquitetônicas, camadas sociais. São Paulo, como uma das
maiores cidades do mundo, só pode ser definida por sua pluralidade, sua complexidade.
Assim como as grandes cidades,
também as pessoas existem em camadas, não são sempre apenas superficiais, possuem
vários aspectos e características que as compõem no que elas verdadeiramente
são.
A complexidade da cidade
é sempre uma boa metáfora para se pensar a complexidade do ser humano e, neste
aspecto, tentamos usar este elemento urbano de nossas histórias como uma constante
busca pelas pessoas, pois, principalmente em uma cidade abarrotada de gente,
buscar uma pessoa que te entenda pode ser muito difícil. Muitas pessoas, na
cidade, se sentem sozinhas.
Sobre A jogada
(Dez na área...): como foi a receptividade da história? E como vocês
vêem a receptividade do álbum, no geral? No país do futebol, está surgindo
uma nova safra de quadrinhistas, e ela está bem representada ali - por juntar
esses dois aspectos, Dez na Área... não deveria ter uma repercussão muito
maior?
Estamos muito orgulhosos
pela nossa história de futebol, com uma sensação de desafio vencido. Vários
desafios, na verdade. Queríamos refletir a grandeza do esporte, a beleza de
uma jogada de craque e a poesia inserida no imaginário das pessoas sobre a mágica
do futebol brasileiro. Além disso, fazer uma história colorida (e bem colorida)
não é tão fácil quanto algumas pessoas pensam. Talvez para o Lelis seja fácil,
mas muita cor acaba atrapalhando a história, e pensamos essa história para funcionar
com cor. E funcionou.
Agora, não dá para se iludir
achando que, só porque é um livro de futebol, vai vender milhões. O tema ajuda,
termos vencido a Copa ajuda, mas ainda assim é um livro. De quadrinhos. Colorido.
Tudo isso influencia os caminhos por onde esse livro vai passar até chegar aos
olhos do leitor. Não espere que o fã de futebol vá até a banca para comprar
o pôster da copa por R$2,00 e compre também o livro por trinta e tantos reais.
Espero que o Penta ajude
a manter o livro bem à vista nas livrarias, mas daí de comprar o livro fica
a cargo dos leitores. Como sempre.