Eu
não me lembro bem da ordem dos acontecimentos, mas, em meados da década
de 80, este humilde escrivinhador ainda era tradutor da Divisão Infanto-Juvenil
da Editora Abril Ltda., mais precisamente da Redação de Quadrinhos
Nacionais e Estrangeiros. Nem me passava pela cabeça, montar o Estúdio
Artecomix (posteriormente Art & Comics e atual Mythos Editora)
com Helcio de Carvalho. No entanto, muitas novidades já se faziam
anunciar nas HQs. Editoras independentes, como a First, a Eclipse
e outras, estavam descobrindo as vantagens de se trabalhar com vendas diretas
e, pouco a pouco, introduziam o conceito de HQ de autor e respeito aos direitos
destes – noções, até então, tidas como européias
demais para o mercado americano. De forma vigorosa, injetava-se novo ânimo
no meio e as HQs americanas começavam a apresentar significativas reviravoltas
artísticas. Até mesmo as duas grandes estavam se dando conta dos
novos ventos. Em 1984, a Marvel Comics lançou um ovo podre chamado
Secret Wars, o Plan 9 From Outer Space dos quadrinhos. Apesar
de abaixo da crítica, essa mini-série deixava claro que a editora
pretendia partir pras cabeças. Era o início de uma década
de crossovers. A DC não fez por menos e publicou, no ano seguinte,
a até hoje definitiva Crisis on infinite Earths. No entanto,
ainda faltava o agente catalisador, aquele algo mais destinado a virar de ponta
cabeça o mercado de comics no mundo todo e servir como divisor de águas
na história das HQs.
No
final de 1985, comecinho de 1986, já se ouvia um zum-zum-zum interessante.
Frank Miller, já famoso pela revista Daredevil da Marvel,
havia sido contratado com ares de superstar pela DC Comics para realizar alguns
projetos especiais. O primeiro fruto dessa investida foi Ronin
em julho de 1983. Foram seis edições bimestrais num formato especial
em que Miller teve liberdade total de criação, desde a proposta
do tema até os recursos finais de acabamento gráfico. Na época,
ele aproveitou a carta branca para experimentar várias tendências
e técnicas de artistas e roteiristas que já faziam sua cabeça.
Foi beber em fontes européias, sul-americanas e japonesas. O resultado
foi bem recebido pelo público, mas estava longe da descarga de adrenalina
que haviam sido seus quatro anos no Demolidor. Em todo caso, o homem
estava apenas esquentando os motores, fazendo experimentos; em suma, preparando-se
pro grande evento. E, na época, o grande evento seria... um projeto especial
envolvendo Batman.
Aqui, no Brasil,
na Redação de Quadrinhos Nacionais e Estrangeiros da Editora Abril
Ltda., as notícias foram chegando aos poucos. Cada detalhe do projeto
revelava-se a conta-gotas. Primeiro, achamos que Miller assumiria a revista
mensal da personagem. Só depois ficou claro que se tratava de uma mini-série.
Mesmo assim, ninguém poderia imaginar que graficamente a coisa seria
tão diferente do convencional. Nós já havíamos cancelado
nossa primeira série do Homem-Morcego, mas os boatos avivaram a idéia
de um relançamento.
A notícia
de Miller na DC Comics tinha uma importância estratégica para nós
da redação. O universo dessa editora havia se integrado ao rol
de publicações da Abril em 1984, mas, apesar de todos os nossos
esforços, ainda continuava ofuscado pelo brilho da Marvel. Nossa primeira
idéia, ao sabermos da novidade, foi a de usar as novas histórias
abrindo uma segunda série em formatinho do herói. Como eu disse,
não tínhamos a menor noção do que estava por vir.
Além do mais, em 1985, qualquer outro formato estava fora de cogitação.
Hoje, o que eu
estou dizendo pode parecer esquisito dada a enxurrada de especiais, mini-séries
e coisas do gênero no formato americano. Até Rob Liefeld tem
publicações luxuosas. Mas, na época, o tamanho 17 X 26
era puro devaneio. E gibis de Super-Heróis não tinham a bola toda
que têm hoje. A idéia de Quadrinhos Adultos era motivo de riso.
