Há
dois pontos que considero fundamentais na mini-série Batman: o cavaleiro
das trevas de Frank Miller - que está completando quinze
anos de seu lançamento no Brasil. O primeiro diz respeito ao próprio
Homem-Morcego e o segundo a outra peça-chave da trama, o Super-Homem.
Para muitos, Frank Miller foi o primeiro a apresentar um Batman angustiado
e amargurado por crises existenciais, ao passo que retratou o Homem de Aço
como um covarde puxa-saco dos poderosos. Esta aí algo de que eu não
poderia discordar mais.
Dizer que Frank
Miller foi o primeiro a introduzir, no mito do herói criado por Bill
Finger e Bob Kane, o drama dos conflitos psicológicos, é
um equívoco que só quem não conhece a personagem pode cometer.
Miller não teve esse mérito, simplesmente porque chegou tarde.
Dezesseis anos antes, a reformulação encabeçada por Denny
ONeil, Dick Giordano, Neal Adams e Jim Aparo,
levou a deprê à Batcaverna, acrescentando ao mito um arsenal de
angústias e tormentos bem ao estilo Marvel.
Mas
o equívoco não para aí. Miller jamais retratou o Cruzado
de Capa remoído por angústias dramáticas, sentimentos de
culpa e conflitos emocionais. Ao contrário, sempre achou meio ridícula
essa coisa da personagem questionar o que faz. Para ele, um herói é
uma força elemental, um ser mítico que não vive pedindo
desculpas por ser como é. Nós, reles mortais, é que padecemos
disso.
Levar conflitos
emocionais a super-heróis é uma faca de dois gumes. Quando feito
com moderação, produz resultados interessantes. É o caso
das primeiras aventuras do Aranha ou do Thor de Jack Kirby.
No entanto, rapidamente, torna-se redundante e patético. Vide a agonia
mensal e obrigatória dos mutantes da Marvel. Até alguns anos atrás,
só o X-Factor escapava desse tormento. Bastou Peter David
deixar o título para humor e a ação serem postos de lado
pelo dramalhão a la novela das oito.
Pouco antes do
furacão O cavaleiro das trevas, Batman vinha amargando uma das
suas fases mais lacrimogêneas. Carregando nas tintas, Doug Moench
tentava ressaltar o lado humano do herói. Isso elevou insuportavelmente
o teor de psicologia de botequim nas revistas.
A mexicanização
da narrativa é uma muleta muito sedutora pro roteirista, ainda que haja
o risco de transformar uma aventura num tratado de emoções humanas.
E o que é pior... escrito por gente não qualificada. Exemplos
dessa técnica são os dois primeiros filmes do Batman
- porres homéricos de obviedades psicologizantes - e a excrescência
que foi a Queda do Morcego.
Miller
poupou seu Batman dessa aporrinhação. Na mini-série, o
protagonista não tem conflitos emocionais - se tem, não demonstra
-, não é amargurado por dúvidas existenciais ou angústia
atrozes. Em suma, não se sente culpado pelo que faz. Muito pelo contrário.
Está de bem com a vida. Ou melhor, como dizem os americanos, é
maior do que a vida. Ele adora combater o crime e jamais questiona seus métodos
e propósitos. Dane-se se o resto do mundo não concorda.
Se há discussão
e polêmica quanto aos méritos e motivações do Batman,
Miller as projeta para fora da personagem. É a própria população
perplexa, por meio da televisão, que discute e tenta explicar o fenômeno.
Não quero
dizer com isso que a mini-série esqueça a temática psicológica.
Miller apenas não se vale dela como muleta. A angústia está
presente, mas apenas nas primeiras páginas para provar que Bruce Wayne
é um ser sem existência própria. Ele é retratado
como um homem atormentado, escondendo-se atrás da bebida e de uma vida
de excessos. No entanto, quando cede lugar definitivamente ao Batman, toda e
qualquer dor psíquica desaparece. Nas páginas restantes da mini-série,
não se vê uma gota sequer de reticência, sentimento de culpa,
dúvida moral e outros ingredientes tão comuns na galeria infindável
de heróis humanos.
