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Batman: O cavaleiro das Trevas |

Batman: Ano Um |

O cavaleiro das Trevas 2 |

All-Star Batman e Robin |
A esta altura,
você já deve ter visto tudo sobre os criadores clássicos
do personagem aqui,
certo? Minha pauta para o Especial
Batman do Omelete era escrever sobre os escritores e desenhistas que
deixaram sua marca no Homem-Morcego nas últimas décadas.
Depois de horas
de árduas pesquisas, achei que a matéria ia ficar meio injusta.
Ok, as bat-séries tiveram escritores excelentes e desenhistas marcantes
nos últimos tempos. Mas um único nome supera todos eles. Ou melhor:
define tudo que foi feito com Batman depois. Frank Miller.
Veja os fatos:
Batman é um personagem sexagenário de propriedade de uma mega-corporação
de entretenimento que lucra muito às suas custas. Ele é um ícone,
com diversos elementos imutáveis que o cercam. É difícil
você ter liberdade para fazer algo fora do comum. Há regras a serem
seguidas: Batman não pode morrer ou Alfred virar um vilão, por
exemplo, só porque um escritorzinho gostou da idéia.
Em 1985, Miller
encontrou um jeito de tensionar estas regras. Até então, Batman
já tinha se envolvido em histórias de ficção científica
(anos 50), tornado-se um personagem cômico (a infame série de TV
dos anos 60) e aos poucos voltara a ter algum status de detetive sério
(com Denny ONeil e Neal Adams, nos anos 70). E se nós
voltássemos às origens de Batman, à visão de um
combatente do crime soturno, violento e pragmático, mais ou menos como
ele é apresentado em suas histórias dos anos 30?
Em O
Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight Returns), Miller seguiu
este caminho. Passada 20 anos no futuro, a minissérie apresenta um Bruce
Wayne velho e aposentado que volta à ativa no momento em que Gotham
City está afundando no crime e o mundo passa por uma crise bélica
- uma crítica nada sutil ao clima da Guerra Fria e ao governo Reagan.
Com uma abordagem "os fins justificam os meios", Batman sai das sombras
para impor a justiça do jeito que vê.
Cavaleiro das
Trevas não é só um marco na história do personagem,
mas também na história dos quadrinhos americanos. Miller acabara
de deixar a série do Demolidor, em que tinha
alcançado fama sem precedentes por roteiros inusitados e páginas
experimentais. A DC contratou-o e investiu pesado na promoção
de sua minissérie com o Homem-Morcego. Resultado: conseguiu um best-seller
que atraiu a atenção da grande mídia e serviu de estopim
para os quadrinhos começarem a perder o estigma de "coisa de criança".
Como se isso não
bastasse, Miller ainda utilizou a mini para explorar os quadrinhos como forma
(ou, se você prefere, como arte). Não há cenas de ação
em quadrinhos (fora as do próprio Miller) que superem O Cavaleiro
das Trevas. Repita comigo: ninguém consegue fazer uma cena de ação
em quadrinhos como Frank Miller.
Escritor e desenhista
de mão cheia, Miller puxou suas influências - Bernie Krigstein,
Will Eisner e um pouco dos mangás - para explorar como acontece
a ação nos quadrinhos. "Mas peraí! Quadrinhos não
se mexem!" Ora, não seja pernóstico. Como Scott McCloud
(autor de Desvendando os Quadrinhos) diria anos depois, a sucessão
de textos e imagens que forma a página de quadrinhos está ali
para sugerir movimentos que você "vê" na sua cabeça.
A sabedoria em montar uma boa cena de ação é saber quais
momentos deste movimento devem estar registrados (e como eles devem ser registrados)
para que você provoque uma determinada reação no leitor.
Isto é criar ritmo. Na última edição de Cavaleiro,
quando Batman enfrenta Super-Homem, você chega a sentir os socos, de tão
forte que é o ritmo dado por Miller à seqüência de
páginas.
O super escritor/desenhista
fez mais um trabalho com Batman logo após Cavaleiro das Trevas,
chamado Batman
- Ano Um (desenhado por David Mazzuchelli). Com a mesma visão
do personagem que já havia estabelecido, Miller recontou a origem do
herói de forma inovadora, revelando seus primeiros meses de atividade
em Gotham City. É este trabalho que serve de base para a segunda parte
de Batman
Begins.
"Nunca
mais"
Alvo de títulos
como "o melhor criador de quadrinhos do mundo", "um divisor de
águas na história dos gibis" e outros, Miller resolveu esnobar:
deixou contratos milionários na Marvel e na DC para entregar-se à
nascente editora Dark Horse, onde tinha carta branca para criar o que estivesse
a fim. Ele e Alan Moore, que haviam revolucionado os quadrinhos americanos
nos anos 80, declaravam que nunca voltariam ao mainstream e aos super-heróis.
Foi nessa fase que Miller criou Sin City, a série que dominou
sua prancheta ao longo dos anos 90 (e o filme que a Sony está enrolando
para lançar aqui).
Enquanto isso,
sua influência começava a ser sentida ao longo de toda a indústria
de quadrinhos. Pipocavam os personagens do chamado "grim n gritty",
tipo Justiceiro, com histórias mais "sérias" e violentas.
O estilo foi levado à exaustão até a era Image.
E Batman mudou
para sempre. Passou de mais um herói colorido do universo DC para uma
figura das sombras, obcecado por sua guerra contra o crime, que fala só
o estritamente necessário e pouco interage com outros heróis.
Mesmo o desenho animado do início dos anos 90 adotou esta versão
do personagem. A nova abordagem resultou em muitas histórias interessantes
- quando nas mãos de roteiristas capazes -, mas nada que chegasse ao
nível de Miller.
Felizmente, escritores
de quadrinhos são como aqueles roqueiros que dizem que nunca mais vão
se reunir. Miller logo estava fazendo trabalhinhos para a Marvel (Demolidor:
Homem sem Medo), e pouco a pouco foi se vendendo novamente para a DC. Pior:
com os rumores de uma continuação para Cavaleiro das Trevas,
seu trabalho intocável.
Os rumores se confirmaram
em 2001. Batman:
O Cavaleiro das Trevas II (The Dark Knight Strikes Again) chegou
às bancas como uma nova minissérie, onde Miller apresentava sérias
mudanças em seu estilo de roteiro e desenho, além de demonstrar
uma nova paixão: as histórias inocentes e coloridas da DC da "Era
de Prata" (anos 50 e 60). Metade dos fãs não entendeu o que
diabos era aquilo. A outra metade declarou em alto e bom tom que a continuação
é uma porcaria que não se compara à original.
Mesmo assim, Miller
parece ter iniciado um novo caso de amor com a DC e com Batman. Desde o fim
de Cavaleiro II, há rumores de um nova bat-graphic novel
em que o morcegão enfrenta terroristas (bem dentro do espírito
patriota pós-11 de setembro). E as comic shops americanas estão
ansiosas pela chegada, em julho, de All-Star Batman & Robin, the Boy
Wonder, nova bat-série escrita por Miller e desenhada por Jim
Lee. Sem dúvida, um dos maiores lançamentos do ano.
Assim, indo e vindo,
Miller continua exercendo sua bat-influência. Não é que
Batman não tenha tido criadores notáveis envolvidos com suas milhões
de séries, graphic novels e minisséries nos últimos
20 anos. Teve, e com ótimas histórias. Mas, desde Cavaleiro
das Trevas, ninguém começa um roteiro ou página de
uma bat-história sem pensar na visão de Frank Miller para o homem
morcego. Há 20 anos, todo bat-criador vive à sua sombra.