Para a Abril daqueles tempos - ainda que redatores como o Helcio discordassem
- qualquer gibi era tratado de uma mesma maneira padronizada e homogênea.
A filosofia vigente rezava que era coisa de criança ou pré-adolescente.
Super-Heróis, quaisquer que fossem, deveriam ter o mesmo tratamento que
a Turma da Mônica ou os quadrinhos Disney. Para se ter uma
idéia, a mesma redação que gerenciava as publicações
de Mônica, Hanna Barbera, Luluzinha e Gordo e o Magro era
a que cuidava de publicar os Super-Heróis Marvel e DC. Evidentemente,
editores como Hélcio, Kazu Kurita, Nilton Sperb e Décio
Trujillo não comungavam dessa cartilha e tentavam diferenciar tais
publicações das outras, mas, nas decisões de alto nível,
eles jamais eram consultados.
Mas voltando à
vaca quente... Com a chegada de mais informações, a empolgação
de início começou a azedar e virou frustração. Pouco
a pouco, fomos nos dando conta do que realmente seria o projeto de Miller para
o Batman. Quatro edições de quarenta e oito páginas, num
formato de luxo inédito que se chamaria Prestige, em papel
de primeira qualidade, com todos os requintes gráficos que todo fã
de quadrinho sempre sonhou, mas, até então, nunca tinha tido.
A mesma carta branca de Ronin agora seria empregada para virar de cabeça
para baixo o Cruzado de Capa. Paradoxalmente, a pompa e circunstância
do lançamento que hoje deixaria qualquer editor HQ lambendo os beiços,
para nós, da redação, foi como uma ducha de água
fria. Claro que seria maravilhoso tamanho banquete de HQ, mas, diante das circunstâncias,
jamais seria editado aqui. Não nas condições em que trabalhávamos.
E, se na época, a Abril não publicasse, ninguém mais o
faria. Não havia concorrência.
No entanto, o oba-oba
em cima da publicação mudou todo o panorama. A obra de Miller,
antes mesmo de ser lançada, começou a atrair a atenção
de gente que nunca tinha lido gibi. Como um furacão, foi invadindo todas
as mídias, ganhando páginas de jornais, sendo comentada na TV
e na rádios. De uma hora pra outra, todo mundo falava do novo Batman.
No meu entender, o que deixou claro que o projeto tinha caído nas graças
da mídia foi a famosa entrevista de Miller à revista Rolling
Stone. Muita gente da imprensa, que jamais olharia de relance para um
gibi, começou, então, a se interessar por aquele Homem-Morcego
“diferente” que a DC Comics estava prestes a lançar.
Quando finalmente,
a mini-série chegou à mão dos leitores, o resultado superou
exponencialmente as expectativas. Eu me lembro do momento em que li a primeira
edição. Como muitos outros privilegiados, a redação
recebeu uma cópia xerox da arte-final antes da colorização
de Lynn Varley. Estava em cima da mesa do Helcio, tinha acabado de chegar.
Eu fiquei magnetizado. Comecei a ler ali mesmo e não consegui parar até
chegar à última página. Lá estava a síntese
de cinqüenta anos de Homem-Morcego com o toque pessoal de Frank Miller.
A trama enxuta, a legião de coadjuvantes, cada um com sua história
para contar, a Gotham City feita personagem, a televisão massificada
como espelho da opinião pública, o viés político,
o silêncio polêmico do Cavaleiro das Trevas, o Super-Homem definitivo,
o mito reduzido a seus componentes básicos, enfim, tudo confirmava que
Frank Miller havia encontrado a pedra filosofal do Batman, procurada, desde
a década de 70 por roteiristas e desenhistas como Neal Adams,
Dick Giordano, Denny O’Neil, Frank Robbins e Marshall
Rogers. Todos esses tinham vislumbrado o Eldorado. Apenas Miller o encontrara.
Era a maior história em quadrinhos que eu já havia lido. E o melhor
de tudo: EU É QUE IA TRADUZIR.