Todo roteirista
que, inspirado em Miller, decidiu seguir por esse caminho se deu bem. Uma das
fases mais agradáveis de Batman em Detective Comics foram as primeiras
histórias de Alan Grant e Norm Breyfogle. Nelas, a trama
se fundamenta nas proezas da personagem, não nos seus dramas pessoais.
Outro exemplo de bom resultado são os desenhos animados do herói
de Paul Dini e Bruce Timm. A tônica da série está
na ação e no clima sombrio. Os psicologismos têm apenas
papel secundário.
Quanto
ao Super-Homem ser um covarde que se vendeu à Casa Branca e ao Pentágono,
o equívoco é ainda maior. Na verdade, é o Batman que pensa
assim. E nós, leitores, sugestionáveis que somos, deixamo-nos
levar pelas mesmas idéias. Entretanto, apesar do Homem-Morcego acreditar
que está sempre certo, não vamos nos iludir achando que ele realmente
tenha razão o tempo todo. Para um homem que, através do combate
ao crime, tenta forçar o mundo a fazer sentido, é de se esperar
que a atitude do Homem de Aço pareça desprezível e covarde.
Eu prefiro pensar
que a postura do Homem de Aço tenham realmente a ver com o medo, mas
não aquele que brota da covardia e da falta de caráter e sim do
temor respeitoso e prudente que se deve ter por uma força reconhecidamente
superior. E que força seria essa capaz de atemorizar o ser mais poderoso
da Terra&qt& Miller responde a essa pergunta durante toda a sua mini-série.
É do próprio ser humano que Super-Homem tem medo, ou antes, da
sua insensatez, da sua intolerância e da ameaça que representa
a si mesmo e ao ambiente.
Clark reconhece
e respeita o potencial autodestrutivo da humanidade. Afinal, não somos
capazes de destruir a Terra várias vezes&qt& (Como se uma não bastasse).
Daí sua obediência ao governo. Não porque acredite
em propostas deste ou porque teme por si mesmo, mas por crer, tão intensamente
quanto Batman em seu próprio ponto de vista, que, ao se tornar uma arma
secreta do governo americano, estaria prevenindo uma desgraça maior.
Espera que, agindo assim, proteja a humanidade de si mesma.
Alan Moore
parece concordar com o Super-Homem quanto a essa ameaça. Em Watchmen,
somos levados a crer, a princípio, que o onipotente Dr. Manhattan
tem pleno controle da geopolítica mundial, neutralizando risco de autodestruição
nuclear do homem. Com o progredir da trama, vemos que a superioridade de Manhattan
é ilusória. Nem mesmo ele seria capaz de deter a beligerância
humana.
A terceira edição
de O cavaleiro das trevas vem provar que esse temor tinha sua razão
de ser, mas a estratégia empregada por Super-Homem era equivocada. A
explosão da superbomba atômica e o caos que se seguiu a ela não
deixa dúvidas de seu erro. Por sua vez, Batman também havia se
enganado. Nada que tenha feito durante toda a mini-série pôde impedir
esse desenlace fatal.
Gosto
de pensar - como o próprio Miller - que Super-Homem e Batman representam
dois lados opostos no universo dos super-heróis, a Luz e as Trevas.
Há uma patente diferença entre as posturas e estratégias
de ambos. O irônico antagonismo entre esses dois heróis míticos
é a maior riqueza da mini-série. Super-Homem, dotado da força
de um semideus, respeita e teme a estupidez humana. Sua perspectiva é
pessimista.
Por sua vez, Batman,
desprovido de superpoderes, é incauto, passional e impulsivo, dispondo-se
a arriscar tudo e todos. Otimista até o último momento, subestima
o verdadeiro inimigo, desafiando-o sempre de peito aberto.
Afinal, não
seriam esses ingredientes, tão presentes em ambos, a matéria prima
que compõe os grandes heróis&qt&