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O
início da trajetória dos vampiros nas histórias em quadrinhos americanas
Buffy, a
caça-vampiros |
Quem, hoje em dia,
vê o bom-vivant Cassidy levando a não-vida, em busca de Deus ao lado
de Jesse Custer em Preacher,
o Angel destruindo criaturas demoníacas, ou ainda Sarah Michelle-Gellar,
na pele de Buffy,
atrás de mortos-vivos em suas séries televisivas – e de quadrinhos – já adotou
a figura do vampiro como algo até corriqueiro. Afinal, todos sabemos o que é
um vampiro, em parte graças à sua popularização desde que Bram Stoker
criou o famoso Conde Drácula, em 1897.
O vampiro, segundo
o dicionário é “um cadáver reavivado que levanta do túmulo para sugar o sangue
dos vivos e assim reter a aparência da vida”, mas o que importa saber é que
o conceito foi definitivamente incorporado à cultura pop. A literatura, a televisão
e principalmente o cinema exploram há anos o mito, alterando-o a seu bel prazer.
Os quadrinhos, como parte da cultura de massa, não ficaram de fora e também
usam e abusam dos desmortos desde seu princípio.
SEDE
DE SANGUE DESDE AS PRIMEIRAS PÁGINAS
Dr. Oculto |
As
revistas em quadrinhos, como conhecemos hoje, surgiram e popularizaram-se na
década de 30. Já em seu berço, os gibis apresentaram sua primeira personagem
de caninos afiados no sexto número da revista More Fun da DC Comics.
Esse título trazia histórias seriadas do Dr. Oculto, um detetive fantasma
que lutava contra vilões sobrenaturais. Na tal edição, ele enfrentou o Vampiro
Mestre, vilão que foi derrotado e eliminado com uma punhalada no coração.
Pouco depois, em
1939, foi a vez de Batman ter seu primeiro encontro com um morto-vivo.
Nada de inesperado, uma vez que, segundo consta, Bob Kane e Bill Finger,
criadores do Homem-Morcego, usaram Drácula como uma de suas fontes de
inspiração. O confronto deu-se nas edições 31 e 32 de Detective Comics.
As décadas de trinta
e quarenta são tidas como a “Era de Ouro” dos quadrinhos, devido à expansão
que essa mídia experimentou no período, e ao surgimento de algumas das maiores
personagens de todos os tempos. Afinal, foi nesses anos que deram as caras Flash
Gordon, Fantasma, Popeye, Super-Homem, Dick Tracy, Mulher-Maravilha, Nick Holmes,
Sociedade da Justiça, Capitão América e Namor, além do próprio Batman e seu
parceiro Robin. O campo era fértil para os mais diversos gêneros e com a consolidação
das novas revistas, o terror pôde proliferar.
ENTRA
EM CENA A EC COMICS
Em
1948, o American Comics Group lançou o primeiro e um dos mais bem-sucedidos
títulos de horror, Adventures into the Unknown. Não tardou para os vampiros
tomaram conta da revista, de forma que, na década seguinte, não houve um número
sequer que não contivesse um deles em suas páginas.
Adventures into
the Unknown fez tanto sucesso, que logo gerou imitadores. A EC Comics
– com certeza uma das mais promissoras editoras de quadrinhos dos anos cinqüenta
– lançou Crypt of Horror, que mais tarde teve seu nome trocado para Tales
from the Crypt. Das mais cultuadas e reverenciadas da história dos quadrinhos,
a revista foi o maior sucesso da EC, tendo gerado, décadas depois, uma série
televisiva de mesmo nome.
Aproveitando
o sucesso de Tales..., a editora lançou mais duas publicações: Haunt
of Fear e Vault of Horror. Entre 1950 e 1954, mais de cinqüenta títulos
voltados para o terror repletos de sugadores de sangue pipocaram nas mais diversas
editoras americanas. Dentre os mais importantes, destacam-se Suspense Comics
(1950/53), Mystic (1951/57) e Journey into the Unknown (1951/57),
da Atlas Comics, que, na década seguinte, tiraria os super-Heróis do ostracismo
ao adotar o nome de Marvel Comics.
Outra revista que
merece destaque é Eerie, da Avon, pelo fato de, em sua oitava
edição, trazer a primeira adaptação, para os quadrinhos, de Drácula de
Stoker.
PERSEGUIÇÃO
E BANIMENTO
Conde Vlad
o impalador, figura histórica que deu origem as lendas dos vampiros |
Infelizmente, a
festa noturna acabou cedo. Os quadrinhos de terror – e, por conseqüência, de
vampiros – depararam-se com um grande inimigo na pessoa do psiquiatra alemão
Frédéric Wertham. Em 1954, ele lançou sua obra Seduction of the Innocent
(A sedução do inocente), onde concluía que “a má influência exercida pelas histórias
em quadrinhos, em especial as de terror e crimes” era responsável por casos
de delinqüência juvenil. As idéias de Wertham ecoaram na sociedade conservadora
da época. Houve boicotes de revendedores e até mesmo queima de quadrinhos em
praça pública.
Uma Comissão de
Investigação do Senado foi conduzida e, antes que as coisas piorassem, as principais
editoras formaram a Comic Magazine Association of America (CMAA). Esse
órgão propôs, então, uma auto-regulamentação antes que boicotes de distribuidores,
assustados com a reação popular, decretassem o fim da indústria. Assim sendo,
surgiu o famigerado Comics Code, o código de autocensura dos quadrinhos
(Recentemente, a Marvel Comics aboliu o uso desse instrumento em suas publicações,
mas essa é outra história que você
já leu no Omelete). De imediato, os quadrinhos de terror – e os vampiros
– foram banidos, vítimas do seguinte trecho do código:
“Cenas, ou
instrumentos, associados aos mortos ambulantes, tortura, vampiros ou vampirismo,
violadores de túmulos, canibalismo ou lobisomens estão proibidas”.
Uma lei similar
entrou em vigor no Reino Unido em 1955. Foi renovada em 1965, estando em vigor
até hoje, o que explica o fato de poucas HQs de vampiros e terror serem originadas
por lá.
Os apreciadores
de hemoglobina foram banidos dos quadrinhos, mas não por muito tempo. Afinal,
quem é morto-vivo sempre aparece, como veremos em nosso próximo artigo.
(o)gradecimentos a Daniel Costa (Território HQ), pelas referências
de Buffy e Angel.