Crônicas Omeléticas Watchmen, melhor em quê, afinal?

Precisa mesmo de tamanho endeusamento?

Sabe uma coisa que me deixa profundamente irritado?

É ver Watchmen encabeçando qualquer lista dos melhores quadrinhos de todos os tempos que se faça no Brasil. Tudo bem, a história é mesmo excelente, mas acho que colocá-la – sempre! – no topo de qualquer lista é uma ignorância enorme. Há muitas outras obras que merecem mais destaque, algumas das quais até foram publicadas no Brasil. É possível que seja a melhor história de super-heróis já escrita, mas nem de longe isso significa que ela é A Melhor.

Para começar, melhor em que sentido? Formalmente? A estrutura da história? Os temas tratados? O desenvolvimento das personagens? A própria história? Raramente vejo essa pergunta respondida.

O próprio Alan Moore já escreveu histórias que, pelo menos, concorrem com Watchmen; Miracleman, V de Vingança e Do Inferno. Além de excelentes, são mais relevantes para um público mais amplo. Com exceção de Miracleman, todas essas histórias tratam de assuntos de interesse geral e são mais engajadas com os temas políticos e culturais da época em que foram escritas. V de Vingança falava de totalitarismo político e de um governo que não estava nem aí para a população quando Margaret Tatcher estava no poder, por exemplo.

Não vamos nos enganar: Watchmen só pode ser totalmente aproveitado por leitores que estejam familiarizados com as estruturas das histórias de super-heróis. A abordagem é tipicamente desconstrutivista; Moore analisa e desmonta todas as convenções do gênero. Para perceber a graça disso, é preciso conhecer esses clichês. Você já emprestou Watchmen para alguém que não gostou? Provavelmente a razão é essa.

Além disso – por conta dessa desconstrução – Watchmen mata a galinha dos ovos de ouro: é impossível levar os super-heróis a sério depois de lê-la. Ou, pelo menos, é necessário fazer grandes concessões, principalmente quando vamos ler as HQs da Marvel ou DC Comics, com suas séries infinitas e a inexistência de resolução real para qualquer conflito.

Quanto as aspectos formais – uso de metáforas e narrativas paralelas, por exemplo – Will Eisner já fazia isso em Spirit. Claro que, até então, os experimentos desse vetusto quadrinhista nunca tinham sido usados de forma tão intensa e efetiva. Mas, de lá pra cá, muita coisa foi feita. Já deu uma olhada em Big Numbers ou em Do Inferno? As duas deixam Watchmen para trás no uso desses mesmos elementos.

Concordo que Watchmen é perfeita – ou seja, não tem o que tirar nem pôr – mas dizer que é a melhor história de todas reflete uma visão muito limitada do potencial dos quadrinhos. É a mesma coisa que dizer que os quadrinhos são bons mesmo é para contar histórias de gente fantasiada lutando contra grandes ameaças.

E – de um jeito ou de outro – é exatamente o oposto do que Alan Moore tem tentado dizer desde – adivinhou... – Watchmen.

 
 


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