Já faz algum tempo que o Demolidor, um dos melhores personagens da Marvel Comics, não tinha uma saga digna do nome. Embora tenha seqüências que entraram para a história dos quadrinhos (principalmente as criadas pelo genial Frank Miller), o personagem, desde sua criação, sempre alternou aventuras brilhantes com longos períodos de estagnação.
E
foi para tirá-lo de um desses momentos de baixa que a Marvel chamou o
talentoso cineasta Kevin Smith - fã confessado de HQs - para escrever
o personagem. O resultado? Bem, isso é o que veremos agora.
Desde
já, vale a pena mencionar que, há muito, o Demolidor não tinha um arco de histórias
em que todas as facetas do personagem - o ser humano, o herói, o advogado e
até mesmo o católico praticante - fossem exploradas tão bem. Talvez desde a
lendária seqüência A Queda de Murdock (do mencionado Frank Miller). Não
bastasse isso, os personagens secundários também estão extremamente bem caracterizados.
Não apenas os personagens de apoio normais da série (Karen Page, Franklin
Nelson, etc.) mas também os personagens convidados (incluindo o Dr. Estranho,
a Viúva Negra e o Homem-Aranha) e os vilões. E quantos personagens interessantes
Smith consegue colocar na história! Só o retorno do Tucão, velho inimigo
do Demolidor, já será o bastante para aquecer o coração dos mais dedicados fãs
do Homem sem Medo.
A história em si também possui momentos brilhantes. O desenvolvimento no ritmo certo dá um clima de tensão crescente, preparando o leitor para as grande surpresas que vão surgindo. Não entrarei em detalhes para não estragar tudo aos poucos que ainda não leram, mas devo dizer que é uma leitura cativante do início ao fim.
Lamentavelmente,
nem tudo são flores. Talvez por ser novo na mídia dos quadrinhos (antes apenas
escrevera um punhado de HQs), Smith tem dois problemas: É demasiado apelativo
e verborrágico. Antes que seus fãs (grupo do qual, aliás, eu faço parte) resolvam
me crucificar, deixem-me explicar.
Smith
é apelativo pela desproporcional quantidade de situações sensacionalistas que
ele acumula em uma história de menos de 200 páginas. Não apenas a trama gira
em torno da aparição de um possível anticristo como, em poucos números, o Demolidor
lança um bebê do alto de um prédio (!), bate papo com o demônio
Mefisto, larga o emprego, vê amigos e entes queridos sofrerem o diabo
(e até morrerem) ao seu redor. Um pouco demais, talvez. Nem em Queda de Murdock
o herói passou por tanta coisa em tão pouco tempo. O clímax da história também
peca pelo excesso, mas é satisfatório.
Sobre
Smith ser verborrágico. Bem, seus balões de diálogo demonstram isso melhor do
que eu seria capaz de fazê-lo. Desde Chris Claremont eu não via um escritor
de HQs que escrevesse tal volume de palavras por página. Isto não é ruim por
si, mas quadrinhos são uma combinação entre palavras e imagens. Quando um dos
lados monopoliza o todo, o resultado final é enfraquecido.
Isso
me lembra que, até agora, eu ainda não mencionei o artista. Joe Quesada
é um artista bastante competente, mas com uma tendência a exagerar similar à
do seu escritor. Ainda assim (ou talvez por isso), a arte complementa perfeitamente
a história, sendo, facilmente, o melhor trabalho de Quesada até hoje. Perfeitamente
compreensível, pois a história, nos EUA, foi publicada com atrasos tremendos.
Mais tempo dedicado à arte resultou em um trabalho artístico superior...
E
qual o veredicto? Uma história sólida e de qualidade há muito não vista na série
do Demolidor, prejudicada pela tendência dos criadores de exagerarem em quase
tudo. Fosse mais contida, poderia ser a maior saga do personagem. Como está,
é apenas uma das melhores.