Mas estou pondo
o carro na frente dos Bois. Falta contar como se decidiu publicar Batman
– o cavaleiro das trevas no Brasil. Para tanto, duas coisas garantiram
as condições necessários. A primeira delas de caráter
apenas cosmético. O Homem-Morcego de Frank Miller foi primeira página
do recém-lançado Caderno 2 do Estado de São
Paulo, merecendo grande destaque nas suas páginas internas. O design
gráfico daquela edição acabou conferindo prêmios
ao Estadão. O artigo, em meio a um amontoado de clippings, passou de
mão em mão entre a diretoria da Abril. Aleluia! Estava virando
questão de honra a publicação daquele material, mesmo que
só pelo prestígio.
Outro fator que
colaborou - este muito mais importante e decisivo - chamou-se Plano Cruzado.
O ano de 1986 presenciou uma bolha de consumo como havia muito não se
via no Brasil. As revistas deram saltos gigantescos de venda e todas as editoras
se viram animadas a lançar mais títulos e aumentar tiragens. O
projeto que parecia inviável no início do ano ganhava contornos
mais factíveis.
Em início
de 1987, chegava às bancas a primeira edição de Batman
– o cavaleiro das trevas, a versão nacional de Batman: The
Dark Knight Returns. Eu e Helcio de Carvalho tivemos o privilégio
de traduzir a obra. Foi nosso último trabalho juntos como funcionários
da Abril antes de montarmos o Artecomix. A apresentação gráfica
do miolo não deixava nada a desejar ao original, mas a velha ordem acabou
interferindo em outros aspectos. Em vez da lombada quadrada e da capa acartonada
do formato prestige americano, tivemos lombada canoa e um papel de ótima
qualidade, mas gramatura inferior. Todavia o que a redação de
Quadrinhos Nacionais e Estrangeiros tentou mesmo evitar, sem sucesso, foi o
emprego de outras capas novas que não as originais - consideradas “inadequadas”
para as bancas brasileiras. Na época, e até alguns anos depois,
havia, na editora, uma redação incumbida apenas de produzir as
capas para todas as revistas da Divisão Infanto Juvenil. Os conceitos
aplicados para uma capa de Bolinha e de Mickey eram os mesmos
a serem observados para uma de Homem-Aranha. Daí, a profusão
de capas de triste memória que povoaram as bancas durante anos.
Mas, entre mortos
e feridos, Batman: O Cavaleiro das Trevas havia ganho as bancas de todo
o país e as coisas jamais foram as mesmas.
De início,
a resposta de vendas superou todas as expectativas. E não se tratou apenas
de algo quantitativo, mas também qualitativo. Uma pesquisa realizada
na época mostrou que universitários e profissionais liberais -
leitores mais velhos do que os habituais fãs de quadrinhos - haviam devorado
a publicação. Gente que nunca tinha lido HQs e outros que abandonaram
os gibis aos 14 anos estavam extasiados com aquele material e queriam mais.
Um nicho de mercado, até então ignorado, tornou-se evidente da
noite para o dia.
Batman, o cavaleiro
das trevas passou a ser exemplo citado para justificar a publicação
de novos títulos voltados para um mercado mais maduro. Ele abriu portas
para todas as publicações especiais da Abril desde então
e indiretamente para todos os títulos de maior qualidade gráfica
lançados por outras editoras.
Pouco tempo depois,
veio Watchmen
de Alan Moore e o conceito de publicações de luxo estava
firmado no mercado de HQs do Brasil. A Abril chegou a ter uma redação
só para Quadrinhos Adultos e, em 1990, a Globo - antiga Rio
Gráfica Editora - sentiu-se estimulada a voltar ao mercado de HQs,
lançando uma linha memorável de produtos luxuosos.
E, se hoje, podemos
ler Do
Inferno de Alan Moore, Último dia no Vietnã
de Will Eisner, Sandman
de Neil Gaiman e outros títulos de primeira linha em português,
devemos isso a Frank Miller e a seu Cavaleiro das Trevas.